Se eu morrer,
faça com que eu traga esperança
faça com que eu seja uma história!
(Refaat Alrareer, intelectual e poeta palestiniano,
professor de inglês e fundador do projeto “We are not Numbers”.
Alrareer foi morto por um bombardeamento israelita
na Faixa de Gaza em 6 de dezembro de 2023.)
No Dia do Pai – já vai longe! – a minha filha presenteou-me com um pequeno livro de poesia, Chuva de Jasmim de Shahd Wadi, editado pela Caminho. Confesso que desconhecia a poeta, embora não seja uma desconhecida no panorama da poesia palestiniana em Portugal, já que havia escrito o prefácio ao livro Se eu tiver de morrer – Poesia de Resistência Palestiniana – séc. XXI, publicado em 2024 pela Editora Traça, mas agora esgotadíssimo. É coautora da antologia Volta Para a Tua Terra: Não há Abril sem Imigrantes (Urutau, 2024) e autora do livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017), que resultou da sua tese de doutoramento em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra em setembro de 2013, sendo esta a primeira tese em Portugal de estudos feministas. Aliás, já em janeiro de 2010, na mesma universidade, havia defendido uma dissertação de mestrado sobre a mesma temática: “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências”. A procura de um “eu” palestiniano na insubmissão das mulheres palestinianas exiladas que carregam na sua trouxa memórias de uma Palestina onde não podem estar ou ir e que fazem das suas histórias de vida a arte de uma resistência identitária.

“A viver em Portugal desde 2006, a sua história, tal como ela própria conta, terá começado em 1948 com a Al-Nakba.” Foto Retirada de vídeo RTP (26 junho 2024)
Mas quem é esta mulher palestiniana, “portuguesa por amor” – apesar do sotaque lhe trair a nacionalidade -, de sorriso franco e empático, às vezes enigmático, cabelos algo esgrouviados e olhar penetrante, que fez de Portugal, o país “do mais ou menos”, a sua terra para viver e que ao aterrar em Lisboa pressentiu que era a cidade que havia sonhado? E diz sonhar em português.
Escolhi viver na terra do mais ou menos.
Nem isso, nem aquilo, um vai andando.
Um bacalhau demolhado, nem cru, nem cozinhado.
A viver em Portugal desde 2006, a sua história, tal como ela própria conta, terá começado em 1948 com a Al-Nakba, onde cerca de setecentos e cinquenta mil palestinianos foram expulsos de suas casas, entre os quais os seus avós paternos, e se viram forçados a fugir da violência, fosse, numa primeira fase, dos grupos paramilitares sionistas fosse, após o estabelecimento do Estado de Israel, do exército desse recém-criado estado. Como disse numa entrevista uma realizadora israelita cujo nome não me recordo, quando os seus avós entraram na casa palestiniana que lhes fora destinada ainda se sentia o cheiro da comida quente nos pratos sobre a mesa. Hoje, 70% dos habitantes de Gaza são descendentes dos palestinianos de outras regiões que ali encontraram refúgio em 1948.

Chuva de Jasmim, talvez porque um dia lhe disseram que era palestiniana, é, como seria inevitável, uma poesia muito biográfica. A sua história é semelhante à de muitos outros palestinianos da diáspora:
Sou estrangeira em todo o lado e sou de todo o lado.
Nem isso, nem aquilo: sou eu.
Não sou daqui, nem dali, sou de onde for não esteja.
Sou eternamente o eu e a outra.
Não sou poesia, nem prosa, sou um corpo.
O corpo que não é.
(…)
Não estou aqui ainda
e já não me lembro dali.
Nem a memória nem o esquecimento,
sou o nunca-agora.
(…)
Os seus avós exilaram-se na Cisjordânia onde, um ano após a fuga, próximo de Ramallah, nascia numa tenda de refugiados Farouk Wadi seu pai. Em 1967, mais uma vez, a família viu-se obrigada a exilar-se na Jordânia. Entretanto, o pai apaixonara-se e casara-se com uma mulher egípcia que conhecera em Alexandria. Instalaram-se então no Líbano, onde o pai era investigador no Centro de Estudos Palestinianos numa altura em que ser “palestiniano” era visto como crime, foi preso. Em mil novecentos e oitenta e três, em plena guerra civil, perante a ameaça da expulsão, a mãe improvisou de súbito uma nova vida, viajando para a cidade de Alexandria 24 horas antes do nascimento de Shahd, no Egipto, a 3 de fevereiro de 1983.
Mulher de lugares vários, a Palestina tornou-se o seu projeto de vida, desde que aos quinze anos pisou, pela primeira vez, o solo da Palestina. Foi nessa altura que os pais exilados na Jordânia foram autorizados a ir à Cisjordânia. Começou a escrever aos oito anos para imitar o pai, Farouk Wadi, escritor e pintor (morreu em Lisboa em 19 de setembro 2022). Apesar de portuguesa, ela é palestiniana, porque a sua “liberdade é palestiniana e a “Palestina é uma escolha por ser uma resistência.”
Essa pátria, onde um dia sonha voltar, lugar mágico onde permanecem as suas raízes, o seu passado, mesmo quando entre o passado e o futuro existe um hiato preenchido por ódios ódios, mortes, guerras… mas nunca desesperança.
“Mas aquele meu povo palestiniano não largou ainda a tal doença incurável chamada esperança?”
(…)
Um povo só, ensina o mundo a bater asas.
Ainda não sabe voar,
mas já canta, exatamente como os pássaros.

