[Domingo iv do tempo do advento ― a ― 2025]
1. Há oito dias, o pe. Pedro Sousa comparou o domingo III do advento
à tradição dos peregrinos de Santiago de Compostela
que lavavam as suas roupas a cerca de 20 km do santuário,
para nele entrarem limpos das poeiras e transpirações dos caminhos.
Hoje, na reta final da peregrinação deste tempo litúrgico,
podemos assemelhar o domingo IV à chegada ao Monte do Gozo.
Desde este monte, os peregrinos avistam pela primeira vez
o santuário do Apóstolo e enchem-se de alegrias.
À distância de três dias para celebrar a solenidade do Natal,
o evangelho faz-nos ver já o «nascimento de Jesus» (Mt 1,18).
Seja, pois, este domingo um autêntico monte-de-gozos-na-luz.

[Monte-de-gozos-na-luz © Fotografia: Joaquim Félix]
2. Porque o Senhor enviou à sua frente um mensageiro
a preparar o caminho, com marcos e sinais a discernir,
talvez sintamos que aquela repetida pergunta de Jesus
― «Que fostes ver ao deserto?» (Mt 11,7-9) ―
nos fez companhia ao longo da semana,
ecoando como uma paisagem tocada pelo sopro do Espírito.
Sim, semelhante àquela instalação que Christian Boltansky
plantou em Talabre, no deserto de Atacama, no Chile,
com milhares se sininhos a soar a «música das almas».
3. Sensíveis aos sinais das ruas pejadas de luzes e de músicas,
também nos descobrimos a cantar animadamente
na companhia de certas perguntas-de-fundo,
brechas por onde a fé respira com razoabilidade.
São perguntas que carecem de ritos para a lenta aproximação,
de um namoro para desposar o Salvador, o Perdão-em-Pessoa.
Diria mesmo que será muito difícil adentrar
no mistério gozoso do nascimento de Jesus
se não beneficiarmos de uma espécie de antífonas de entrada.
Além das belíssimas antífonas do Ó,
que, por estes dias, se cantam antes e depois do Magnificat,
o tempo de Advento tem outras para as missas.
Ah, como são belas as antífonas de entrada,
concebidas segundo um projeto dos anos 60 do século XX,
na paróquia de Santa Isabel, em Lisboa!
Reanimadas nas vozes do Ensemble de São Tomás de Aquino,
constituem-se como autênticas súplicas da fé
que procura narrar-se num entendimento-de-hospitalidade
para o Verbo de Deus feito carne.
4. Vivendo nós um tempo de encruzilhadas diplomáticas,
nas quais se multiplicam esforços para alcançar a paz na Ucrânia
e em tantos outros países em alastradas beligerâncias,
imaginemos Isaías a dirigir-nos o pedido que fez a Acaz,
que, nessa altura, se encontrava rendido à tentação de falsas alianças:
«Pede um sinal ao Senhor teu Deus,
quer nas profundezas do abismo,
quer lá em cima nas alturas» (Is 7,11).
Não porque sejamos como os judeus sedentos de sinais,
peçamos, no nosso íntimo, um sinal, de preferência, humilde;
um sinal capaz de gerar futuro em quem espera e constrói a paz.

[Um sinal, de preferência, humilde © Fotografia: Joaquim Félix]
5. Que ninguém se recuse a ser esperançoso,
porque, tal como Acaz, acabaríamos por «molestar» (Is 7,13)
tanto as pessoas quanto o nosso Deus.
Lembrado do poema «Uma Pequenina Luz», ditado por Jorge de Sena,
por mim o faço, pedindo somente:
«uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não veem
só a adivinham e raivosamente assopram».
6. No tempo de Advento tudo se veste de luz:
enquanto as cidades asseiam avenidas, ruas e montras,
as aldeias emolduram janelas, varandas, igrejas e capelas.
Os presépios nascem como canduras nos largos e nas rotundas.
E as árvores, nuas e frias, aquecem-se na luz noturna.
Nas paisagens multicolores, tudo canta e grita de luz.
Quem não se extasiará ao entrar na nuvem luminosa
que assinala as inumeráveis possibilidades
para chegar até junto de Jesus, deitado na humanidade?
Podemos atravessar, a passos lentos e de olhos espantados,
por exemplo, a magnífica paisagem luminosa de Barcelos.
Caso isso não seja possível,
basta-nos uma pequena luz para vislumbrar o mistério
do evangelho que, hoje, São Mateus nos proporciona.

[Basta-nos uma pequena luz © Fotografia: Joaquim Félix]
7. Depois de narrar a genealogia de Jesus (cf. Mt 1,1-17),
sem esconder o sangue estrangeiro pelo lado das mães,
São Mateus prefere evidenciar a sua ascendência
a partir das raízes das principais figuras de Israel,
Abraão e David (cf. Mt 1,22).
Porém, aquilo que poderia ser linear e previsível
torna-se uma fonte de equívocos e de um clamoroso escândalo.
Maria, esposa de José, aparece grávida,
«antes de terem vivido em comum» (Mt 1,18).
Ao abrigo da legislação judaica (cf. Dt 22,23-27),
tal situação constituía um crime com graves consequências:
a morte, por apedrejamento, do homem abusador,
e, eventualmente, da mulher, caso não tivesse gritado.
Não consta que Maria tivesse engravidado no campo.
Como sabemos, a sombra do Espírito cobriu-a em casa (cf. Lc 1,26-38).
Maria não gritou, mas surpreendeu-se
com a saudação e o anúncio do Anjo Gabriel; e fez-lhe perguntas.

