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Cúpula da Basílica de São Pedro do Vaticano: são gigantescas as tarefas do sucessor de Francisco. Foto © António Marujo

A difícil decisão do conclave (1)

Os trabalhos do novo Papa e os debates para o futuro do catolicismo

| 29/04/2025

É uma Igreja Católica em suspenso.

Não só pela morte do Papa Francisco, mas também – sobretudo? – por aquilo que se passa no mundo e no próprio interior da instituição. Está em causa o futuro do catolicismo, atravessado por muitos debates e com muitos trabalhos à sua frente.

A morte do Papa Francisco, inesperada depois da sua saída do hospital, deixa agora nas mãos de 133 cardeais a escolha do sucessor? E este, de onde pode sair, tendo em conta que o conclave será o mais internacional, disperso e desconhecido de sempre? Virá o futuro Papa de novo do Sul do mundo? Desta vez da Ásia, por exemplo, onde se concentram em iguais doses problemas e potencialidades? Ou regressará à Europa, à procura de um equilíbrio geográfico e cultural?

As perguntas são muitas e também na sociedade as questões são tremendas: atenção aos migrantes, à emergência climática e aos mais vulneráveis, afirmação de uma cultura da não-violência e da paz, proposta de uma economia ao serviço das pessoas e da justiça e não de uma minoria. Na Igreja, os problemas não são menores: tensões e crises internas, processos de reforma a atravessar fases decisivas, a crise dos abusos sexuais e de poder longe de estar resolvida, um poder clerical ainda omnipresente, a lentidão das mudanças no que diz respeito ao papel das mulheres, dos leigos em geral ou do clero…

A resposta católica a questões sociais como as migrações, o clima, a guerra ou a economia tem uma relação profunda com o modelo eclesial e a organização interna da própria Igreja. Uma estrutura segundo o modelo do Concílio de Trento (que decorreu no século XVI, como resposta à Reforma protestante) manterá uma resposta tradicional e centralista e uma atitude de defesa e confronto em relação aos grandes problemas do mundo e da sociedade. A consequência será o agravamento da perda de credibilidade e relevância nas sociedades ocidentais.

Pelo contrário, uma Igreja segundo o modelo do II Concílio do Vaticano (1962-65) tenderá a assumir como seus os problemas da sociedade, a alargar o papel dos leigos e das mulheres e a procurar ser mais fiel à Bíblia e à tradição dos grandes místicos e mestres espirituais da história católica. O Vaticano II, como é referido de forma simplificada, propôs uma visão de Igreja em renovação constante, sempre atenta e em diálogo com sociedade e o seu tempo, perante os quais tem um olhar de bondade, solidariedade e compaixão. Uma Igreja que se define sobretudo como Povo de Deus, onde todos são iguais pelo baptismo, e não já como uma sociedade hierárquica e perfeita.

Mas é entre esses dois modelos que a Igreja vive neste momento: as referências doutrinais e retóricas são as do último Concílio, mas a prática, a vida e organização internas, bem como as formas como ela se entende a si mesma são, ainda, as de Trento. Além do grande centralismo que ainda predomina no seu governo (Cúria Romana ou bispos), podemos tomar um outro exemplo: há cinco séculos, a grande reforma encetada por Trento propôs um modelo de formação para os padres, que deu origem à criação dos seminários tal como hoje subsistem. A formação dos novos padres é o tema de um dos dez grupos criados pelo Papa Francisco para, a partir da reflexão sinodal, apresentarem propostas de acção. O prazo seria até Junho mas, com a morte de Francisco, deverá ser adiado – além de o sucessor ter de confirmar o grupo e os seus objectivos. Até porque, apesar da profunda crise de identidade no ministério sacerdotal, os seminários mantêm basicamente o paradigma tridentino, entretanto posto em causa não só pelo modelo esgotado de poder clerical, pela relação com os restantes crentes, as ciências sociais e a sociedade, como também pela questão dos abusos e pelas muitas experiências de profunda solidão e depressão que atingem boa parte do clero.

Neste campo, uma palavra pode traduzir ainda melhor este exemplo: a linguagem católica continua a usar o termo “sacerdócio”, mais próprio do judaísmo do Templo (até ao primeiro século da nossa era), que remete para um conceito de intermediário com o sagrado e que contribuiu para a criação de uma certa ideia de “casta” separada e acima do resto das pessoas; no cristianismo e no Novo Testamento, a noção mais correcta seria a de “presbítero”, entendida como um serviço ou um ministério.

