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Folhas, Figueira

[Metáforas vivas]

Que olhar! Ah, aqueles olhos!

| 25/11/2024

[xxxiv e último domingo do tempo comum // Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo // XXXIX Jornada Mundial da Juventude ― b ― 2024]

[vinde olhos aos olhos / celebrai esperanças ― / jardim espiritual © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

 

1. O tempo dá hoje à luz uma das suas ultimidades.
Realmente, este é o derradeiro domingo do tempo comum,
tempo que nos transportou nos seus tons verdes,
tempo que nos proporcionou o endurance através do longo caminho anual.
Rejubilemos, pois, na inteireza do mistério de Jesus, o «Filho do homem»,
que floresce ― oh, despojado e luminosamente! ―,
para frutificar na celebração litúrgica da fé.
Rejubilemos, sim, como quem se alegra da sua juventude de espírito,
tanto mais porque hoje celebramos a Jornada Mundial da Juventude.

[Últimas folhas amarelecidas das figueiras © fotografia: Joaquim Félix]

 

2. Sirva este convite enfático à exultação
para assinalar quanto aprendemos da parábola da figueira (cf. Mc 13,28).
As fortes rajadas de vento deste domingo varreram
as últimas folhas amarelecidas das figueiras, como tantas outras.
Porém, não afugentaram as palavras do Senhor, que não passam.
Antes, a força que tange ervas, arbustos e árvores, e inclina florestas
― criando sonoridades para a celebração festiva do universo ―
é mais um sinal sensível da Palavra-em-gestos na História.
Na aprendizagem da vigilância para a hora-certa-e-desconhecida,
sentiremos que os nossos olhos já entumecem
nos ramos tenros do quotidiano, vivido na expectância do advento.
Oh, hoje, cumpre-se liturgicamente o Verão da salvação em Cristo.
E assim como os figos são flores invertidas
também saborearemos este eflorescente jardim espiritual
que se derrama na vida e dulcifica a nossa boca bendizente,
interpretando, por exemplo, o cântico de Cristo
que vence servindo abundantemente a salvação no arco do tempo.

 

3. Cantamos, sim, mas expondo as vulnerabilidades do corpo que somos
na carne do Corpo de Jesus, o Cristo em serviço ― ferido, mas glorioso ―,
que nos cuida e alivia com o bálsamo aquecido dos seus olhos.
Permiti que vos apresente uma escultura românica de Cristo Salvador,
que, de modo autêntico e na ternura do seu olhar,
assume as feições da graça divina que transborda para todo o mundo.
Em recente visita de estudo, com um grupo de Ponte de Lima,
o arq. Paulo Providência e o pe. Agostinho Silva apresentaram-nos
a última intervenção ― uma digníssima obra, sublinhe-se! ―
na igreja paroquial de Figueiredo, no arciprestado de Braga.
Próxima do arco cruzeiro, sob um fundo em estuque veneziano azul,
a deslumbrante escultura encontra-se à veneração dos fiéis.
Profundamente sensibilizado, contava-nos o pároco, pe. Agostinho,
que, um dia, certo homem veio ter com ele à sacristia
para lhe dizer que aquele Cristo o seguia com os seus olhos
para onde quer que ele se deslocasse dentro da igreja.

4. Efetivamente, na semelhança de muitos ícones,
aquele Cristo Salvador acompanha quem quer que para Ele olhe.
Mas que olhar! Que olhar! Ah, aqueles olhos!
Semiabertos, numa atenção lenta e demorada,
eles revelam um sorriso simpático que salva sem interrupção.
Na verdade, vale a pena contemplá-lo dos cabelos até aos pés.

Cristo Salvador, Igreja de Figueiredo, Braga

[Escultura de Cristo Salvador, igreja de Figueiredo, Braga © fotografia: Rui Machado]

 

5. Paulo Providência disse-nos como foi encontrado:
escavando no interior da igreja, deram com uma pedra, e pararam.
Voltando-a, surpreenderam-se ao ver que se tratava de Jesus.
Depois de cuidadosamente limpa numa oficina de restauro,
foi colocada num trono firme de metal,
de forma que todos possam receber a bênção dos seus olhos
e tributar-lhe louvores, cantando-lhe o salmo 92 ou outros hinos.
Quem sabe se, devido a influxos jansenistas ― dizia-nos Paulo Providência ―,
o terão enterrado, por patentear muito da sua dimensão carnal.
Na verdade, o Cristo Salvador exibe as suas feridas por cicatrizar
e inclusive, porque de manto ligeiramente aberto, o umbigo.
O Salvador do mundo é de verdade o Messias incarnado, não outro,
que desejou ser reconhecido pelo poder da cruz, seu trono,
e pelas suas feridas, que os nossos dedos e olhos podem atravessar.

6. Na sua exuberante imagética, típica de um tempo tardo,
a literatura apocalíptica apresenta-nos Cristo
como o definitivo vencedor, de poder eterno,
mas nunca sem esconder a sua dimensão humana e a sua morte:
«veio alguém semelhante a um filho do homem» (Dan 7,13).
Ele que, no livro do Apocalipse, é apresentado por S. João
numa relação de fraternidade: «o Primogénito dos mortos» (Ap 1,5).
Neste sentido, seria importante acautelarmo-nos de algumas visões
― não diria da noite ou do dia, mas militarescas ―
que exageram os traços triunfalistas e desencarnados
da «Testemunha fiel» (Ap 1,5), Jesus, o Cristo.
Por conseguinte, há que evitar certas imagens de Jesus,
que não passam de autoprojeções, em tudo, idolátricas.

