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[À Margem]

Sobre um sacrifício e a salvação do mundo

| 20/02/2025

É uma curta frase, numa das orações eucarísticas consagradas na liturgia católica: “Por este sacrifício de reconciliação, dai, Senhor, a salvação e a paz ao mundo inteiro.”

Desde há muito que entendo aquela prece como essencial, quer na tradução do sentido de um acto central do catolicismo, quer na enunciação da relação da fé cristã com o quotidiano: por aquele “sacrifício” celebrado pelos cristãos (os católicos, neste caso), pede-se a salvação pela reconciliação e a paz. Ou seja, o sentido daquele “sacrifício de reconciliação” é o de salvar o mundo inteiro e dar-lhe a paz.

Convém recordar que, apesar de traída por muitos desvirtuamentos, a palavra “sacrifício” significa tornar sagrado, fazer um gesto (um ritual) que simboliza a aproximação ao divino. Um dos seus elementos fundamentais, lê-se no Dicionário Enciclopédico das Religiões (publicado pela Vozes no Brasil) é o de “uma acção simbólica pela qual [a humanidade] instaura uma relação com o divino”. Em termos rituais, o sacrifício pode passar por uma “oferta à divindade de produtos da terra e animais e a oferta pessoal ou colectiva à divindade de uma vítima imolada”.

No catolicismo, diz o mesmo Dicionário, o “sacrifício eucarístico” é entendido como uma actualização: “o sacrifício de Cristo, tornado sacrifício da Igreja, produz na humanidade de hoje os seus frutos de reconciliação e de salvação”. No protestantismo, a centralidade é dada ao “sacrifício” de Cristo na cruz; mas basicamente, em todas as grandes tradições religiosas – judaísmo, cristianismo, islão, hinduísmo… –, o sentido profundo do sacrifício é semelhante: tornar mais forte a relação com Deus, através de um “símbolo da renúncia” ao espírito do mundo, pelo “amor ao espírito ou à divindade”.

Para qualquer cristão, vale sobretudo a palavra do Evangelho, que se lê no texto de Mateus (5, 23-24: Se estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta.”

Estamos hoje sedentos de um “sacrifício de reconciliação” que dê “a salvação e a paz ao mundo inteiro”. Mais ainda, se nos perguntarmos como Agostinho de Hipona, quando nas Confissões ele se dirige a Deus: “Porque é que chorar é consolador para os infelizes? Porventura tu, estando embora presente em toda a parte, afastaste para longe de ti as nossas desgraças, e permaneces tu em ti mesmo enquanto nós andamos às voltas no meio das provações? E, no entanto, se não chorássemos aos teus ouvidos, nenhum resíduo ficaria da nossa esperança.”

 

Como um aguilhão, directo à consciência

Irmão Roger de Taizé

Irmão Roger de Taizé: “Podermos viver como pessoas reconciliadas?” Foto © Communauté de Taizé. 

Esperança. Outra palavra importante – e tão difícil de assumir – neste tempo que nos coube viver. Mas, correndo o risco de não dizer nada de novo em relação a outros textos que já aqui publiquei, gostaria de insistir na ideia do sacrifício de reconciliação pela paz. Parto da linguagem cristã e católica mas, do que conheço e da forma como entendo as principais tradições religiosas, o que aqui fica dito é válido (mutatis mutandis e na minha perspectiva), também para elas.

Um dos grandes místicos cristãos contemporâneos, o saudoso irmão Roger Schutz, fundador e prior da comunidade monástica e ecuménica de Taizé, escrevia (Deus Só Pode Amar, edição Gráfica de Coimbra): “Cristo veio à terra não para criar uma nova religião, mas para oferecer uma comunhão com Deus a todo o ser humano.” E perguntava: “Será que os cristãos têm um coração suficientemente grande, uma imaginação suficientemente aberta e um amor suficientemente ardente para descobrirem este caminho aberto pelo Evangelho: sem tardar, podermos viver como pessoas reconciliadas?”

Uma pergunta como um aguilhão que vai directo à consciência, ao mais fundo de cada um de nós: porque os cristãos (e os crentes de outras tradições) muitas vezes falham (falhamos) precisamente pela ausência de um coração, uma imaginação e um amor suficientemente grandes, abertos e ardentes. Esquecendo que a fé em Deus se traduz, em primeiro lugar, na reconciliação e na salvação do próximo – e do mundo inteiro: quando não olham (olhamos) as feridas abertas em tantas vidas, quando esquecem (esquecemos) a igual dignidade de todas as criaturas de Deus, quando incentivam (incentivamos) o ódio ao seu semelhante, quando…

Foram esses os ensinamentos e as vidas de grandes místicos como Francisco de Assis, Hildegarda de Bingen, Juliana de Norwich, João da Cruz, Teresa d’Ávila, Mestre Eckart, Teresa de Lisieux, Edith Stein ou Dorothy Day. Ou, no universo protestante, Goerge Fox, John Wesley, Anne Hutchinson, Dietrich Bonhoeffer, Martin Luther King e Roger Schutz. Ou, ainda, Serafim de Sarov, Alexander Man (no cristianismo ortodoxo), Etty Hillesum, Rumi, Siddharta Gautama ou Gandhi (para citar exemplos do judaísmo, do islão, do budismo e do hinduísmo). E muitos, muitos, uma legião de outros…

Ao invés de vermos caminhos de reconciliação como os trilhados pelas pessoas citadas, estamos todos perplexos com políticos de diversas partes do mundo que recorrem a graus inadmissíveis de boçalidade, insulto, propagação do ódio e menosprezo da vida e da dignidade de outras pessoas, que só têm comparação com o oportunismo com que, sempre que dá jeito, se apresentam como crentes. Os líderes dos Estados Unidos, Rússia, Índia, Israel, Turquia, Myanmar, Hungria e de vários países árabes são exímios nessa desventura.

