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autores - Rúben Azevedo

O risco é dispersar ou adormecer

| 04/08/2024

Rafael Sanzio. Escola de Atenas, Vaticano.

“O  Absoluto que habitamos e que nos habita é o verdadeiro motor de toda a aventura espiritual da Humanidade – no pensamento, na religiosidade, na arte, enfim, em tudo o que diz respeito à busca e/ou construção de sentidos para uma existência humana plena e autêntica.” Pintura: Rafael Sanzio, A Escola de Atenas, Museus do Vaticano. Ao centro, as representações de Platão e Aristóteles. Foto © António Marujo

 

Estamos absolutamente no Absoluto, de tal maneira que não conseguimos vê-lo nem conhecê-lo.

Sabemos, porém, algo, positivamente: é que o Ser que habitamos é Consciência, i.e., ser-para-si. Aí também o Absoluto está. Há algum lugar onde o Absoluto não esteja presente, ele que está em toda a parte e inteiramente em cada uma das suas partes?

Assim, somos todas aquelas contradições entrevistas por Heraclito, em particular finito-infinito. Finitos que somos na inexorável parcialidade da nossa vida mundana (o mundo é o condicionado e o limitado), somos infinitos pela unidade absoluta que nos habita e que buscamos para além de todo o dado parcial, seja através da filosofia, da espiritualidade, do amor ou da ciência.

É que toda a nossa existência, bem ou mal, esforça-se por se exprimir tendo em vista precisamente a realização dessa unidade, desse infinito que somos. Mas é claro que nunca logramos fazê-lo completamente, a não ser talvez a espaços, em momentos de expressão pura, criadora, em que logramos – ou assim o julgamos – pôr quanto somos no mínimo que fazemos (paráfrase de Pessoa/Ricardo Reis).

Mas a vitória passa, e cedo se percebe que pouco ou nada se disse acerca do Absoluto. Retorna a insatisfação, a angústia da expressão, até nova vitória ser possível. Porém, isso não significa que, em cada produto da criação, em cada ato de expressão, não se exprimiu qualquer verdade. Exprime-se sempre alguma verdade, quanto mais não seja nas entrelinhas, no tom, no não-dito, porque dizer é por vezes re-velar, isto é, mostrar e ocultar, tirando um véu e pondo outro. Sempre se exprime um desejo, uma aspiração irredutível e sincera, se a expressão for honesta; por vezes tão-só o desejo de dizer, porque o dizer, a palavra, quando visa a expressão verdadeira, é sempre uma aproximação do Ser, um avizinhar-se do Infinito, um acercar-se da verdade ou da beleza intuída. A alma compraz-se nessa aproximação, embora o ser último não possa ser dito, senão por si próprio, através desse logos que está ínsito no coração da consciência e da realidade.

Parece que Bergson dizia que o filósofo fala durante toda a sua vida à falta de poder dizer “aquela coisa infinitamente simples” que habita “num ponto único de si próprio” – i.e. o Ser, o Absoluto. No filósofo incluo o poeta sincero, o artista, o músico, conquanto em todos haja uma honesta intenção de exprimir o essencial, o intemporal, o verdadeiro, contribuindo assim para uma mais plena comunicação entre todos os seres humanos a partir da sua natureza mais elevada.

Com efeito, o Absoluto que habitamos e que nos habita é o verdadeiro motor de toda a aventura espiritual da Humanidade – no pensamento, na religiosidade, na arte, enfim, em tudo o que diz respeito à busca e/ou construção de sentidos para uma existência humana plena e autêntica. É essa radical natureza que faz do Homem um ser-em-aberto; o mesmo é dizer, um ser com vocação para o Infinito, ainda que condicionado pela finitude objetiva do mundo espaciotemporal. É essa radical natureza que lhe dá a sede característicamente humana, incapaz de se satisfazer plenamente com o dado, com o objeto, com a existência meramente animal. Sede que, se não for devidamente sublimada, também destrói e mata, pois conduz ao fanatismo, à ideologia, ao dogma, enfim, à idolatria de um absoluto aparente e dado; ou à profunda angústia daqueles que, como um Antero de Quental, desesperam de a saciar nas fontes eternas, chegando ao cúmulo do suicídio.