 

Renovação ou morte?

Assembleia Sínodo dos Bispos, outubro 2024. Foto Clara Raimundo

Alargando o Sínodo dos Bispos à participação de leigos, padres e religiosas, Francisco quis colocar a Igreja numa dinâmica de um profundo debate interno sobre os seus caminhos de futuro. Foto © Clara Raimundo

Estamos perante o dilema “renovação ou morte”? A (falta de) relevância da fé cristã era o problema identificado há poucos anos pelo então professor de teologia da Universidade Católica, Alexandre Palma: “O grande desafio com que o Cristianismo se vê hoje confrontado não é o da sua sobrevivência, mas o da sua relevância.” No prefácio do livro Paciência Com Deus (edição Paulinas) do teólogo e padre checo Tomáš Halík, perguntava a seguir o actual bispo auxiliar de Lisboa: “Como tornar relevante o Evangelho? Como tornar significativa a experiência cristã? Se esta é uma questão de sempre, sê-lo-á ainda mais nas nossas sociedades democráticas e plurais. Aí o mercado das propostas de sentido inflacionou-se. O Cristianismo já não surge como o horizonte hegemónico que dá coesão e solidez aos tecidos sociais e aos percursos individuais.”

A questão da relevância surge, desde logo, pela imagem que a Igreja dá de si mesma e da sua experiência: o recente Sínodo sobre a sinodalidade, que pretendia repensar a organização interna, foi uma das grandes apostas de Francisco – mesmo a sua prioridade, consideram muitos analistas. Realizado entre 2021 e 2024, ele implicou uma larguíssima participação de milhões de pessoas em todo o mundo. Ao mesmo tempo, o seu documento final faz como que a síntese dos grandes temas do pontificado de Francisco, enumera os pontos em aberto e lança as pistas para o debate futuro.

Alargando o Sínodo dos Bispos à participação (com direito a voto) de leigos (incluindo mulheres), padres e religiosas, Francisco quis colocar a Igreja numa dinâmica de um profundo debate interno sobre os seus caminhos de futuro. E, sobretudo, quis fazer o aggiornamento de uma comunidade em que as pessoas experimentam a cidadania e a participação na sociedade e nas estruturas em que estão inseridas, mas têm estado constrangidas a usar o fato da primeira comunhão, naquilo que à sua condição de baptizados e de participação na Igreja se refere.

O papel dos leigos, dos jovens e das mulheres, a transparência e prestação de contas, a redefinição do ministério do presbítero (padre) como serviço à comunidade e não como lugar de poder, o modelo de formação dos seminários, a participação das comunidades locais na escolha dos bispos, a redefinição da moral sexual, o afrontar de vez a questão dos abusos, a recolocação da Bíblia e da espiritualidade como fundamentos para a acção – estes são apenas alguns dos tópicos que implica a mudança no sentido sugerido pelo documento final do último sínodo – ou a perda de relevância irá acentuar-se rapidamente.

Basta, aliás, fazer um exercício simples: a Jornada Mundial da Juventude foi um extraordinário momento festivo e de celebração da possibilidade de convivência nas diferenças; mas onde estão os jovens católicos nas missas, como protagonistas da mudança dentro da Igreja ou como católicos activos na transformação da sociedade no sentido da paz, da justiça ou do cuidado com a casa comum?

A moral familiar e sexual e as questões éticas controversas – procriação, biogenética, aborto, eutanásia, por exemplo – serão outros temas a afrontar nos próximos anos, tendo em conta inclusivamente os avanços da ciência. E são o foco de outro dos dez grupos de estudo nomeados pelo Papa Francisco. Ele repetiu com insistência que preferia os “facilitadores” da fé aos “fiscais” e o debate sobre uma ética que privilegie a responsabilidade sobre a norma terá de continuar. Por outro lado, muitos católicos insistem nos temas do início e do fim da vida – procriação, aborto, eutanásia – mas menosprezam as condições de vida durante toda a vida, que Francisco recordava em permanência: trabalho, casa, terra, justiça, paz.