[E fez-lhe perguntas © Fotografia: Joaquim Félix]
8. José, que tantas vezes foi injustiçado ao longo dos séculos,
não abriu sequer os lábios, gerindo tudo no seu coração.
Porque era justo, sem desobedecer à Lei,
em vez de expor Maria à difamação pública e à inumana lapidação,
pensando com amor, «resolveu repudiá-la em segredo» (Mt 1,19).
Assim como Maria revelou o seu segredo a José, seu esposo,
assim também o anjo revelou o segredo de Deus a José:
o Menino que nela se tinha gerado era fruto do Espírito Santo.

[S. José visitado durante o sono. Presépio na basílica de Santa Maria dos Anjos, Assis © Fotografia: Joaquim Félix]
no seu livro intitulado Em nome da Mãe.
Na primeira parte da terceira estrofe,
Maria faz um breve sumário da noite em que José teve o sonho:
«Naquela noite Iosef sonhou. Contou-mo depois.
Sonhou com um anjo que lhe ordenava o necessário.
De manhã reuniu a família e declarou a sua decisão;
casava com Miriàm na data prevista em Setembro,
embora ela estivesse grávida.
Sob a tenda da cerimónia todos veriam a minha gravidez.
Não deu ouvido a argumentos» (p. 29).
9. Tendo como pano de fundo este episódio,
o bispo D. Tonino Bello escreveu uma carta a S. José,
que inicia com as palavras «Diz-me, José».
A determinado passo, depois de exaltar Maria,
à luz da amada do Cântico dos Cânticos,
dirigindo-se sempre a José, remata a carta com estas palavras:
«Foi então que a abraçou pela primeira vez e lhe disse, tremendo:
“Por ti, abro mão dos meus planos.
Quero partilhar os teus, Maria, desde que me permitas estar contigo.”
Ela disse-te que sim, e tu tocaste-lhe no ventre com uma carícia:
era a tua primeira bênção sobre a Igreja nascente. […]
E eu penso que tiveste mais coragem em partilhar o plano de Maria
do que ela em partilhar o plano do Senhor.
Ela apostou tudo na omnipotência do Criador.
Tu apostaste tudo na fragilidade de uma criatura.
Ela teve mais fé, mas tu tiveste mais esperança.
A caridade fez o resto, em ti e nela».

[A caridade fez o resto © Fotografia: Joaquim Félix]
10. Mergulhando o Anjo do Senhor no sonho de José,
depois de desanuviar os seus temores, disse-lhe:
«Ela dará à luz um filho,
e tu pôr-lhe-ás o nome de Jesus,
porque Ele salvará o povo dos seus pecados» (Mt 1,21).
Efetivamente, Jesus é o Emanuel,
o único Deus que comunga a carne da humanidade.
Apresentando-se em longa saudação aos romanos,
São Paulo refere que Cristo nasceu
«da descendência de David, segundo a carne» (Rom 1,3).
Jesus é carne da nossa carne.
O Verbo habita a tenda frágil da carne, sim,
tornando-se aquele que, segundo o poder de Deus,
salva perdoando o seu povo dos seus pecados.
11. Não sem temor, também nós somos presentemente
visitados pelo Anjo de Senhor.
Ele desce até à profundidade dos sonhos
e, afastando-se de nós como um anjo para o nosso milénio,
deixa-nos com o mesmo repto que lançou a Maria e a José.
Maria disse: «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).
José, sem usar da palavra,
«fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara
e recebeu sua esposa» (Mt 1,24).
Que faremos nós, afastando-se o Anjo que nos sorriu?
Sejamos justos, neste tempo pejado de escândalos
e de mortes violentas, como a do físico Nuno Loureiro
e de tantas outras pessoas, sobretudo nas guerras.
Não nos precipitemos no abismo das barbaridades;
pelo contrário, mesmo quando faltar a luz do entendimento,
conservemo-nos com uma boa dose de presunção da inocência.
Invistamos na bondade interpretativa, sem pressas para condenar.

[Sem pressas para condenar © Fotografia: Joaquim Félix]
12. Possa o salmista cantar ainda,
referindo-se à nossa geração, buscadora de sinais de paz:
«Esta é a geração dos que O procuram,
que procuram a face do Deus de Jacob» (Sl 23,5-6).
E porque assim nos desejamos cantados,
entoemos o cântico deste tempo, que nos faz enternecer:
«Ó vem, ó vem, Emanuel»;
cântico que é uma síntese de todas as antífonas do Advento.
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 21 de dezembro, [Domingo iv do tempo do advento ― a ― 2025], proferida na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.
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