AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Joaquim Félix. Foto

Salto para o eterno

| 15/08/2024

[Assunção da Virgem Santa Maria – Solenidade 2024]

Borboleta

[na fasquia do tempo / vem ó salto eterno ― que borboleta-limão! © haicai e fotografia Joaquim Félix]

 

1. Neste dia cheio de sol, com temperaturas elevadas,
enquanto uns se alegram com o bom tempo para fazer férias,
outros preocupam-se com a urgente necessidade de regar as culturas,
desde os campos de milho, às suas hortas, pomares e jardins.
Com o sol assim rutilante ― qual vestido de mulher atraente! ―,
celebramos a solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria.
Passada que foi a noite, abriu-se a tenda infinita do céu,
o santuário azul de Deus, profundo até à invisibilidade.
E, agora, segundo a expressão da leitura do Apocalipse de S. João,
aparece-nos «uma mulher revestida de sol» (Ap 12,1).
É ela quem efetivamente nos ilumina a fé com intensidade
― no sol, na lua crescente e nas doze estrelas ―,
não para nos apagar todas as dúvidas,
mas para que, tanto de noite como de dia,
possamos enfrentar a violência do «enorme dragão cor de fogo» (Ap 12,3).
Na verdade, ele procura devorar o filho da mulher,
e arrastar as estrelas com a sua cauda,
precipitando-as sobre a terra como uma chuva de meteoritos.

Mulher revestida de sol

[Mulher revestida de sol, pintura de Ilda David’, na capela Árvore da Vida © Joaquim Félix]

 

2. Vivemos num tempo duríssimo, penoso de suportar,
em que as nações também se mostram iradas (cf. Ap 11,18).
Na verdade, as violências praticadas nas guerras em curso
― com o perigo de se alastrarem e aumentar ainda a escalada ―
assombram os nossos dias, tanto é o sangue derramado de inocentes,
e tamanha é a devastação de infraestrutura, cidades e aldeias.
Parece que entramos nesta violenta página do apocalipse, agora sim,
― na semelhanças de réplicas do filme Apocalypse Now ―
e vemos, atónitos, as sete cabeças e os dez chifres do dragão (Ap 12,3)
arremetendo contra as populações, na batalha do céu à terra.

3. Ainda assim, neste tempo de antíteses globais,
também testemunhámos, durante cerca de duas semanas,
experiências de salutar convivência entre as nações.
Refiro-me, pois claro, aos Jogos Olímpicos de Paris.
Apagou-se a chama olímpica,
mas permanecem na memória iluminada imagens de rara beleza.
Sem esquecer, obviamente, as receções dos atletas portugueses,
que alcançaram a melhor participação olímpica de sempre.

4. De entre tantas visões que gostaria de evidenciar,
― desde logo, as alegrias dos que foram premiados com medalhas,
mas sem esquecer nenhum dos atletas que lá deram o seu melhor ―,
há uma que permanece na minha rememoração, de tão formosa que é.
E, a seu modo, pode ligar-se com o que celebrámos hoje.
Sim, foi a performance da ginasta Filipa Martins.
Quem é que não se admirará com as suas elevações,
na graciosidade do seu corpo e espírito em voo?
Basta demorarmo-nos, em contemplação,
nas fotografias de José Sena Goulão publicadas pelo jornal Expresso,
para nos determos nomeadamente naquela em que ela
atinge as alturas, em posição completamente invertida.
Sim, de braços cruzados sobre o peito,
como se o céu fosse o ponto de apoio
― quem sabe, para qual ballet ―,
das pontas dos seus pés em bico!
Sem abusar dos recursos da imaginação,
para mim, esta fotografia é como que um ícone da subida aos céus
em corpo e alma e espírito.