 

“Uma Igreja que fere”

Papa Francisco com Juan Carlos Cruz, que em criança foi vítima de abusos pelo padre chileno Fernando Karadima. Foto Vatican Media

Papa Francisco com Juan Carlos Cruz, que em criança foi vítima de abusos pelo padre chileno Fernando Karadima. Foto © Vatican Media

A teóloga espanhola Cristina Inogés Sanz, que por nomeação de Francisco foi uma das mulheres leigas com direito a voto no Sínodo e é colaboradora do 7MARGENS. E considera que o tema dos abusos é uma das questões-chave para a credibilidade da Igreja. Sugere a necessidade de “reformar todo o processo utilizado para tomar medidas contra os abusadores, dar prioridade às vítimas nos procedimentos e torná-lo vinculativo para os bispos”. Ao mesmo tempo, acrescenta que é necessário “continuar a intervir em movimentos e congregações em que haja abusos de todo o tipo”. Sem tudo isto, diz, “a credibilidade da Igreja ficará comprometida”.

Por decisão de Francisco, a composição do Sínodo foi alargada, mas isso pode não ser suficiente – e esse será outro dos temas de debate para os tempos que vêm. Sínodo significa, literalmente, “caminhar juntos” e a recente assembleia pretendeu, no fundo, discutir como alargar e pôr em prática o conceito. Mas o que já se fez, sendo relevante e muito positivo, ainda não é suficiente. Cristina Inogés considera que se deve fazer mais: “Que os sínodos passem a ser do ‘povo de Deus’ [isto é, de todos os baptizados], por pura coerência evangélica e que na sua própria estrutura esteja representado todo o povo de Deus” – ou seja, leigos homens e mulheres, religiosas, padres e bispos.

Em linguagem católica, isso será a tradução da ideia da igual dignidade de todos os baptizados. Ou seja, de todas as pessoas que se consideram membros da Igreja. Essa radical dignidade, de acordo com o modelo do Concílio Vaticano II, deve traduzir-se menos numa estrutura hierarquicamente piramidal e mais numa comunidade de círculos concêntricos, com diferentes serviços ou ministérios (bispos, padres, diáconos, religiosos, catequistas, ministros da palavra, da comunhão ou de acolhimento e muitos outros).

Será porventura essa a ideia da Assembleia Eclesial convocada para 2028, uma das últimas decisões de Francisco, confirmada ainda quando estava no hospital, dia 11 de Março, anunciada quatro dias depois. Essa assembleia implicará de novo um vasto processo de debate e auscultação de milhões de pessoas em todo o mundo.

Foi nesse contexto também que surgiu o debate sobre o lugar e o papel das mulheres – incluindo da sua eventual ordenação, que várias igrejas protestantes e anglicanas já aceitam há pelo menos três ou quatro décadas, mas que é recusada pelas igrejas Católica e Ortodoxa.

No documento final do Sínodo – que o Papa Francisco assumiu como seu – a assembleia reconhece essa “mesma dignidade baptismal” de homens e mulheres e que estas são “a maioria das pessoas que frequentam as igrejas”. Mas acrescenta que muitas delas falam “de uma Igreja que fere”, com o clericalismo, o “machismo e um uso inapropriado da autoridade”. Por isso, o documento admite ser “necessária uma profunda conversão espiritual como base para qualquer mudança estrutural”, citando questões como os “abusos sexuais, de poder e económicos [que] continuam a clamar por justiça, cura e reconciliação”.

O texto coloca de novo o dedo na ferida da credibilidade: “Quando na Igreja a dignidade e a justiça nas relações entre homens e mulheres saem lesadas, fica enfraquecida a credibilidade do anúncio que damos ao mundo.” E enuncia depois as questões para aprofundar – obrigatórias no futuro próximo: um “maior reconhecimento e valorização do contributo das mulheres e de um crescimento das responsabilidades pastorais que lhes são confiadas em todas as áreas da vida e da missão da Igreja”, incluindo na inserção “nas funções e nos ministérios existentes” – que é como quem diz, de novo, na possibilidade da ordenação.

A possibilidade da ordenação não é, no entanto, líquida – mesmo para muitos que a defendem: há mulheres (e homens), teólogas, teólogos e não só, para quem a ordenação delas faz sentido apenas num outro modelo de presbiterado. Para essas vozes, não interessa ordenar mulheres para um modelo esgotado e que continua a ser um lugar de poder e não de serviço.

