Papa entregou cruz peitoral às famílias vítimas da barragem de Brumadinho, no Brasil
(Texto 7M/Unisinos)

A cruz peitoral usada por Francisco pelo Papa Francisco, que ostenta a imagem do Bom Pastor.
O Papa Francisco entregou a sua cruz peitoral às comunidades brasileiras de Brumadinho, devastadas no início deste ano pela tragédia do rebentamento de uma barragem que fez, até agora, 241 mortos, havendo ainda 30 desaparecidos e centenas de desalojados.
A entrega foi feita neste sábado, 18 de maio, pelo enviado do Papa, monsenhor Bruno Marie Duffè, que esteve de visita àquele município, atingido pelo que é quase unanimemente considerado um crime da empresa Vale. A entrega ocorreu durante atividades do ‘Sábado da Compaixão e da Solidariedade: Visita e Celebração da Esperança’.
A cruz irá agora passar por cada família das comunidades de Brumadinho e ficará depois exposta no memorial que será construído pela arquidiocese de Belo Horizonte, segundo noticiou o blog Fala Chico, citado pela newsletter do Instituto Humanitas da Unisinos.
Bruno Marie Duffé, secretário do Vaticano para o Desenvolvimento Integral, esteve em Brumadinho, tendo reafirmado o compromisso do Vaticano em permanecer no apoio às comunidades que defendem os seus territórios frente à mineração, ao transmitir a mensagem de solidariedade do Papa Francisco aos familiares das vítimas do rompimento da barragem (uma boa parte dos corpos continuam por identificar).

A cruz usada pelo Papa era a que já tinha enquanto arcebispo de Buenos Aires e mostra um pastor carregando aos ombros uma ovelha, uma alusão à parábola da ovelha perdida que o pastor vai procurar e transporta consigo quando a encontra. Uma referência à ideia de que os lugares de responsabilidade são, essencialmente, lugares de serviço.
Procissão até à lama bloqueda
É de salientar que, na comunidade do Córrego do Feijão, a empresa Vale bloqueou a procissão em que se integrava o representante do Papa, impedindo que chegasse até à zona de lama. “Um momento forte que revelou um Estado capturado pela empresa, uma organização criminosa, que controla a cena do crime e o território”, segundo o blog Fala Chico.
Já na comunidade do Parque da Cachoeira, a Vale tentou fazer o mesmo bloqueio, mas a comunidade, o representante do Papa, padres, religiosos e religiosas não pararam diante da barreira de funcionários, e chegaram mesmo até à lama. Foi assim possível fazer a bênção da lama, “essa grande sepultura de vidas humanas, fruto da ganância das corporações mineiras”, ainda de acordo com a reportagem do Fala Chico.
Segundo esta fonte, Duffé fez também “severas críticas ao liberalismo que tem o dinheiro como prioridade, deixando as pessoas e a natureza em segundo plano, o que resulta em ocorrências como as dos crimes em Mariana e Brumadinho”.
Afirmou ainda que “as populações não podem viver num clima de insegurança e de irresponsabilidade, como nos casos de iminência de rompimento de barragens, na região metropolitana de Belo Horizonte”, aludindo explicitamente à situação de perigo iminente de uma outra barragem no município de Barão de Cocais, onde um talude já colapsou.
Durante a visita à comunidade de Córrego do Feijão, o responsável do Vaticano ouviu testemunhos de fiéis que perderam familiares e seus meios de vida em consequência do rompimento da barragem. Emocionado, partilhou: “consigo imaginar a dor do povo de Brumadinho e trago, a pedido do Papa, uma mensagem de esperança. Crendo que, no Córrego do Feijão, está o coração da Igreja e da humanidade”.

Vista da zona inundada no Brumadinho. Foto © CNBB.
Bispos criam comissão para meio ambiente
Na sexta-feira passada, véspera desta evocação das vítimas de Brumadinho, o representante do Papa participou, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, em Belo Horizonte, no seminárioA Mineração e o Cuidado com a Casa Comum. A iniciativa debateu a missão da Igreja Católica na defesa da Casa Comum e o seu necessário posicionamento frente ao modelo económico extractivista.
O arcebispo de Belo Horizonte, Walmor Azevedo, recém eleito presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que estava a participar na assembleia geral do Conselho Episcopal Latino Americano (Celam), nas Honduras, viajou para o seu país para presidir ao seminário. O arcebispo destacou a relevância da iniciativa e sua sintonia com a encíclica Laudato Sí’, do Papa Francisco, que trata do desafio de cuidar da Casa Comum.
“Este seminário tem altíssima relevância, pela importância do tema, pelos desafios que nós enfrentamos com o meio ambiente, a exigência do cuidado com a Casa Comum. Tem grande importância porque entrelaça corações e mentes na mesma direção – o coração da arquidiocese de Belo Horizonte e o coração do Papa Francisco – por meio da presença de mons. Bruno-Marie Duffé, do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, com os muitos grupos religiosos e segmentos da sociedade. Somos todos nós, juntos, nos dando-nos as mãos e os corações, para fazermos um novo caminho, que é tão necessário, se quisermos um desenvolvimento integral, se desejarmos um desenvolvimento sustentável”, afirmou Walmor Azevedo.
O arcebispo anunciou, naquela circunstância, que a CNBB vai criar uma comissão episcopal para tratar de assuntos referentes ao meio ambiente e desenvolvimento, em especial a mineração, com foco no diálogo da Igreja com setores da sociedade, com o poder legislativo e outras instâncias.
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