
“Os seguintes, foram uns magos do oriente e que vinham talvez de sítios diversos do mundo”. Adoração dos Magos (1828), Domingos Sequeira, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.
O tempo é de espera, de advento. A par de todas as tradições, mais ou menos comerciais, mais ou menos de família, os cristãos celebram o nascimento de Jesus Cristo. Uma figura ímpar da História e muito mais que isso para os crentes.
Nos muitos relatos deste acontecimento percebemos dois aspetos muito importantes e de uma enorme relevância para os tempos que vivemos atualmente. Foram acontecimentos de desalinho, contra a corrente dos modos e valores de então. Hoje sê-lo-iam de novo.
Atendendo aos textos milenares do Novo Testamento, os primeiros a visitá-lo foram os mais pequenos da sociedade de então – os pastores – gente nómada e sem raízes. Por isso mesmo, mal vistos pela sociedade que naquele tempo valorizava muito a hierarquia e costumes familiares, a linhagem e as origens. O preconceito sobre eles era próximo ao que hoje vemos sobre tantas pessoas em circunstâncias distintas das nossas ou que pertencem a grupos étnicos específicos – ciganos, a exemplo – ou pessoas religiosas, ou pessoas com determinadas nacionalidades, ou pessoas que vivem em situação de pobreza, ou com um género ou orientação sexual diferente do que achamos normal. Todos os discriminados por serem quem são e como são, os últimos da sociedade, foram os primeiros a ver o bebé de Belém.
Os seguintes, foram uns magos do oriente e que vinham talvez de sítios diversos do mundo. Não se sabe muito mais que isto, pese embora haja muitas tradições sobre os reis magos. Sabemos que uma diz que um deles era negro. Domingos Sequeira, pintor português do século XIX, na sua Adoração dos Magos pinta-os às dezenas, vindos de todos os sítios do mundo orientados pela brilhante estrela de Belém que a todo o quadro dá uma intensa luz.
Percebemos assim, logo à nascença, os princípios de acolhimento desta criança tão especial. Princípios que se vieram a confirmar quando adulto e que lhe custaram a vida.
Há tanto, tanto para aprender com esta história se a pensarmos nos dias de hoje… Será que a percebemos vindo ela da ternura de um recém-nascido?
Feliz Natal.
Pedro A. Neto é diretor-executivo da Amnistia Internacional Portugal