 

A inclusão das mulheres

Papa Francisco com jovens participantes e voluntários da JMJ Lisboa 2023. Foto Vatican Media

“O Senhor não aponta o dedo, mas abre os braços”, disse o Papa Francisco aos participantes da JMJ Lisboa 2023. Foto © Vatican Media

Usando uma estratégia de abrir portas, o Papa Francisco colocou várias mulheres em lugares de topo da Cúria Romana (uma delas terá mesmo recebido, por engano, um mail a convocá-la para o conclave que se inicia dia 7). O facto foi muito elogiado por vários sectores, contestado por outros e visto ainda por algumas vozes como revelador de alguma incoerência. A teóloga e investigadora norte-americana Phyllis Zagano, é uma das que considera que estas nomeações não bastam. Num texto recente publicado no 7MARGENS criticava: “A inclusão de mulheres nas suas infraestruturas deve ser apenas um primeiro passo. Francisco diz que as mulheres são melhores gestoras do que os homens. Será que ele não vê – ou tem medo de o dizer – que as mulheres também podem ser melhores ministras?”

Uma outra “zanga” de Zagano com o Papa Francisco tem sido o facto de ele ainda não permitir que se ordenem mulheres diáconos. Os diáconos podem celebrar casamentos e funerais, por exemplo, mas não confessar ou consagrar o pão e o vinho na missa; e assumem normalmente trabalhos de âmbito social nas comunidades, “substituindo” os padres. Zagano tem defendido (por exemplo no livro Mulheres diáconos: Passado – Presente – Futuro, ed. Paulinas), que houve mulheres, nas comunidades primitivas, que foram ordenadas como diáconos. O Papa Francisco não ficou convencido, no entanto, com as conclusões do trabalho de duas comissões criadas para o efeito – e das quais Phyllis Zagano fez parte; um outro grupo de trabalho, entre os dez já referidos, está nomeado para apresentar um relatório sobre o tema.

A questão das mulheres acaba por ser transversal a vários outros temas e o documento final do Sínodo dá exemplos: “discriminação laboral” e “remuneração desigual dentro da Igreja”, particularmente no caso das religiosas, vistas “muitíssimas vezes” como mão-de-obra barata; necessidade de “ampliar o acesso das mulheres aos programas de formação e aos estudos teológicos” e de as inserir “nos programas de ensino e formação dos seminários”; importância de alterar os textos litúrgicos no sentido de terem “em igual consideração os homens e as mulheres” e de inserirem “uma gama de palavras, imagens e relatos que se inspirem com maior vitalidade na experiência feminina”.

 

“Todos, todos, todos” – com ou sem “mas”…?

Uma das religiosas que permanece em Gaza para ajudar os refugiados cristãos. Foto ACN

Uma religiosa que permanece em Gaza para ajudar os deslocados. “O que pode fazer hoje a Igreja e um Papa perante o avolumar das guerras e da violência social?” Foto © ACN

Sem esgotar o leque, uma outra área decisiva para o debate católico do futuro próximo tem a ver com o “todos, todos, todos” do Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude de 2023, em Lisboa. Vale a pena recordar o parágrafo com as afirmações de Francisco: “Somos uma comunidade de irmãos e irmãs de Jesus, filhos e filhas do mesmo Pai. Amigos, gostaria de ser claro convosco, que sois alérgicos à falsidade e às palavras vazias: na Igreja há lugar para todos, para todos. Na Igreja ninguém é excedentário, ninguém é excedentário, há lugar para todos. Tal como nós somos. Todos nós. E Jesus di-lo claramente quando envia os apóstolos a chamar para o banquete do Senhor que o tinha preparado. Ele diz: ‘Ide e trazei todos: jovens e velhos, sãos e doentes, justos e pecadores. Todos. Todos. Todos. Na Igreja há lugar para todos. Padre, mas eu sou um miserável, sou uma miserável, há lugar para mim? Há lugar para todos. Todos juntos, cada um na sua língua… cada um na sua língua repita comigo: todos, todos, todos. Não consigo ouvir, repitam: todos, todos, todos. E esta é a Igreja, a mãe de todos. Há lugar para todos. O Senhor não aponta o dedo, mas abre os braços.”

