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Para uma hermenêutica prospetiva

| 12/12/2024

Publicamos do nosso colaborador José Alves Jana a sua comunicação no congresso A Racionalidade Hermenêutica e o Futuro das Humanidades, o qual teve lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de 26 a 28 de Novembro.

Saúde mental

“O cérebro humano é maior e sobretudo mais complexo. Contudo, as chamadas “crianças selvagens” mostram que os seus cérebros não lhes garantiram um comportamento humano normal, isto é, acessível a um qualquer ser humano comum.” Foto © Tumisu / Pixabay

 

1. “Se queres ver o teu corpo, mata um porco”, diz o ditado popular. Mas, se entre o corpo de um porco e um corpo humano, não há grandes diferenças, pelo menos aparentes, entre uma vara de porcos e um grupo de seres humanos as diferenças são manifestas de imediato. De onde vêm estas diferenças?

A resposta parece simples: a diferença está no cérebro. O cérebro humano é maior e sobretudo mais complexo. Contudo, as chamadas “crianças selvagens” mostram que os seus cérebros não lhes garantiram um comportamento humano normal, isto é, acessível a um qualquer ser humano comum. Também não é daí, portanto, que vem a diferença.

Abreviando: aquilo que torna humano um corpo da espécie homo é o cérebro, a linguagem e a comunidade de que faz parte. Vejamos um exemplo simples: dotado de um cérebro capaz, um ser humano aprende a língua falada na sua comunidade de pertença. Se essa aprendizagem não for feita na janela de oportunidade da formação do seu cérebro, esse comboio não passará segunda vez. Todos sabemos isso. Porque foi estudado e está divulgado. Mas não concluímos daí que também as outras possibilidades humanas precisam de ser atualizadas em sociedade, caso contrário não se tornarão capacidades e ações específicas.

2. Não é no corpo humano que está o segredo do humano, mas na interação entre um corpo humanizável e uma sociedade humana. É na sociedade humana que está o poder do humano.

O corpo humano é natural, pertence à ordem da natureza e apenas se torna humano se for trabalhado pela ordem da cultura de modo a ter um comportamento superior ao que lhe é garantido pelo património genético.

3. Por debaixo do humano está o natural, individual e já social. A vida individual e social está, por isso, sempre sujeita à entropia, que puxa a vida para baixo, para o natural, que tende a afirmar-se por si mesmo. Só a neguentropia, uma força capaz de puxar para cima e contrariar a primazia do natural, pode por um lado sustentar o humano adquirido, por outro elevá-lo a patamares ainda superiores.

4. As coisas são como são, o mundo é como é. As ciências oferecem-nos o melhor conhecimento disponível enquanto descrição e explicação do que são as coisas, as forças, os processos do mundo e da vida. Mas do que “é” o mundo não decorre o que o mundo “deve” ser. Quanto mais não seja porque, todos o sabemos, daquilo que o mundo é decorrem múltiplas hipóteses sobre o que pode vir a ser.

5. Que vida queremos no mundo? Que mundo queremos que seja? Isso não é, nem pode ser, respondido pelas ciências.

6. Basta olhar, hoje, para o mundo com um pouco de atenção para percebermos que alguma coisa de grave e iminente está para acontecer. Como sempre, coloca-se-nos a eterna questão: que fazer?

É claro que é possível fazer muitas coisas diferentes, entre elas não fazer nada e deixar que as coisas aconteçam.

A associação MEERU promove relações de amizade entre famílias migrantes ou refugiadas e pessoas locais das comunidades onde vivem. Foto MEERU

“Que vida queremos no mundo? Que mundo queremos que seja? Isso não é, nem pode ser, respondido pelas ciências.”  Foto MEERU

 

7. Se não são as ciências a dar-nos a resposta ao “que fazer?”, de onde pode ela vir? Quais são as atividades humanas que têm essa tarefa? São a religião, a arte e a filosofia. Mais concretamente, as religiões, as artes e as filosofias.

Ao contrário das ciências, que se baseiam na (boa) observação e explicação do que é, estas atividades são da ordem da criação do que não é mas “deve” ser, do que queremos que seja. A religião, a arte e a filosofia criam o sentido, isto é, o significado e a direção da vida no mundo. Uma religião, um trabalho artístico, uma filosofia são propostas de mundo e ainda o exercício de construção do mundo proposto.

8. Assim como o conhecimento científico resulta de uma hipótese validada na observação do mundo, também a proposta criativa de um mundo “melhor” tem de ser validada. Como? Na vida. Uma vez ensaiada a proposta de vida, há que verificar se a vida se reconhece como melhor, mais válida.

9. Vemos, deste modo, por exemplo, que não foi bom deixarmos arrastar o problema de Deus para a questão “Deus existe ou não existe”, um problema de matriz objetiva, logo improdutiva neste campo. É muito mais produtiva a hipótese de que “Deus não existe” porque, mesmo não existindo, tem feito um trabalho poderoso. Do mesmo modo, arrastar o debate sobre as religiões para o campo da verdade histórica das narrativas sagradas é ignorar que tais narrativas são de outra ordem, são ficções que visam dar corpo a uma proposta de mundo.

Também as artes foram seduzidas pelo foco na inovação de formas e materiais, esquecendo muitas vezes o trabalho que continua decisivo de (re)criação do humano, o que “deve ser” o significado e o sentido da vida.

