Comecemos… pelo princípio, com um Bom princípio!…
Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos. Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas (…). A multidão, proveniente de todas as nações, ouvia-os falar na sua própria língua. (…) Diziam: «Não são todos galileus os falam? Então como é que cada um de nós os ouve falar na nossa própria língua? (Act 2, 1-10)
Escolhi começar por este excerto bíblico porque descreve um episódio fundamental para todos os crentes cristãos: o Pentecostes, que, aliás, celebramos há umas semanas. E escolhi-o porque, desde criança, sou fascinada pela imagem daquele grupo de apóstolos com chamas na cabeça, que começam a falar todas as línguas – uma chamazinha daquelas teria sido muito útil na minha aprendizagem do Francês – e na altura, achava eu, que todos eram incríveis e que Deus era o máximo em milagres.
Sem nada a ver, mas com tudo a ver, acompanhem-me: celebrámos no passado dia 10 de junho, o dia de Portugal, o país que me viu nascer e onde desejo vir a morrer.
Portugal é um país que se destaca pela história de coragem e de descoberta, caraterizando-se pela sua cultura acolhedora. Portugal foi, desde sempre, um país de diversidade. No pós-ditadura salazarista houve um esforço em promover uma sociedade mais justa e solidária, combatendo toda e qualquer forma de discriminação ou discurso de ódio. Ultimamente, alguns líderes políticos têm falado de portugalidade, de supostos “atentados à portugalidade”, pelo que entendo ser importante lembrar que portugalidade, o que nos caracteriza e define enquanto povo, está também na capacidade de acolher quem vem, de respeitar os outros nas diferenças culturais, religiosas e de orientação sexual.
A portugalidade deve ser uma fonte de orgulho e inspiração, já que a verdadeira força de uma nação não está na supremacia de uns pela submissão e inferioridade de outros; não está no dividir para reinar, está, sim, na capacidade de abraçar a diversidade e promover a paz.
A mistura de origens é uma das riquezas de Portugal. Somos espaço de convivência e intercambio cultural, e aqui todos se devem poder sentir em casa, independentemente da sua origem. A portugalidade está para além de nacionalidade, é a identidade que se manifesta na maneira de ser, de pensar e de viver, valorizando a simplicidade e a autenticidade do povo português, que se revela na hospitalidade e na solidariedade, e é aqui que entram a educação e a consciencialização, ferramentas essenciais para combater o preconceito e fortalecer estes valores, pelo menos assim se deseja que sejam.
Mas, voltemos ao Pentecostes… ao Pentecostes da portugalidade.
Com o tempo fui compreendendo o alcance da mensagem que este episódio quer transmitir. Aquele momento foi como se uma barreira tivesse sido destruída por um fenómeno de comunicação que (re)uniu pessoas de diferentes origens, de todas as nações, que se entendiam perfeitamente: era o vislumbre do reino que Jesus Cristo veio revelar.
Compreendi que o mais espetacular não era terem falado todas as línguas, espetacular era que todos entendiam o que era dito, e entendiam-no não pela intervenção divina em si, mas porque passaram a ser capazes de amar, e quando se ama e se permite deixar amar, a linguagem só pode ser uma: a do Amor, a língua que todos entendem.
Santo Agostinho diz “ama e faz o que quiseres”, pois eu hoje digo: portugaliza-te e faz o que tem de ser feito, como deve ser feito, com Amor!
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