A frase, muitas vezes repetida à exaustão apenas como retórica e para a esvaziar de conteúdo – e por vezes até para colocar limites ao “todos”, afirmando que o Papa não quis dizer bem aquilo… –, implica “mudar para que as pessoas que se sentem excluídas possam experimentar uma Igreja mais acolhedora”, como se referia no documento final do sínodo. E os excluídos são as pessoas que se afastaram, as pessoas com visões críticas, as que vivem situações “irregulares” aos olhos da moral sexual e familiar católica (divorciados, recasados, pessoas LGBT, mães solteiras…), mas também, citando de novo o texto sinodal, os “pobres, marginalizados, migrantes e refugiados” – as “periferias”, na expressão cunhada pelo Papa Francisco, quando se referia, antes do conclave que o elegeu em 2013, ao “mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e desprezo relativamente à religião, do pensamento e de toda a miséria.”

No leque de temas a afrontar pelos dez grupos de trabalho criados por Francisco – e que agora terão de ser reconfirmados (ou não) pelo sucessor… – há outros temas relevantes: a linguagem (neste caso, centrada na missão da Igreja num ambiente digital); e o papel dos bispos, que aponta para que eles sejam sobretudo líderes e animadores das mudanças apontadas pelo Sínodo. O lugar dos diplomatas na Igreja, outra estrutura a precisar de uma reforma grande, várias vezes assinalada por Francisco, é tema para outro grupo. Uma outra das últimas decisões do Papa argentino, anunciada seis dias antes da sua morte e já em Plena Semana Santa, foi a de redefinir a missão dos embaixadores do Papa e dar mais consistência à escola que os forma, na Cúria Romana, pretendendo colocar os núncios mais submetidos a uma lógica pastoral e não de controlo, assumindo também eles a prestação de contas e a transparência. O facto de, nos últimos anos, muitas propostas que os núncios têm feito para bispos serem sistematicamente anuladas por Roma tem algum significado…

Finalmente, as consequências nas práticas católicas do diálogo ecuménico são o foco de um outro grupo: temas como os abusos (incluindo os económicos e a “teologia da prosperidade”), a resposta à xenofobia contra os migrantes e o que o Papa tem designado como “ecumenismo de sangue” estão também neste âmbito. No fundo, para responder à insistência de Francisco de colocar as estruturas apenas e só ao serviço da mensagem, pedido que o Sínodo assinou por baixo e que será decisivo também para o futuro próximo.

 

Tristezas e angústias

Padre Timothy Radcliffe durante uma das meditações no retiro espiritual que recedeu a assembleia do sínodo, out 2023. Foto Vatican Media

Radcliffe durante uma das meditações no retiro espiritual que precedeu a assembleia do Sínodo: “Curar as feridas da Igreja, mas também as da humanidade.” Foto © Vatican Media

Mudemos então o horizonte. A assembleia sinodal, iniciada em Outubro de 2023 e com uma segunda parte realizada um ano depois, não olhou apenas para o interior da Igreja – e, nessa perspectiva, apontou outros caminhos de futuro que a nova Assembleia Eclesial de 2028 terá de debater, assumir e repropor a toda a Igreja Católica.

Já em 1965, ao terminar o Concílio, um dos seus textos mais emblemáticos dizia, no início: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.” E justificava-se, logo a seguir: “Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história.”

Esta afirmação tem 60 anos, mas continua a ser um horizonte para os tempos mais próximos. Na síntese da primeira assembleia sinodal, há ano e meio, os participantes recordaram que ela teve lugar “enquanto no mundo grassavam velhas e novas guerras, com o drama absurdo de inúmeras vítimas”. Mas não só: “O grito dos pobres, dos que são obrigados a migrar, dos que sofrem violência ou sofrem as consequências devastadoras das alterações climáticas ressoou entre nós, não só através dos meios de comunicação social, mas também das vozes de muitos, pessoalmente envolvidos pessoalmente com as suas famílias e povos nestes trágicos acontecimentos.”

Tristezas e angústias de mulheres e homens concretos (e muitas crianças, como se vê nas que têm sido assassinadas pelos bombardeamentos israelitas em Gaza, pelos russos na Ucrânia ou pelos senhores da guerra no Congo, entre tantos outros lugares de tragédia), tristezas e angústias que continuam, e que todos os católicos devem assumir, na linha do que propunha este texto da Gaudium et Spes, a constituição conciliar sobre a presença da Igreja no mundo contemporâneo.