Virgem Maria

[A virgem Maria foi exaltada sobre o coro dos anjos. Painel da tribuna na igreja de Fragoso. © fotografia: Joaquim Félix]

 

5. Semelhante elevação, que não pode ser lida como uma assunção,
― já veremos porquê ― deixar-nos-á a pensar no que significa saltar.
Porque tantas modalidades desportivas se fazem neste jogo de elevação?
No fundo, do alto e para o alto, o que é um salto?
Seria uma boa pergunta para o Prof. Manuel Sérgio,
ele que tanto se deteve na consideração filosófica do chuto,
presente em tantas modalidades desportivas com bola.
Sim, volto à pergunta: o que é um salto?
Constituirá ele o desejo de maior experiência de liberdade?
Pensando bem, saltar constitui-se como a vontade do ser
em libertar-se de atritos, para corresponder ou seu sentido último.
Fazer isso, de voo em voo, por tentativas e em espírito lúdico,
lançando-se, segundo as intenções do desejo mais genuíno,
faz-nos lembrar a vocação das aves que, ainda no ninho,
ensaiam as asas para os primeiros voos, para serem o que são.
E os atletas ― pergunto ―, com ou sem varas, ou nas barras,
não farão os saltos em semelhante sentido,
isto é, segundo a iniciação ao voo do ser, nas alturas?

6. Que êxtase não será aquele momento em que se atinge a máxima altura,
e só depois começa a aceleração da viagem ao centro de gravidade!
Esse instante, neste templo que é o mundo, é como a flor do salto,
onde o ser mais se revela no seu sentido, exalando-se até em fragâncias.
Lembrados do triplo salto de Pedro Pichardo,
que, nestes últimos jogos, alcançou a medalha de prata,
não deixaremos de recordar também qual o «salto ideal»,
na expressão de Nelson Évora, que nos confidenciou:
«Sempre que salto, salto para o infinito»:

 

7. Conduzidos por este momento, com a ajuda destas comparações,
creio que poderemos dizer que Maria,
no termo da sua vida na terra, deu o seu salto para o infinito;
no seu caso, qualificando a expressão, melhor será dizer: salto para o eterno.
Numa expressão semelhante, o Papa Pio XII, em 1950,
no contexto dos escombros decorrentes da Segunda Grande Guerra,
declarou na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus:
«A imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria,
terminado o curso da vida terrestre,
foi assunta em corpo e alma à glória celestial».
O seu salto definitivo, porém, não se faz como os atletas
― numa experiência de vitalidade, por autopropulsão ―,
mas pela atração da mão divina, ou da sua Graça.
Sim, Maria é atraída pela mão perfumada de Deus, como uma zínia,
no último e definitivo salto da vida.

Borboleta

[Atraída pela mão perfumada de Deus, como uma zínia © fotografia: Joaquim Félix]

 

8. Explorando o salto como parábola da assunção de Maria,
poderá parecer-nos ousada a comparação.
Sim, mas lembremos que ela é ensaiada com outras imagens,
numa antiga anáfora (oração eucarística) da liturgia galicana,
precisamente para a Assunção de da Virgem Santa Maria,
que, em nada, ficam a dever a esta nossa apresentação mistagógica:
«Alma redimida por tão abundantes títulos!
Os apóstolos te rendem obediência,
os anjos um cântico
e Cristo um abraço.
Um carro te dão as nuvens,
a assunção o paraíso
e a glória o primeiro lugar no coro das virgens».
Oh! e que belas são ainda as expressões do mesmo Prefácio,
que o seu autor explora ― não entre Adão e Cristo,
como faz S. Paulo na segunda Leitura (1Cor 15,20-27) ―,
mas a partir da comparação entre Eva e Maria:
«Na mesma raiz nos feriu Eva com o fruto da árvore,
do rebento de Maria brotou uma flor,
que com o seu perfume nos restaurou e nos sarou ao comê-la.
Engendra Eva a maldição na dor,
confirma Maria a bênção na salvação.
A desobediência de Eva fez pacto com a serpente,
enganou o seu esposo e condenou os seus filhos;
a obediência de Maria reconciliou com o Pai,
mereceu um Filho e libertou a posteridade.
Eva comunica amargura com o sabor da maçã,
perene doçura mana Maria na fonte que é seu Filho.
Um sabor amargo colocou Eva na boca de seus filhos,
Maria os criou entre carícias,
dando-lhes terno pão como alimento;
e nenhum de seus filhos morre
a não ser que sinta fastio deste pão».