Mas o Absoluto não é um dado, quer dizer, uma coisa, uma entre muitas; na luta que a nossa existência inteira constitui pela autenticidade e pelo Sentido, o melhor que podemos esperar é que sejamos revelados a nós mesmos e à fonte da nossa verdade pessoal – quer dizer, que seja revelado em nós o universal, para que vivendo nele, nessa atmosfera mais pura e luminosa do pensamento e do sentimento sublimes, possamos encontrar o sentido das nossas vidas e construir a nossa singular existência como quem constrói uma catedral – para o alto, sempre para o alto, e para dentro, que é o mesmo. Que a nossa expressão seja cada vez mais pura e a nossa liberdade mais satisfatória, senhora, cada vez mais, do seu destino.

Na luta com o Anjo, Jacob jamais foi capaz de conhecer o nome de Deus, porque lhe era impossível, mas foi-lhe revelado o seu próprio nome – ou seja, o seu destino. A “luta com o Absoluto” é condição da nossa realização possível, da descoberta do nosso sentido existencial, no tempo e no espaço. Não devemos querer dar-lhe – ao Absoluto – um nome de uma vez para sempre, ou arrancá-lo de uma qualquer ideologia pré-concebida e pronta a vestir, mas tão-só esperar ser transformados pela busca a que somos, por ele, chamados, até que, pelo exercício cada vez mais reto da nossa liberdade, o nosso destino se nos revele.

A existência humana é transcendência inscrita na imanência. Isto é, a cada dia que passa aspiramos a um novo desenvolvimento do nosso ser, a uma nova revelação, a uma nova descoberta da nossas possibilidades íntimas de pensar e sentir, de exprimir o ser. O que ficou para trás já não nos chega; enfim, teve o seu momento, a sua glória particular, a sua fulguração momentânea; mas agora há que seguir em frente, há que atualizar-se, continuamente.

Há que dar expressão em palavras ou gestos às instâncias morais, intelectuais, espirituais de cada hora. Mas nesta contínua transcensão de si, que é uma contínua auto-revelação, nunca se deixa de estar em si, nem se chega a outro ponto que não seja a si.

O ser do Homem está posto em si mesmo e no absolutamente outro, que é Deus, para o qual o ser do Homem é. Quer dizer, a existência humana é a de um ser que luta por conquistar a sua integridade continuamente, procurando não ser tragado pela corrente inexorável do devir, ou seja, pelo esquecimento de si que o ameaça na passagem do tempo, conduzindo-o à dispersão, ao tédio e à angústia do não-sentido. O esforço que ele põe na conquista do Sentido, em atos e palavras, é precisamente um esforço para não se perder de si próprio, para se encontrar, construindo-se sobre um fundamento cada vez mais sólido, cada vez menos sujeito aos perigos do esquecimento que o tempo acarreta. Quantos de nós nos perdemos de nós mesmos em algum momento da vida, sem sabermos como ou quando, precisamente por termos falhado, pontual ou sistematicamente, à chamada do ser, à vocação de um sentido a realizar. Por não termos sido capazes de atualização, quer dizer, de abraçar a cada hora o seu dever, a cada momento a instância interior de uma expressão necessária, de uma descoberta autêntica, de uma ação que a consciência e a hora exigem – a nossa singularidade e destino revelam-se na hora da decisão que atualiza a liberdade, que se propõe fazer o que nunca foi feito, abrir caminho, ser pioneiro, tanto mais quanto mais adverso for o ambiente, quanto mais tentadoras forem as sereias do conformismo e da resignação perante a norma e o “senso comum”. “Parar é morrer”, diz o povo; mas é preciso que o movimento responda a uma vocação, caso contrário deriva em mera agitação, que não passa também ela de uma forma de esquecimento.

Li, no outro dia, algures, a seguinte frase: “O risco não é ir rumo ao desconhecido, é dispersar ou adormecer.”

De facto, não podemos esquecer-nos de que a vida exige de nós uma vigília, um esforço de consciência, para que o esquecimento não nos impeça de conquistar um mínimo de sentido e autenticidade. O risco, aquilo que nos insta a transcender a nossa condição, a nossa circunstância, as nossas determinações instintivas e pulsionais; a expressar, a descobrir, a realizar a nossa humanidade singular, isso mesmo nos educa e humaniza. A nossa integridade e substância, temos de o recordar continuamente, não nos é dada em bloco de uma vez para sempre; temos de a forjar no tempo e no espaço, em devir, a partir daquilo que em nós é eterno e inamovível, universal e absoluto.

 

Ruben Azevedo é professor e autor de vários livros.

 

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