Esse foi o sinal que o Sínodo quis assumir como seu, para que a Igreja (hierarquia e fiéis no seu conjunto) o assuma também por inteiro. De facto, não só os participantes ouviram os testemunhos de quem trabalha a apoiar migrantes ou na luta contra a emergência climática, como Francisco promoveu na ocasião a realização de celebrações especiais dedicadas precisamente aos temas da paz (a guerra de Israel contra a Faixa de Gaza tinha apenas começado, depois do ataque terrorista do Hamas) e dos migrantes (neste caso, uma celebração realizada na Praça de São Pedro, junto do monumento que homenageia os migrantes de todos os tempos e todas as etnias).

O cardeal e teólogo inglês Timothy Radcliffe, antigo superior geral dos dominicanos – que foi um dos principais intervenientes no Sínodo, com as suas “meditações” que abriam a discussão sobre os diferentes temas – dizia a dada altura que a oração pela paz, que não integrava o calendário inicial do Sínodo católico, tinha uma relação directa com o que a assembleia estava a debater: o Sínodo não pretendia apenas “curar as feridas da Igreja, mas também as da humanidade” – guerra, emergência climática, escravatura, falta de habitação ou de trabalho. Não por acaso, as três palavras escolhidas como lema da assembleia eram “comunhão, participação, missão”. E se a primeira e a segunda têm a ver mais com a realidade interna da Igreja, a primeira e a terceira implicam também a sua relação com a sociedade.

E o que pode fazer hoje a Igreja e um Papa perante o avolumar das guerras e da violência social, perante o aumento das desigualdades e do poder das tecnológicas e dos super-ricos? Ou perante o crescimento da extrema-direita e dos populismos, do discurso de ódio e do racismo? Ou, ainda perante a distopia e a desregulação do mundo provocadas pela nova administração dos Estados Unidos? Perguntas pertinentes, ainda para mais sabendo que muitos católicos votam, inclusivamente, em quem potencia aquelas situações: cerca de 56% dos eleitores católicos terá votado por Trump (41% em Kamala Harris), nas recentes eleições nos Estados Unidos (contra os 52% que, em 2020, tinham votado Joe Biden, e 47% em Trump; mas já em 2016 Trump tinha tido 50% de católicos com ele, contra 46% com Hillary Clinton). E há católicos a votar nos partidos de extrema-direita de diferentes países europeus (França, Alemanha, Hungria, Itália, Espanha, Portugal)…

 

O estrangeiro, tema definidor

Papa viagem lampedusa sauda migrantes, Foto Vatican News sem creditos

Papa Francisco saúda um grupo de migrantes durante a sua viagem a Lampedusa, em 2013. Foto © Vatican Media

Um dos temas definidores é a questão dos migrantes. Na tradição bíblica (já desde o judaísmo), o acolhimento do estrangeiro é uma questão fulcral para averiguar a fidelidade a Deus. Cristina Inogés considera também que, no caso dos Estados Unidos, as anunciadas deportações de imigrantes indocumentados serão o “primeiro tema” católico para os próximos tempos. “A dignidade humana está acima de tudo” e está a criar-se um “problema gravíssimo com os deportados dos Estados Unidos para Guantánamo ou para outros locais”, afirma. Mas há mais: “Outra questão será o combate à ‘teologia da prosperidade’ que está a ser concretizada com a nova política americana”. Esta corrente tem implícita a ideia de que se é rico porque Deus recompensa a pessoa e quem é pobre é-o porque Deus o castiga. “A mensagem é altamente perigosa. Por isso, será essencial uma voz muito clara sobre esta questão, por parte do Papa e de todos os cristãos, que sabem que não é assim”.

Se o Papa continuar o legado de Francisco será alguém que falará “claramente”, diz a teóloga espanhola, autora do livro A Sinfonia Feminina (incompleta) de Thomas Merton (Paulinas), sobre a relação entre um dos mais importantes místicos contemporâneos e as mulheres. “A prova é a recente carta aos bispos dos Estados Unidos”, em que Francisco criticava vigorosamente a opção de deportação. “Se for outra pessoa, terá de ter uma voz profética acompanhada de muitos gestos que não precisam de ser interpretados, mesmo que sejam gestos que escandalizem alguns. Não haverá espaço para a indiferença nesta nova era.”

Francisco foi uma voz corajosa na defesa da paz nas relações internacionais, da justiça na organização económica e dos migrantes, pobres e vulneráveis nas relações sociais. “É claro que a administração americana, seja quem for o Papa, tentará desacreditá-lo de mil maneiras diferentes”, acrescenta Cristina Inogés. “É precisamente por isso que a voz profética é obrigatória, devendo ser acompanhada por pessoas que sigam a mesma linha, independentemente de pertencerem ou não à cúria. Haverá poucas pessoas para muitas coisas que veremos.”

