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autores - Rúben Azevedo

Pedir-te-ei contas da alma do homem, teu irmão

| 19/08/2024

© UnicefAbed Zagout Pessoas clamam por comida na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza

Foto: Pessoas clamam por comida na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza. © Abed Zagout / Unicef 

 

Chega de carnificina em Gaza! Chega! Chega de escolas arrasadas, de crianças mortas ou deslocadas, de massacres, de sofrimento sem nome. Chega de desumanidade! – com conivência norte-americana. A manutenção da supremacia regional – e mundial – através do proxy israelita não pode justificar tal nível de permissividade para com os crimes israelitas em Gaza. A manutenção da supremacia regional por parte dos EUA, que assenta fundamentalmente no isolamento e hostilização do Irão, não pode justificar tal nível de complacência com um aliado, nem sequer tratando-se de um velho aliado. Não, não é complacência, é cumplicidade, como bem ficou patente na última visita do chefe do governo israelita a Washington, onde este foi recebido com todas as honras, com direito a discurso no Congresso e tudo (pela quarta vez!).

Netanyahu, o homem que mais tem contribuído nos últimos 20 anos para torpedear a solução de dois estados, tendo já declarado publicamente que, com ele no poder, jamais haverá estado palestiniano paredes-meias com Israel. Tal como o seu atual ministro das finanças, Bezalel Smotrich, que declarou, a 24 de junho deste ano, ser sua “missão de vida” a de “torpedear o estabelecimento de um estado palestiniano” (The Guardian, 24/06/24). Missão certamente partilhada por outros elementos da coligação governamental, desde logo, à cabeça, pelo infame Ben Gvir, ministro da segurança nacional, que só conhece a linguagem da guerra total e disfarça mal o seu ódio aos árabes.

O massacre de civis, as deslocalizações constantes, a fome e a falta de bens de primeira necessidade, já não são – se é que alguma vez foram – meros expedientes de uma guerra de defesa com vista à eliminação do Hamas. Há quem, dentro da própria estrutura militar israelita, tenha já reconhecido publicamente a ingenuidade da crença na possibilidade de uma aniquilação total da organização palestiniana. Por um lado, julgo eu, porque esta está profundamente imbricada na própria população, militar, mas também social e ideologicamente. Durante 18 anos governou Gaza, construiu escolas e outras infraestruturas civis, e, para o bem e para o mal, foi o seu porta-voz, o único a que podiam recorrer para defender os seus interesses e aspirações nacionais. Não estou a dizer que os seus métodos foram sempre os melhores e os mais justos, ou que se tratava da instituição mais democrática do mundo – certamente que não –, mas de facto foi assim, e o que importa é a perceção da população. Deste modo, Hamas e nacionalismo palestiniano ou, neste particular, “gazano”, tornaram-se, naquele território, sinónimos. Consequentemente, não é possível destruir o Hamas sem destruir o ideal de um estado palestiniano independente. Ou, dito de outra forma, para destruir o Hamas seria necessário destruir, em Gaza, o próprio ideal de um estado palestiniano independente; porque o “Hamas” são milhares de soldados de primeira, segunda e terceira linha que, mais do que por uma organização concreta, lutam por esse ideal de autonomia e, também, verdade seja dita, por puro ódio contra o “ocupante”, alimentado por muitas gerações, herdado de avós e pais. Mas só seria possível aniquilar, ou pelo menos “domesticar” esse ideal, se a própria população fosse aniquilada ou se o território fosse colocado sine die sob controlo político e militar israelita.

Funeral de menina palestiniana Lian Al-Shaer em Gaza, Foto © Ali JadallahAnadolu Agency via Getty Images

Foto: Funeral de menina palestiniana Lian Al-Shaer em Gaza. © Ali Jadallah Anadolu Agency via Getty Images

 

Ora, na impossibilidade de aniquilar toda a população e muito menos de a expulsar – seria demasiado flagrante e muito contestado –, a segunda hipótese torna-se a mais provável: a coligação governamental procurará implementar um status quo de tutela prolongada, militar e política, no território. Talvez mesmo a anexação, não imediatamente, mas por fases, como na Cisjordânia. Não falta, de resto, dentro do governo israelita, quem defenda o retorno dos colonatos a Gaza.

É que, segundo creio, também este governo, e Netanyahu em particular, reconhece, não obstante as declarações públicas, que aquilo que o Hamas corporiza é basicamente indestrutível e, como um fogo-fátuo, estará latente sob as cinzas e os escombros até que uma nova oportunidade lhe permita emergir sob uma nova forma de resistência. Resistência quiçá ainda mais feroz e radicalizada, porque amplificada pelos ódios que os massacres e humilhações da guerra atual produzem diariamente.

Portanto, não lhe resta senão manter uma guerra longa, que a seu tempo derivará em ocupação marcial prolongada, sempre com o pretexto de “destruir o Hamas”. Este, como de uma ou de outra forma, há-de reaparecer sempre, resistindo à aniquilação, dará ao governo israelita o pretexto necessário para manter a ocupação e prolongar o castigo. A não ser, é evidente, que haja uma mudança de governo que implique também uma mudança séria de políticas, especialmente em relação aos colonatos e à necessidade de dar a devida e legítima consideração às aspirações de autonomia, dignidade e futuro dos palestinianos. Sem isto, não há realmente muito as esperar senão um recrudescer da violência de ambos os lados, exponenciado pelo ódio e pela demografia.

Mas agora, chega de matança. Chega! Chega de desumanização, porque ao desumanizarmos também nos desumanizamos; é vergonhoso que para se matar um indivíduo, cem ou mais inocentes tenham de ser sacrificados. E não apenas uma vez, mas muitas vezes! Já se viu que isto não levará a nada, a não ser a mais ódio e a mais violência no futuro. E à vexação e completa descredibilização de Israel no palco internacional, já para não falar num aumento significativo do antissemitismo crónico por toda a parte.

Não se pode ter a vida humana em tão pouca conta e depois declarar ser-se paladino da democracia e dos direitos humanos, porque tal defesa implica o pressuposto da incondicionalidade da vida humana, longe do cálculo utilitário, e muito menos da guerra por algorítmos. Não se pode suprimir uma ideia, e muito menos uma ideia que se alimenta de ódio, gerando mais ódio ainda, através da violência bruta e da humilhação. Chega, Israel! Ouve, Israel: o mundo exige mais de ti, porque também já foste oprimido e perseguido sem igual, e ao mundo deste as palavras que recebeste: “Não matarás”! E também aquelas palavras que selaram a aliança de Deus com Noé, muito antes de em Babel os homens terem sido divididos em línguas e nações: “Ficai também a saber que pedirei contas do vosso sangue a todos os animais, por causa das vossas almas; e ao homem, igualmente, pedirei contas da alma do homem, seu irmão” (Gn 9, 5; itálico meu)

 

Ruben Azevedo é professor e autor de vários livros.

 

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