[Apresentação do livro O sonho de uma nova manhã, de Tomáš Halík, no Espaço Vita, Braga © fotografia: Joaquim Félix]

 

7. O mesmo urge dizer da Igreja,
que é o seu Corpo místico, vivente na carne da História.
Dessas imagens triunfalistas se deve libertar a Igreja,
como, há dias, nos solicitava Tomáš Halík,
por ocasião da apresentação do seu livro O sonho de uma nova manhã,
publicado pela Paulinas Editora.
Segundo ele, precisamos de investir numa releitura profunda,
em termos seculares, do ser Igreja no mundo.
Mais: Jesus convida-nos a ler os sinais dos tempos,
porque eles são a linguagem de Deus para a nossa época cultural.
E, para sermos competentes intérpretes do presente,
necessitamos da arte da escuta, em contemplativo silêncio.
Ler novamente, ler mais profundamente, eis o repto.
A contemplativa releitura do mundo, da vida de todos os dias,
exige tempo para a reflexão e o discernimento,
para nos ouvirmos reciprocamente e agirmos de mente e coração abertos.
Tal como Jesus que, depois de ressuscitar, desceu aos infernos,
assim nós somos convidados a descer aos infernos da vida real,
onde caem inclusive mísseis balísticos e se multiplicam feridas e mortes.
Com a certeza, porém, de que se participamos na sua Passio continua,
também participaremos da sua Resurrectio continua, a vitória definitiva.
Eis porque, na sequência da Assembleia sinodal,
temos ainda tantas tarefas para cumprir,
sem esperar o milagre de que alguém as decida e cumpra por nós.

 

8. Jesus é rei, sim, mas como Ele esclarece a Pilatos:
«É como dizes: sou Rei.
Para isso nasci e vim ao mundo,
a fim de dar testemunho da verdade» (Jo 18,37).
Se dermos ouvidos ao seu testemunho e à sua voz,
também nós seremos discípulos «da verdade».
Na Mensagem que o Papa Francisco escreveu
para a Jornada Mundial da Juventude, que hoje se celebra,
este é também um dos reptos lançados aos jovens,
que podem andar cansados nos caminhos da vida.
E, entre tantos outros desafios que lhes dirige
― como passarem a ser mais peregrinos que turistas ―,
apraz-me registar um deles:
«Cada um de vós ofereça ‘ao menos um sorriso, um gesto de amizade,
um olhar fraterno, uma escuta sincera, um serviço gratuito,
sabendo que, no Espírito de Jesus,
isso pode tornar-se uma semente fecunda de esperança para quem o recebe’,
e assim vos tornareis incansáveis missionários da alegria» (n.4).
Para isso, tal como Maria, Mãe de Jesus, a quem os confia,
convida-os a «esperar com paciência e confiança» aquilo que aguardam,
perseverando no caminho «como peregrinos da esperança e do amor» (n.4).

9. Neste alinhamento, tenho de recordar a canção com que Victoria Nicole
conseguiu para Portugal a melhor participação de sempre na Eurovisão Júnior;
ela que, como recordaremos, cantou o tema Esperança.
Toda a letra merece a nossa releitura profunda;
sirvam, porém, estas duas estrofes para nos fazer esperar mais:

«Várias portas se fecharam quando tentei entrar
Quase ninguém confiava mas cheguei a acreditar
Dizem que a vida às vezes não é como se quer
Eu aprendi isso e não foi com os outros sequer

Foi comigo mesma, com os meus sonhos e ambições
Um desses sonhos é chegar aos corações
Porque tudo o que é música não são só canções
A minha história que canto com muito amor».

Para concretizar os seus sonhos, a Victoria diz que precisa de esperança.
E nós, jovens ou noutras idades, não necessitaremos dela também?

 

10. Como escreve Orígenes, num seu Opúsculo sobre a oração:
«O reino de Deus, que está em nós,
chegará à sua plenitude, através do nosso aperfeiçoamento contínuo»
(cap. 25: PG 11, 495-499).
Porque o tema está em cima da mesa e tem repercussões mundiais,
não posso deixar de fazer a remissão
para a Mensagem do Dia Internacional da Juventude 2024,
intitulada «Dos cliques ao progresso:
Percursos digitais dos jovens para o desenvolvimento sustentável»,
na qual o Secretário-geral, António Guterres,
nos desafia com as seguintes palavras:
«Em todo o mundo, os jovens estão a transformar os cliques em progresso,
tirando o máximo partido das ferramentas digitais
para enfrentar os desafios locais e mundiais
― desde as alterações climáticas ao aumento das desigualdades
e à crescente crise de saúde mental.
Mas alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
requer uma mudança sísmica
― que só pode acontecer se capacitarmos os jovens
e trabalharmos com eles em pé de igualdade».

11. Para concluir, de forma breve como convém,
desejo-vos a todos o voto com que, ontem,
uma professora rematou a mensagem que me dirigiu:
«Bom domingo de Cristo rei pobre e humilde».

[De Cristo rei pobre e humilde © fotografia: Joaquim Félix]

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia do Domingo XXXIV e último domingo do tempo comum // Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo // XXXIX Jornada Mundial da Juventude, proferida no domingo na Igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

 

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