
Jacob Jordaens (1593-1678), Os 4 evangelistas: Marcos (de branco). Museu do Louvre (Inv1404). Foto Marie-Lan Nguyen / Wikimedia Commons.
Esta manhã, bem cedinho, chegou à caixa de correio dos assinantes da newsletter do Secretariado Nacional de Liturgia um mail cujo assunto era “Nova tradução da Bíblia: Evangelho Segundo São Marcos (Mc)”.
E a boa notícia vinha explícita no texto: «Na sequência da publicação do volume Os Quatro Evangelhos e os Salmos, chegaram à Comissão Coordenadora da Tradução diversas sugestões e propostas. Posteriormente, as Subcomissões do Antigo e do Novo Testamento, encarregadas da revisão das traduções, consideraram as muitas achegas enviadas e integraram as que foram consideradas pertinentes. No processo de revisão das traduções, procurou-se chegar a um texto final que, embora continuando a ser o mais possível fiel ao texto original, evitasse literalismos duros e apresentasse um português mais escorreito (tendo em conta a finalidade litúrgica da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa)».
Sempre era verdade!
Não foram em vão as diversas observações que se foram fazendo chegar ao biblia.cep@gmail.com! A edição apresentada na primeira versão dos textos era mesmo ad experimentum, como nos foi dito!
Eis a prova provada: a nova versão do texto de Marcos, integrando «as achegas […] consideradas mais pertinentes».
Recordamo-nos, certamente, da luminosa reflexão do Pastor Dimas de Almeida publicada em dez edições do 7MARGENS (uma por mês); o último ensaio é de 19 de dezembro 2020. Mas não podemos esquecer os muitos pequenos contributos de tantos de nós (que o público geral não conhece) que levaram a sério o convite da CEP e da Comissão Coordenadora da Tradução: o convite à participação. Levámos a sério a dinâmica sinodal.
E então fui logo ver como tinha ficado aquela expressão do episódio do baptismo de Jesus (Mc 1,9-11) que tinha levantado as maiores perplexidades na comunidade da Paróquia de Santa Isabel, lugar de repetidos apelos a correspondermos vivamente ao pedido feito: «que os leitores apreciassem os textos e apresentassem as correções e sugestões que achassem oportunas»:
Naqueles dias, veio Jesus de Nazaré da Galileia e foi batizado por João no rio Jordão. E imediatamente, ao sair da água, viu os céus rasgados e o Espírito, como uma pomba, a descer sobre Ele. E, dos céus, surgiu uma voz: «Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo».
“Em ti me comprazo”. Li de novo.
Na versão anterior dizia-se “Em ti pus todo o meu comprazimento”. Era de mudar, não era?!
“Em ti me comprazo”? Será que esta expressão corresponde efetivamente «a um português mais escorreito (tendo em conta a finalidade litúrgica da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa)»?
Quase que aposto que quando, nas nossas assembleias, se ouvir proclamar este texto com esta formulação, ao escutar a palavra comprazo, a imagem que vem à ideia é a do iogurte.
José Manuel Pereira de Almeida é padre católico, pároco de Santa Isabel (Lisboa) e Vice-Reitor da Universidade Católica Portuguesa.










