Sem qualquer intuito antológico, o 7MARGENS procurará chamar a atenção, nestes tempos, para músicos e músicas que traduzam a urgência da paz em relação a guerras e conflitos que persistem no mundo. Mais um capítulo da série Músicas pela paz.
A Rota da Seda, que ligava a China à Europa, tinha um dos seus principais entroncamentos em Samarcanda (actual Uzbequistão). A cidade deu título a um dos discos do compositor italiano Roberto Vecchioni que, em muitas canções, cruza a poesia e a criação com referências autobiográficas. O tema que dá título ao disco, de 1977, inspira-se numa história oriental, de um soldado que, ao celebrar o fim da guerra, vê a morte sob forma de uma mulher idosa no meio da multidão.
Correndo para Samarcanda para escapar-lhe, é lá que encontra a morte à sua espera. “Houve uma grande festa porque a guerra tinha acabado. (…) Era primavera e as mulheres podiam finalmente, após tantos anos, abraçar de novo os seus homens.” Mas a guerra traz sempre a morte aos que a fazem, pode concluir-se da história.
Na sua última música, publicada em 2024, Vecchioni pede “Sonha, rapaz, sonha”: “E dir-te-ão palavras vermelhas como o sangue, negras como a noite/ Mas não é verdade, rapaz, que a razão esteja sempre com os mais fortes/ Eu conheço poetas que movem rios com os seus pensamentos/ E marinheiros sem fim que conseguem falar com o céu./ (…) Nenhum reino é maior do que esta pequena coisa que é a vida/ (…) A vida é tão grande que quando estiveres prestes a morrer/ Plantarás uma oliveira, ainda convencido de que a verás florescer…”
Uma melodia fortíssima, uma canção poderosa. As “palavras vermelhas como o sangue, negras como a noite” não terão a última palavra.
Títulos: Samarcanda/Sogna, Ragazzo, Sogna
Autor: Roberto Vecchioni
Disponíveis nas plataformas digitais
(Este texto foi inicialmente publicado na edição de Fevereiro 2025 da revista Além-Mar, dos Missionários Combonianos)