“Ouvindo o grito dos pobres” é o tema de outro dos dez grupos criados pelo Papa Francisco na sequência do Sínodo para propor caminhos de intervenção à Igreja. Mas, neste campo, parece claro que só uma profunda formação bíblica dos cristãos católicos pode dar base e fundamento a outras opções de vida e de intervenção política que não sejam a de alimentar o sistema que permite que milhões continuem marginalizados do acesso à mesa da comida, ao direito à casa e ao trabalho digno ou à justiça. Nesse sentido, a insistência de Francisco na centralidade da pessoa de Cristo e dos textos dos evangelhos foi um elemento importante, que a Igreja só pode aprofundar.

 

As criaturas a ajudar o Criador

Martin Erspamer, osb, monge da Arquiabadia de São Meinrad (EUA), Simão de Cirene a ajudar Jesus a carregar a cruz; ilustração (pormenor) incluída no livro. 

Martin Erspamer, monge da Arquiabadia de São Meinrad (EUA), Simão de Cirene a ajudar Jesus a carregar a cruz; pormenor da ilustração incluída no livro Carregou as Nossas Dores, de Timothy Radcliffe (ed. Paulinas)

A Igreja Católica tem crescido e continuará a crescer em África e na Ásia. O seu trabalho social é vasto, em ambos os continentes, não só no campo social como também na saúde e na educação, por exemplo. Mas na Europa, nos Estados Unidos ou na América Latina, com sociedades muito fraccionadas, polarizadas e divididas por enfrentamentos violentos e irredutíveis, o papel que ela já desempenhou na promoção da paz (por exemplo, durante parte da Idade Média) pode estar em causa.

O momento internacional mostra-nos à evidência que conta mais o poder de quem tem o poder do dinheiro e das armas. Perante isso, a pergunta já lendária de Estaline – “e o Papa, quantas divisões [militares] tem?” – aparece de novo: ao sucessor de Francisco não restará mais do que o poder da palavra e da persuasão – curto, como se tem visto pelo facto de, nos Estados Unidos ou em Itália, na Alemanha ou na Áustria, os critérios propostos pelo Papa argentino para a acção dos cristãos serem pouco seguidos.

Num campo dramático para a humanidade, o da emergência climática, o Papa Francisco fez-se ouvir e deixou dois textos marcantes – a encíclica Laudato Si’, de 2015, e a exortação Laudate Deum, de 2023. O conceito de “ecologia integral”, cunhado no primeiro desses textos, propõe a escolha de um estilo de vida simples, relaciona as opções individuais e colectivas com os problemas do clima e aponta a ideia do cuidado com o planeta e a solidariedade para com as gerações futuras como parte de uma mesma coerência cristã. Noutro documento decisivo, a encíclica Fratelli Tutti, de Outubro de 2020, Francisco sugeria a fraternidade como motor para as relações internacionais, propondo um fundo mundial para o combate à fome com o dinheiro retirado à produção de armamento e o cuidado com os mais pobres como decisivo para cada sociedade.

Num dos textos bíblicos do Novo Testamento, a Primeira Carta de Pedro (I, 3, 15), lê-se: “Reconhecei Cristo como Senhor, estando sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vos perguntar”. Ao escolher o tema da esperança para o Jubileu 2025 (e para título da sua autobiografia), o Papa Francisco estava a pedir aos católicos, também, que fizessem dela uma esperança activa e concreta – afinal, os problemas são imensos e não é com a passividade dos crentes que eles se resolverão. Ele teria consciência, ao propor essa ideia, que não se pode mais admitir um mundo que, em tantos âmbitos, tem cristãos em posições de liderança, mas que não ajudam a resolver problemas dramáticos como a fome, as guerras ou o desprezo pela vida humana. Pelo contrário, como escrevia Charles Péguy no seu longo poema precisamente sobre a esperança, Os Portais do Mistério da Segunda Virtude: “O Criador tem necessidade da sua criatura, desceu ao ponto de ter de precisar da sua criatura”.

Com sucessor do Papa Francisco, as criaturas terão de continuar a ajudar – e muito – o seu Criador.

 

Este texto corresponde a uma versão adaptada e acrescentada do artigo publicado na revista E, do Expresso, em 28 de Fevereiro de 2025.

 

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