10. Talvez uma afirmação de Lídia Jorge possa trazer aqui alguma luz: «Não é fácil escrever ficção, ao contrário do que se faz constar. Não basta ter uma história. Uma história, por mais imprescindível que seja, nunca chega. Uma história, enquanto tal, nunca passa de uma narrativa sem verdadeiro objecto, se o ponto de vista não permite uma proposta de mudança em face da realidade, ou pelo menos não avança dados para uma interpretação que a mova do seu lugar fixo do acontecido para o lugar onírico do desejado.»[1] Os textos sagrados de qualquer religião não dizem o que factualmente foi; são o corpo de uma proposta de mundo e parte integrante do trabalho de construir esse mundo.

11. E se olharmos os trabalhos da arte e da filosofia, vemos que uma das dimensões decisivas é a construção do que é isso de ser homem ou mulher, de sermos humanos, de sermos uma comunidade que se quer humana. A hermenêutica não diz o sentido que é. Pelo contrário, diz o sem-sentido do que é e, a partir daí, cria o sentido que queremos que seja e desafia-nos a estarmos à altura desse sentido maior, transcendente ao plano factual do mundo da vida. O que interessa é a vida que queremos ser capazes de construir no mundo, o decisivo é o mundo que queremos construir para que a vida seja boa, melhor do que é.

O recente livro de Paul Ricoeur “L’Imagination”[2] mostra que a imaginação foi (quase) sempre pensada como imaginação reprodutora, mas há que pensá-la como imaginação criadora.

12. A hermenêutica da vida é essencialmente prospetiva. Assim como a prospeção do minério visa encontrar por exemplo o ouro desejado, também a hermenêutica visa encontrar, afinal, a forma do paraíso que sempre se procura. É a vida que se reconhece insatisfeita e insatisfatória e terá de ser ela a reconhecer a qualidade daquilo que for construído. Nenhuma autoridade maior que a vida pode dar o sentido da vida e avaliar a qualidade da vida vivida, ao mesmo tempo nos planos individual e social.

Mas este jogo humano em que sempre estamos lançados mostra-nos, por um lado, que o sentido da vida não vem daquilo que é nem da descrição e explicação do que é, não nos é dado pela natureza das coisas, e mostra-nos, por outro, que o sentido é sempre sobrenatural, isto é, está para lá da instância natural do acontecer. Ou seja, resulta da criação humana que projeta um ponto alto, um atrator das formas de vida capaz de negar a entropia da ordem instaurada, ou seja, capaz de afirmar a neguentropia de que as comunidades humanas desde sempre se revelaram capazes, ao mesmo tempo que se afirmam também como capazes da maior desumanidade. O humano nunca está garantido só porque a proposta de mundo promete responder aos anseios que brotam da vida.

Simplificando: todos sabemos que é da natureza da vida humana seguir a ordem do nascer, crescer e morrer. Mas não é aí, na ordem das coisas, que está o significado da vida. Este está no que nela fazemos entre o nascer e o morrer. E isso que fazemos não nos é dado pela natureza, mas fruto de uma hermenêutica criadora, tanto ao nível pessoal como coletivo. Nada está garantido, uma proposta de florescimento da vida, pessoal ou coletiva, pode decair na maior das desumanidades. Como vimos acontecer tantas vezes ao longo dos tempos.

13. Este é o desafio de sempre. O mesmo a que foram sujeitos os primeiros seres humanos, também os de há mil anos e a que somos também chamados nós hoje. O humano nunca é um dado, nunca está garantido, é sempre um duplo desafio: conservar o humano já conseguido e recebido das gerações anteriores e levar mais longe e mais alto aquilo que somos capazes de ser e queremos que seja – na nossa vida e nos pequeno e grande mundos que são os nossos.

14. Há desafio mais interessante e mais apaixonante para as atividades da hermenêutica? Há nisto alguma inferioridade relativamente às atividades das várias ciências? Pode haver alguma confusão entre ciências e atividades hermenêuticas?

15. Mostra-nos a História que sim, que pode haver, mas em resultado de algum desvio… que precisa de ser esclarecido. Por um lado, desvio no interior das atividades hermenêuticas, que quiseram tornar-se ciências; por outro, no interior das ciências, que quiseram tornar-se mais do que podem ser.

16. Um outro desvio tem a ver com a tentativa de colocar de lado as ciências, como se elas fossem inimigas da vida boa: não o são, pois são elas que nos podem dizer de forma sólida como são os processos que é necessário saber gerir e, por isso, quais são as possibilidades presentes, isto é, que estão à nossa disposição e são ainda elas que nos podem monitorizar o sucesso das propostas de vida e de mundo que criamos e estamos a concretizar.

17. A hermenêutica é o trabalho continuado de (re)imaginar o humano e de impulsionar a sua concretização numa nova forma de vida ao mesmo tempo individual e coletiva. Um trabalho de prospeção do que pode ser uma vida melhor e, por outro lado, de avaliação daquilo que é levado à prática para verificar em que medida a promessa feita se concretiza.

18. Como sempre, hoje é o dia! O dia de recriar o humano para transcender o que não nos basta e evitar o desumano que sempre espreita.

 

[1] “Lá, onde bate o coração”, Os meus livros, Nº 49, Março de 2007, p. 46.
[2] Recente em termos de publicação (2024), mas de composição em 1975. Paul Ricoeur, L’Imagination: Cours à l’ Université de Chicago (1975), Paris, Seuil, 2024.

 

José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com

 

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