
O Papa Francisco durante a oração pela paz: “repudiar a loucura da guerra, que semeia morte e apaga o futuro.” Foto © Vatcan Media, reproduzida na página da Arquidiocese de São Paulo no Facebook.
O texto é um dos que, nas tradições judaica e cristã, é escolhido expressamente para falar da utopia da paz: Deus “julgará as nações e dará as suas leis a muitos povos, os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados e as suas lanças em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra e não se adestrarão mais para a guerra.” Extraído do livro do Profeta Isaías, comum a cristãos e judeus – e daí a clara intencionalidade daquele texto bíblico – foi este o excerto escolhido para a oração que o Papa presidiu na Basílica de São Pedro para assinalar o dia de jejum e oração pela paz que o próprio convocara, pedindo que a humanidade aprenda “a acolher e cuidar da vida – de toda a vida humana! – e a repudiar a loucura da guerra, que semeia morte e apaga o futuro”.
No horizonte de Francisco, esteve em primeiro lugar a nova guerra entre Israel e o Hamas, na Faixa de Gaza, iniciada com o ataque terrorista do Hamas no sul de Israel, no dia 7 de Outubro. Desde então, têm-se sucedido bombardeamentos de retaliação por parte de Israel na Faixa de Gaza e ataques do Hamas com rockets em Israel.
Mas o Papa, sem mencionar nenhuma guerra específica, quis que o olhar se alargasse para todos os que neste momento se encontram sujeitos à prova “pelos conflitos, angustiados com as guerras que dilaceram o mundo”.
A oração do final de tarde desta sexta-feira, na Basílica de São Pedro, foi em tom mariano, com a recitação do rosário e o Papa a fazer uma oração dedicada à Virgem Maria: “Nesta hora escura, colocamo-nos sob os teus olhos luminosos e confiamo-nos ao teu coração, sensível aos nossos problemas.”
A família humana “perdeu a senda da paz, preferiu Caim a Abel e, tendo esquecido o sentido da fraternidade, não reencontra” o ambiente familiar, disse o Papa, rezando: “Intercede pelo nosso mundo em perigo e tumulto”, nestes “tempos dilacerados pelos conflitos e devastados pelas armas.” E pediu ainda o Papa: “Ajuda-nos a guardar a unidade na Igreja, e a ser artesãos de comunhão no mundo. Recorda-nos a importância da nossa função, faz-nos sentir responsáveis pela paz, (…) move o íntimo de quem está preso no ódio, converte quem alimenta e excita conflitos. Enxuga as lágrimas das crianças, assiste os idosos que estão sozinhos, ampara os feridos e os doentes, protege quem teve de deixar a sua terra e os afectos mais queridos, consola os desanimados, desperta a esperança.”
Jejuar pela paz

“Ensina-nos a cuidar dos outros”, pediu o Papa. Foto António Marujo/7MARGENS.
A oração do final desta tarde concluiu a jornada de jejum e oração para a qual o Papa convocou todos os que se quisessem a ela associar. Enquanto sinal que não se vê – nem à volta do Vaticano, onde os restaurantes e café continuavam abarrotados de turistas e peregrinos –, poderá perguntar-se se um dia de jejum terá alguma eficácia. Há dez anos, em 7 de Setembro de 2023, o Papa Francisco convocou iniciativa semelhante de um jejum pela paz na Síria (uma das muitas guerras esquecidas) e no mundo, quando no Ocidente vários líderes políticos preparavam as suas opiniões públicas para a possibilidade de envio de tropas para o terreno. Com o gesto do Papa, mediatizado também pela oração que ele presidiu ao final da tarde, as declarações belicistas baixaram de tom e não se concretizou nenhum envio de tropas que iria provocar o conflito.
No caso de Israel/Hamas (ou Rússia/Ucrânia, ou muitas outras guerras que grassam pelo mundo), o gesto do Papa pode não ter as consequências que terá ajudado a forjar há dez anos. Mesmo assim, Francisco não desiste de apelar, como tem feito nas últimas três semanas, à abertura de corredores humanitários em Gaza para socorro às populações e à libertação dos reféns ainda em poder do Hamas.
“[Maria], o povo fiel chama-te a aurora da salvação, abre frestas de luz na noite dos conflitos. Tu, morada do Espírito Santo, inspira caminhos de paz aos responsáveis das nações”, pediu o Papa desta vez. “Tu, Senhora de todos os povos, reconcilia os teus filhos, seduzidos pelo mal, cegados pelo poder e pelo ódio. Tu, que estás próxima de cada um, encurta as nossas distâncias. Tu, que tens compaixão de todos, ensina-nos a cuidar dos outros.”
A oração pela paz não integrava o calendário do Sínodo católico que neste sábado termina no Vaticano, mas os dois acontecimentos têm uma relação directa: o Sínodo não pretende só curar as feridas da Igreja, mas também as da humanidade – guerra, emergência climática, escravatura, falta de habitação ou de trabalho… –, disse o padre Timothy Radcliffe, antigo superior geral dos dominicanos, na conferência de imprensa desta sexta-feira.
Radcliffe sublinhou ainda o que considera a “importância extraordinária” da realização do Sínodo no contexto que o mundo vive, seja com as guerras seja com a “polarização e o colapso da comunicação” no Ocidente. E acrescentou que esta assembleia não se assemelha a um confronto ideológico ou político. É preciso, por isso, mitigar “expectativas de mudanças enormes” a propósito do Sínodo.
O 7MARGENS quis saber onde está a fronteira entre o confronto ideológico ou político e o que para muitas pessoas é curar feridas como a falta de acolhimento dos refugiados ou o papel das mulheres ou dos jovens na Igreja. Radcliffe destacou a necessidade de ajudar a curar todas as feridas e referiu que no Sínodo foram ouvidas “vozes de pessoas feridas”, falando explicitamente de Luca Casarini, chefe de missão do Mediterranean Saving Humans, que no Sínodo testemunhou sobre as mais de 2500 pessoas que já morreram no Mediterrâneo central.
Sinal “profundamente transformador”

