Para o leitor de hoje, talvez seja uma surpresa descobrir que, até ao século IV, em diversas regiões de expansão do cristianismo, os cristãos se tratavam mutuamente por “irmãos” – expressão que não era, como hoje, um quase “exclusivo” da tradição monástica. Nas primeiras gerações de cristãos, a linguagem do serviço e da hospitalidade tomou o lugar do léxico sacral que desnivela o mundo, instituindo o alto e o baixo, o fora e o dentro.
A prática do “lava-pés” é, simultaneamente, um gesto concreto, enraizado em antigos costumes de hospitalidade, e uma reinterpretação radical desses mesmos costumes à luz da mensagem de Jesus – história e símbolo combinam-se num gesto de dissidência. E se o cristianismo pudesse encontrar neste gesto ritual o centro de gravidade da sua mensagem? Não o altar, mas o chão. Não os ritos das coisas separadas, mas a água derramada sobre pés macerados. Não a prioridade do gesto que ascende, mas o gesto que se inclina em direção ao sofrimento do outro – gesto da encarnação.
Se levássemos a sério o Evangelho de João, no qual este gesto é o fulcro da memória de Jesus, a pergunta essencial para o cristão seria: “a quem lavas os pés?”. Essa seria a qualidade própria da mundanidade cristã. Uma prática reiterada de descentração: sair do lugar que se considera seu, acolher para além dos medos, renunciar ao status, inclinar-se sobre o vulnerável. Nesse cenário, o “lava-pés” seria, de facto, o gesto instaurador. Sim, dessa forma, o evangelho de Jesus migraria dos lugares separados para os entre-lugares, onde homens e mulheres se encontram no chão da fraternidade. O rito do lava-pés, nessa centralidade, revelaria a sua força, ou seja, sinalizaria que o essencial acontece para além do próprio rito.
Neste contexto, o hino Ubi caritas não é apenas um monumento, mas também a ressonância da intimidade cristã. Na criação de Maurice Duruflé, a linguagem musical não descreve o gesto, mas cria o seu lugar interior. O rito encena a inversão, a proximidade, o contacto. A escrita de Duruflé, aqui interpretada pelo Ensemble São Tomás de Aquino, desenha uma arquitetura sonora marcada por continuidades, uma quase ausência de arestas, um largo aberto à comunhão. Duruflé preserva o cantochão – a memória longa desse chão (“humus”, “humilis”). Mas essa tradição sonora não se impõe. Aceita transforma-se numa harmonia de subtis transparências. O canto pode transformar o rito, abrindo um território de ressonâncias. Mas o rito também transforma o canto. Impede que a sua leveza sonora se detenha nos pés higienizados dos cerimoniais, para banhar de cuidado os pés em carne viva.
Alfredo Teixeira, antropólogo e compositor (UCP-FT)










