
Américo Aguiar, já com as vestes cardinalícias, saudado por um elemento da Guarda Suíça, na sessão de cumprimentos que se seguiu ao consistório. Foto © António Marujo/7MARGENS
O Papa Francisco quer que os novos cardeais, entre os quais o português Américo Aguiar, sejam “evangelizados e evangelizadores, não funcionários”, como membros de uma orquestra que reflicta a ideia de que “a diversidade é necessária e indispensável”.
Na homilia do consistório desta manhã na Praça de São Pedro (Vaticano), no qual foram formalmente investidos 21 novos cardeais da Igreja, o Papa tomou um texto do livro bíblico dos Actos dos Apóstolos para inverter a leitura que habitualmente dele se faz. Trata-se do episódio que narra o Pentecostes, quando os discípulos mais próximos de Jesus, reunidos em Jerusalém, recebem o Espírito Santo. O texto evoca uma lista de povos que estavam na ocasião em Jerusalém. E é esse elemento que inclui uma “surpresa” escondida: “É o facto de que nós, pastores, ao lermos a narração do Pentecostes, normalmente nos identificamos com os Apóstolos. É natural que assim seja”, disse o Papa. “Os Apóstolos eram ‘todos galileus’, enquanto o povo que se reunira era ‘proveniente de todas as nações que há debaixo do céu’, precisamente como o são os bispos e os cardeais no nosso tempo.”
Francisco explicou depois a “inversão de papéis” que descobriu no texto: “Trata-se de nos aplicar (coloco-me a mim, primeiro, no caso) a experiência daqueles judeus que, por dom de Deus, se viram protagonistas do acontecimento do Pentecostes, [ao] redescobrir, maravilhado, o dom de ter recebido o Evangelho ‘na nossa língua’ (…). Repensar com gratidão no dom de ter sido evangelizados e de ter sido tirados de povos que, cada um no seu tempo, receberam o kerygma, o anúncio do mistério de salvação, e acolhendo-o foram batizados no Espírito Santo e passaram a fazer parte da Igreja: a Igreja Mãe, que fala em todas as línguas, que é una e é católica.”
Esta leitura do texto escolhido “deveria despertar” nos clérigos “a maravilha e a gratidão” por terem “recebido a graça do Evangelho” nos “respetivos povos de origem”. E acrescentou Francisco: “Com efeito, somos evangelizadores na medida em que conservamos no coração a maravilha e a gratidão de ter sido evangelizados; melhor, de ser evangelizados, porque trata-se, na realidade, de um dom sempre actual, que pede para ser continuamente renovado na memória e na fé. Evangelizados e evangelizadores, não funcionários.”
Recusando que a Igreja viva “de rendimentos” e se reduza a um “património arqueológico”, o Papa usou depois a imagem da orquestra para os membros do Colégio Cardinalício: “Uma sinfonia vive da sábia composição dos timbres dos diversos instrumentos: cada um dá o seu contributo, ora sozinho, ora combinado com outro, ora com todo o conjunto. A diversidade é necessária e indispensável. Mas cada som deve concorrer para o resultado comum.”
O maestro, por seu turno, deve “ouvir mais do que todos os outros e, ao mesmo tempo, a sua tarefa é ajudar cada um e a orquestra inteira a desenvolver ao máximo a fidelidade criativa, a fidelidade à obra que se está a executar, mas criativa, capaz de dar uma alma aquela partitura, de fazê-la ressoar duma forma única aqui e agora”.
“Setúbal no coração”

Américo Aguiar, nomeado bispo de Setúbal, e o seu antecessor no cargo, José Ornelas: “Tem Setúbal no coração”, pediu o Papa ao novo cardeal. Foto © António Marujo/7MARGENS.
Eram 10h39 (9h39 em Lisboa) quando o Papa entregou ao presidente da Fundação Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e agora designado bispo de Setúbal o anel e barrete cardinalícios, símbolos do novo cargo, bem como a bula que atesta a nomeação. A cerimónia decorreu na Praça de São Pedro, mas perante uma assmbleia pouco numerosa.
O novo cardeal português – o quarto com direito a voto num conclave – ficou com o título da Igreja de Santo António de Pádua na Via Merulana, em Roma, da qual já foram titulares o então cardeal-patriarca de Lisboa, António Ribeiro (1973-1998), e o brasileiro Claudio Hummes, que foi quem disse a Jorge Bergoglio “não te esqueças dos pobres” e levou o então arcebispo de Buenos Aires a escolher o nome de Francisco como Papa.
Precisamente quando estava a subir para receber os símbolos, o agora cardeal Américo Aguiar disse que sentiu “o peso da responsabilidade partilhada”. Depois de lhe ter entregue o anel e o barrete, o Papa pediu-lhe para ter “Setúbal no coração”, contou o próprio a um grupo de jornalistas portugueses, depois da cerimónia, e quando se preparava para receber cumprimentos de amigos e convidados – entre os quais a ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, o ministro das Finanças, Fernando Medina, e o presidente do PS, Carlos César, além de vários bispos portugueses, a começar pelo ex-bispo de Setúbal, José Ornelas.
Na rede social X (antigo Twitter), o primeiro-ministro escreveu que o título de cardeal é um “reconhecimento” do “mérito e trabalho” de Américo Aguiar. António Costa acrescentava que o novo cardeal vai agora para uma diocese “muito importante e exigente, Setúbal, onde seguramente também fará um excelente trabalho”.
Ana Catarina Mendes, que esteve na cerimónia, uma vez que tutelou no Governo a organização da JMJ, afirmou no final aos jornalistas que este foi “um momento muito especial para o país e para a Igreja portuguesa”. Com a nomeação, o Papa e o Vaticano reconhecem também “todo o trabalho de sacerdote e bispo” de Américo Aguiar, e a afirmação de “Portugal como um país de encontro”.
O novo patriarca de Lisboa considerou por seu turno que o novo cardeal traduz a aposta do Papa na juventude. O próprio Rui Valério esteve na quarta-feira, num bar do Cais do Sodré, a apresentar o programa de pastoral juvenil do Patriarcado para 2023-24. “Foi um gesto simbólico de longo alcance, mas partiu da vontade de eu estar com os jovens onde eles estão e de me pôr a par e passo com a sua linguagem.”