Timothy Radcliffe na conferência de imprensa:cardeais, bispos, padre, freiras, leigos e leigas sentados na mesma mesa foi um sinal transformador. Foto António Marujo/7MARGENS.
O antigo geral dos dominicanos, que foi também responsável pelo retiro inicial de três dias e por várias outras reflexões ao longo destas quatro semanas, considerou ainda que a assembleia traduz “uma mudança extraordinária na forma de sermos Igreja, juntos”, comparando com as outras três assembleias que já viveu, e nas quais não houve “tanto diálogo real”.
O sinal maior e “profundamente transformador” foi ter cardeais, bispos, padre, freiras, leigos e leigas sentados na mesma mesa. Ao contrário das anteriores assembleias, em que os trabalhados decorriam num auditório em anfiteatro, desta vez os cerca de 360 participantes ficaram divididos em mesas de dez, onze ou doze pessoas, com todos os participantes – incluindo 25 por cento de não bispos e mulheres com direito a voto pela primeira vez – sentados no mesmo plano.
Esta mudança acabou por se revelar muito mais importante do que uma simples alteração formal – e pode ser comparada ao que representou a mudança de residência do Papa, do Palácio Apostólico, onde estava encerrado no círculo dos seus mais próximos, para a Casa de Santa Marta, onde contacta com funcionários do Vaticano e gente de todo o mundo.
Radcliffe considerou que o facto de os participantes estarem todos misturados – antes, sentavam-se os cardeais à frente, depois os bispos, depois os poucos religiosos e leigos convidados – “revela mais claramente o que significa ser bispo”, que deve estar “mergulhado na conversa do seu povo, escutando, falando e aprendendo em conjunto”.
O irmão Alois, prior da comunidade monástica e ecuménica de Taizé (França), contou que um pastor de uma Igreja Reformada, convidado do Sínodo, lhe dissera que esta assembleia “é uma profunda experiência de comunhão”.
“Que isto tenha sido dito é de grande significado”, afirmou, acrescentando que também já participou em vários sínodos e este deu “um enorme passo”, no sentido em que não ignorou as “questões difíceis que estão sobre a mesa”, mas dando espaço à escuta de ideias diferentes. Recusando a tentação de cada pessoa se fechar em “ideologias”, acrescentou que os jovens, que Taizé acolhe há décadas, “querem ultrapassar essas fronteiras, querem ser mais compreensivos com as diferentes culturas” e que é possível “avançar num ecumenismo espiritual”.
“Quase revolucionário”

As “questões difíceis” não foram ignoradas, disse o irmão Alois, de Taizé. Foto © António Marujo
Taizé foi responsável pela vigília ecuménica de oração que, no dia 30 de Setembro, deu início informal ao Sínodo. “Não tem de haver resultados imediatos” deste processo, considerou ainda o prior da comunidade da Borgonha – que será substituído no cargo no início de Dezembro pelo irmão Matthew, de origem anglicana. Até porque “durante este ano” que vem, até Outubro de 2024, “haverá maturação” do que foi dito na presente assembleia.
Na conferência de imprensa esteve ainda presente a irmã Maria Ignazia Angelini, monja do mosteiro de Viboldone (perto de Milão, Itália), convidada também “com uma surpresa absoluta” para co-orientar o retiro espiritual e algumas das reflexões deste “acontecimento muito significativo, quase revolucionário”, que traduz “uma mudança na vida da Igreja, na dimensão inclusiva e na capacidade de escuta das diferenças”. É importante ver agora como continuar, de modo que não se fique por uma experiência “autoreferencial”.
A continuação já se sabe como será: na tarde deste sábado, a partir das 15h30 de Roma (uma hora menos em Lisboa) os participantes votam um texto de síntese, que enumera as questões sobre as quais há consenso e as que permanecem em aberto. Há 1125 propostas de alteração colectivas e 126 individuais que a comissão de redacção terá de integrar até ao início da tarde sábado, quando o documento será lido na íntegra e votado ponto a ponto. O documento de síntese desta assembleia geral do Sínodo sobre “Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão” será depois o guião para os debates de grupos, movimentos, paróquias e estruturas católicas, até chegar à segunda sessão desta XVI assembleia sinodal, daqui a um ano.

Maria Ignazia Angelini: “Quase revolucionária” a dimensão inclusiva do Sínodo. Foto © António Marujo/7MARGENS