9. É verdade, iremos, já de seguida, comer sem fastio algum
a sua Flor, a sua rebentação na forma de Pão.
Iremos degustá-lo cheios de alegria,
em sintonia com mais uma das expressões da antiga anáfora:
«Do mesmo modo que nos alegramos no teu nascimento
e nos enchemos de tremor antes do teu parto,
assim na tua passagem aos céus saltamos de alegria».

10. Sorridentes, saltamos de alegria, juntando a nossa à de Maria,
que, na visita à casa de sua prima Isabel, para seu apoio,
― algo que é difícil em muitas das atuais maternidades ―
canta as maravilhas que nela o Senhor operou.
Como é agradável ao ouvido e bom para a saúde do coração,
voltarmos sempre ao seu Magnificat,
interpretando-o como síntese de tudo quanto Deus faz por nós,
em Maria, nossa Irmã e nossa Mãe:

 

11. De salto em salto, saltamos como quem sabe que morrerá.
Saltamos ― assim o assumimos ― como quem sabe que cada salto
é uma tentativa para o voo infinito, melhor, para o voo eterno.
O tempo é a frágil fasquia que se elevará progressivamente até à morte.
Morreremos, sim, para sermos, como Maria, assuntos aos céus,
na integridade do nosso ser, na plenitude da nossa existência em Deus.
E porque nos entusiasmamos na solenidade da Assunção de Maria,
também nos deveríamos alegrar na hora da nossa morte,
por sabermos que, depois de Cristo, ressuscitaremos como sua pertença.
Por isso, a minha última sugestão, neste dia tão luminoso e quente,
é para cantarmos um tema daquele LP do Fausto, gravado em 1970;
nem mais, «Quando eu morrer um dia»:

 

«Quando eu morrer
Não me deem rosas
Mas ventos
Quero as ânsias do mar
Quero beber a espuma branca
De uma onda a quebrar
E vogar (…)

Ah, a rosa dos ventos
A correrem na ponta dos meus dedos
A correrem, a correrem sem parar
Onda sobre onda infinita como o mar
Como o mar inquieto
Num jeito de nunca mais parar
Por isso eu quero o mar
Morrer, ficar quieto, não».

Navio

[Quero as ânsias do mar/ Quero beber a espuma branca © fotografia: Joaquim Félix]

 

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia desta quinta-feira, 15 de agosto, Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria, proferida na igreja paroquial de Fragoso, Barcelos.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado

Diocese de Portalegre – Castelo Branco

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado novidade

No fim do processo, “nem um centímetro” da Diocese de Portalegre – Castelo Branco deve “ficar sem ser coberto por um conselho pastoral paroquial” (ou interparoquial se necessário e conveniente). Foi o desafio do bispo Pedro Fernandes à diocese de que assumiu a tarefa de pastor ainda não há um ano. Esta é talvez a melhor síntese do que foi a “Assembleia Diocesana”, no dia 6 de outubro, em Ponte de Sor, a que várias centenas de pessoas responderam participando de um modo ativo.

Arquidiocese no Missouri leva práticas do ICE a tribunal

EUA

Arquidiocese no Missouri leva práticas do ICE a tribunal novidade

A arquidiocese de St. Louis, no Missouri (EUA), intentou uma ação contra o Governo federal por ver os seus padres impedidos de distribuir a comunhão e ouvir em confissão os detidos pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, no acrónimo em inglês) internados no Centro de Detenção do Condado de Ste. Genevieve.

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.