O Bom Samaritano e os 50 anos do 25 de Abril – duas inspirações para a Semana da Unidade dos Cristãos deste ano, que quer suscitar iniciativas concretas de solidariedade e compaixão da parte dos cristãos.

25 de Abril de 1974: os 50 anos da Revolução devem ser pretexto para “acções de solidariedade e de compaixão com todos aqueles e aquelas cujas feridas necessitam de ser tratadas”. Foto: Direitos reservados.
“Amarás o Senhor teu Deus e ao teu próximo como a ti mesmo.” A frase, retirada do cap. 10 do Evangelho segundo Lucas, éo tema da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, iniciada na passada quinta-feira, 18, e que decorre até ao próximo dia 25. Os textos de reflexão e oração da Semana são propostos pelas Igrejas do Burkina Faso, e inspirados na parábola do Bom Samaritano. A celebração ecuménica nacional teve lugar em Coimbra, na noite de sexta, 19, e uma vígília ecuménica jovem realizou-se na noite deste sábado, no Colégio São de Brito, em Lisboa.
No ano em que se celebra o 50.º aniversário da Revolução dos Cravos “procurar-se-á que a Semana da Unidade 2024 seja vivida com acções concretas de solidariedade e de compaixão com todos aqueles e aquelas cujas feridas necessitam de ser tratadas”, diz um comunicado conjunto do Conselho Português de Igrejas Cristãs (Copic) e da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), sobre a realização da iniciativa em Portugal.
O comunicado surgiu na sequência de uma reunião entre o Copic e a CEP, realizada em Novembro. Pretende-se assim reafirmar “os valores e os princípios de uma democracia que se quer cada vez mais humana e respeitadora da dignidade inerente a cada pessoa”, acrescenta o texto.
Copic e CEP apelam assim “a todos os cristãos e Igrejas” para que promovam “celebrações geradoras de esperança e de paz”, diz ainda o comunicado. “Cabe às Igrejas a nível local ou regional procurar fazê-lo inspiradas pelo tema” da Semana, diz o bispo da Igreja Lusitana/Comunhão Anglicana, Jorge Pina Cabral, ao 7MARGENS.
Na celebração ecuménica em Coimbra, nesta sexta-feira, o responsável desafiou os cristãos a um “modelo ético da proximidade”, como expressão do “caminho para Deus”, pois “não há religião sem proximidade e sem relação com os outros”: “É da vida sofrida que nasce a verdadeira teologia e o descobrir a Deus”, afirmou, citado pela Ecclesia.
No comunicado citado, ambas as instituições recordam problemas do país como a habitação, integração dos estrangeiros, baixa natalidade e aumento da pobreza, mesmo entre a classe média. E apelam ao Estado para que apoie as instituições de solidariedade que vivem em grande dificuldade, apesar de continuarem na “linha da frente na ajuda aos mais necessitados”.
Cristãos “na linha da frente”

Jorge Pina Cabral, bispo da Igreja Lusitana: as Igrejas cristãs têm de estar na linha da frente “na defesa dos oprimidos e da Criação”. Foto © osae
Num ambiente em que cresce a xenofobia e o racismo, Pina Cabral considera que está em causa “um modelo liberal capitalista profundamente competitivo e pouco preocupado com a distribuição da riqueza e do bem-estar que gera”. As causas desta situação “são diversas e alimentam-se de desigualdades sociais e económicas e da pressão colocada pelo movimento migratório em todo o mundo”, acrescenta.
É preciso, diz o bispo, “um novo modelo de desenvolvimento respeitador dos direitos humanos e sociais e do meio ambiente que não vise somente o crescimento económico”. As Igrejas cristãs já estão na linha da frente “na defesa dos oprimidos e da Criação” em muitos países, numa missão de serviço público de “defesa e promoção de políticas alternativas” – e apesar de sectores cristãos “associados a correntes e personalidades políticas mais autoritárias e repressivas”.
Jorge Pina Cabral acrescenta o exemplo do contexto ecuménico da Conferência das Igrejas Europeias, que tem promovido “a reflexão sobre o contributo dos valores cristãos na construção europeia”, unindo esforços com a Igreja Católica e outras organizações, no diálogo com as instituições da UE. A “Escola dos Direitos Humanos”, que tem formado membros das Igrejas na defesa também da liberdade religiosa e das minorias, é um exemplo. Dela surgiu por exemplo o livro Alternativas ao Populismo na perspetiva dos Direitos Humanos.
“Neste exigente tempo da história”, diz o comunicado, há um “papel insubstituível dos cristãos” das diferentes igrejas, “chamados a agir como Cristo, amando como o Bom Samaritano, mostrando misericórdia e compaixão para com os necessitados, independentemente da sua identidade religiosa, étnica ou social”.
(Este texto é uma versão com ligeiras alterações e acrescentos do inicialmente publicado no nº 410, Janeiro-Fevereiro 2024, da revista Bíblica.)