Pintura de Farouk Wadi, escritor e pintor que morreu em Lisboa em 19 de setembro 2022.
Disseram-lhe que era palestiniana, uma pátria que é a sua, mas onde não nasceu e que nunca foi o seu lugar, porque lhe fora proibido por ser árabe, apesar do passaporte português. É uma pátria tecida de memórias e de resistências irmanadas na dor e solidária na esperança. Essa esperança e resistência simbolizadas nas oliveiras que rebentam no meio dos pinheiros europeus plantados pelos colonos. “E as oliveiras voltaram a crescer, porque a natureza também guarda memória, porque existe na natureza uma resistência poética.”
Sou o toque entre duas peles.
na linha que nos separa eu habito.
Nem a pátria, nem o exílio é aqui.
Nem isso, nem aquilo: sou eu.
Sou a própria fronteira.
Ela é a própria fronteira. Esse lugar não neutro, mas equidistante, lugar privilegiado de observação e não de separação. O lugar onde se sente confortável, talvez por mais próximo do lugar onde um dia espera voltar.
Ser mulher não é de somenos importância, porque são as mulheres que transportam as memórias não reveladas, as dores silenciadas, o silêncio de uma resistência de mães, esposas, sogras, noras, filhas… tecida na sombra dos heróis. Com a ocupação, as mulheres foram emergindo no espaço público, tornaram-se guardiãs de uma memória onde Shahd se inspira e revitaliza.
Estando fisicamente longe, Shahd mostra-nos através da sua poesia o quanto o horror e a morte estão tão próximos da sua dor, da sua revolta, do seu exílio:
Por serem palestinianas, para sempre
desapareceram do lugar para onde fugiram
Morreram sem jantar.
Como pode ela ignorar o destino de gente cujas notícias lhe chegam todos os dias através das novas tecnologias?
O nó na minha garganta é agora uma vala comum
E assim, também ela vai morrendo aos poucos ao ritmo das notícias que lhe chegam:
Respiro toda a morte,
E morro-me morrendo devagar
ao morrer do sol
A sua poesia é tecida de memórias e de dor, uma espécie de filigrana de corpos à espera de um abraço adiado até à eternidade. Uma dor que radica no fundo do tempo e de onde se exala um perfume de esperança e de resistência. Sim, porque toda a poesia palestiniana é de esperança e de resistência. Como ela própria afirma escreve poesia em português com sotaque palestiniano… “o sotaque da liberdade”.
Uma poesia às vezes visceral que lhe vem dos primórdios dos tempos:
Colocou dos dedos na garganta vomitando propositadamente a alma
Sei
que não gostas de ver
sangue de crianças ao jantar,
mas no fundo do ecrã
da minha panela
não há outras.
Um povo que não desiste de viver com esperança e arte. Um país que dança. E um dia, os pais dirão aos meninos e meninas que do céu não caiem apenas bombas, mas também chuva de jasmim.
O meu texto é um povo
(…)
O meu texto é silêncio
(…)
O meu texto são escombros sem nome
(…)
O meu texto somos nós em sacos de plástico
(…)
O meu texto é incurável
(…)
O meu texto é um bairro
(…)
Um dia haverá chuva de jasmim
O meu texto é chuva de jasmim

“Entrego-vos a minha inquietação do nada/ para que se torne nossa.” Foto da badana do livro © Miguel Sobral Cid
Notas finais sobre poesia palestiniana
. Poesia de resistência – “Se eu tiver de morrer”, Jornal de letras, 21 dezembro de 2024
. A poesia palestiniana não sussurra, grita — cada vez mais alto. Amanda Ribeiro, Público, 7 fevereiro 2025
. O poeta palestiniano Mosab Abu Toha quer “encontrar esperança sob os escombros”. Público, Amanda Ribeiro, 7 fevereiro de 2025.
. Poeta Refaat Alareer escreveu “Se eu tiver de morrer”. Foi morto num bombardeamento. Público, Jonathan Edwards, 14 dezembro de 2023.
. Poesia e libertação
. Poesia palestiniana do séc. XX
. Gaza, terra da poesia
. A poesia palestiniana não sussurra, grita — cada vez mais alto. Amanda Ribeiro, Público, 7 fevereiro 2025
. O poeta palestiniano Mosab Abu Toha quer “encontrar esperança sob os escombros”. Público, Amanda Ribeiro, 7 fevereiro de 2025.
. Poesia palestiniana da resistência.