 

Pedagogia da reconciliação, tarefa urgente

Apesar disso, a pedagogia da reconciliação é, mesmo, uma das tarefas urgentes, para crentes e não-crentes. No caso das igrejas cristãs e das diferentes tradições religiosas, ela é uma missão central, já que o conceito de reconciliação (sinónimo de amor, compaixão ou perdão) está no âmago das diferentes tradições religiosas.

Recordemos o exemplo de Francisco de Assis, já trazido ao 7MARGENS por João Carvalho, autor de uma melodia do Cântico das Criaturas, que este ano assinala os 800 anos. Num artigo na Brotéria, o autor recordava que, pouco depois de ter composto os primeiros versos, Francisco soube de um conflito entre o bispo e o podestá da cidade. Compôs, então: Laudato si, mi’ Signore,/ per quelli ke perdonano per lo tuo amore,/ et sostengo infirmitate et tribulatione./ Beati quelli ke ‘l sosterrano in pace,/ ka da te, Altissimo, sirano incoronati. (“Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por amor de ti e sofrem doenças e trabalhos; benditos os que sofrerem em paz porque Tu, Altíssimo, os coroarás.”)

O Poverello pediu a dois dos seus irmãos para irem cantar diante dos dois responsáveis desavindos e conta-se que estes, depois de escutarem a música, se reconciliaram. “Francisco interessa-se vivamente pela vida política; o seu louvor não é passivo, mas acção que procura transformar a realidade”, escrevia João Carvalho na Brotéria. “A palavra, para Francisco, é operante. Não importa tanto aquilo que o Cântico diz quanto aquilo que ele faz. Esta é, aliás, a origem grega da palavra poesia, descendente do verbo poieîn, que significa fazer.”

O mesmo irmão Roger já citado contava muitas vezes o que herdou da sua avó: “Marcado pelo testemunho da sua vida, quando ainda era muito novo, seguindo o seu exemplo, encontrei a minha própria identidade cristã reconciliando em mim mesmo a fé das minhas origens com o mistério da fé da Igreja Católica, sem romper a comunhão com quem quer que seja.”

Roger Schutz, cujos 110 anos do nascimento se assinalam em Maio próximo, viveu essa história num tempo em que as diferentes tradições cristãs se olhavam ainda como inimigas e heréticas e num contexto social e político muito semelhante ao de hoje, quando o ódio alimentado pelo nazismo grassava pela Europa e pelo mundo. Mas ele foi capaz, como já o tinha sido a sua avó, de propor a reconciliação, como recusa do ódio.

Essa é a tarefa, de novo, para hoje. Essa é a urgência. Para salvar o mundo e ganhar a paz.

 

 

Paula White (à direita, de branco) e outros membros da Administração Trump numa oração pelo Presidente. Foto © White House

Paula White (à direita, de branco), a responsável pelo Gabinete contra o “preconceito anti-cristã”, e outros membros da Administração Trump numa oração pelo Presidente, ao mesmo tempo que este vende armas à Índia, onde a liberdade de muçulmanos e cristãos é posta em causa diariamente. Foto © White House

P.S. 1 – Enquanto a União Europeia prepara um novo pacote de “sanções” à Rússia, soube-se que grandes companhias aéreas têm furado os anteriores embargos através da Índia.

Dinheiro, muito dinheiro. A UE negociou com Putin durante anos, sabendo já com quem se estava a lidar. Continua a colocar os negócios com a Índia em primeiro lugar, ignorando a lamentável situação dos direitos humanos e da liberdade religiosa no país, e fechando os olhos ao facto de o Governo e o primeiro-ministro do país, Narendra Modi, incentivarem o nacionalismo “hindu” e as perseguições às minorias (nomeadamente muçulmanos e cristãos).

 

P.S. 2 – O mesmo primeiro-ministro Modi fez um acordo com Trump para comprar mais petróleo e armas aos Estados Unidos – as mesmas armas que servirão, em muitos casos, para prender, molestar ou matar muçulmanos ou cristãos. Dinheiro, haja muito dinheiro.

 

P.S. 3 – E para Trump está tudo bem, desde que haja negócio e dinheiro – e mesmo que, dias antes, ele tenha criado um Gabinete para combater o que designa como “preconceito anti-cristão”.

Dinheiro, muito dinheiro. Valores? Princípios?

O louvor de Deus “não é passivo, mas acção que procura transformar a realidade”. Perante tudo isto, não queremos salvar o mundo?

 

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