São completamente diferentes uns dos outros, mas talvez se lhes possa aplicar aquele verso da canção do Rui Veloso: “muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa”. Referimo-nos a três livros ilustrados, todos eles recém-lançados, e que falam – cada um à sua maneira – de esperança, fé e bondade. Por isso mesmo, e apesar de nenhum deles ser sobre o Natal, podem muito bem ser o presente ideal.
Hoje vou voar! A viagem de uma pessoa refugiada, de Diana Reis e Maria Reis Rocha

O livro é inspirado nas histórias reais de dezenas de pessoas refugiadas e migrantes. Foto: Direitos reservados
Cuidado!… Este é daqueles livros que, ainda nem o abrimos, e já nos apaixonámos por ele. Seja pela serenidade e ternura que a ilustração da capa transmite, seja pelo título que deixa adivinhar uma história inspiradora, ou porque reparámos no nome da editora e percebemos que é um livro solidário, e só por comprá-lo vamos estar a ajudar alguém.
Mas o melhor de tudo é que, quando o abrimos, o que antes era paixão à primeira vista se transforma em verdadeiro amor. Talvez por ser também amor verdadeiro que se desprende de cada frase e imagem que compõem esta história, inspirada nas histórias reais de dezenas de pessoas refugiadas e migrantes que a associação MEERU | Abrir Caminho tem acompanhado em Portugal.
Ou não fosse a história contada por uma criança – a Mina – cuja voz doce quase conseguimos escutar, e para quem o pai, que já não vê há seis anos, não é um migrante com uma jornada duríssima, e sim “um herói de grandes aventuras”.
Com Mina, aprendemos que “os heróis também choram, é assim que eles libertam o peso para poderem voar”, e que os monstros e as bruxas existem mesmo, assim como existem sereias e baleias que salvam pessoas no meio do mar. E através do seu olhar podemos contar a outras crianças (e adultos, porque não?) uma história que, sim, é dura, mas também é cheia de esperança.
O livro – que é fruto de uma parceria entre o projeto Uma Causa Por Dia e a MEERU | Abrir Caminho – pode ser adquirido online e toda a receita das vendas do mesmo reverte para esta organização com sede no Porto que desenvolve vários projetos para a integração de pessoas refugiadas e migrantes e já mobilizou, desde 2019, mais de 300 voluntários locais para a inclusão dessas pessoas.
Mas adquiri-lo não ajuda “apenas” a MEERU: ajuda todos os que o lerem a compreender, receber e acolher heróis como este pai, e a dar um final feliz à história de famílias como a sua.

Com Mina, aprendemos que “os heróis também choram, é assim que eles libertam o peso para poderem voar”. Foto: Direitos reservados
Hoje vou voar!, de Diana Reis, com ilustrações de Diana Reis e Maria Reis Rocha, Uma Causa por Dia, 2025, 48 págs., €20.
As sementes do céu, de Mia Couto e Susa Monteiro

A protagonista desta história é a Natureza. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
“Este livro nasceu assim: fiquei calado, muito calado, como se esperasse ainda pelo momento de nascer”, revela-nos, no final de As Sementes do Céu, o seu autor, o moçambicano Mia Couto. E o que é que existia antes de nascermos? A Terra, a Natureza.
É ela a protagonista desta história, uma Natureza que vemos pelos olhos de um avô carpinteiro que sabe que “nenhuma tábua deixou nunca de ser árvore”, e de um neto que aprende com ele a respeitá-la e a reconhecer a sua força.
Também neste livro há uma jornada dura e feita entre o temor e a esperança, por um neto e um avô com os bolsos cheios de sementes.
O delicioso diálogo – e também os silêncios – entre os dois são ilustrados pelos magníficos desenhos de Susa Monteiro, que durante alguns anos foi a responsável por ilustrar as crónicas de Mia Couto para a revista Visão. Com as suas ilustrações de cores fortes, nas quais perpassa uma certa melancolia, a artista, que nasceu em Beja, transporta os leitores para uma floresta africana que parece ter algo das planícies do Alentejo.
É belo acompanhar esta jornada cheia de cor e poesia, que convida ao cuidado da Casa Comum, mas também de uns pelos outros, e em particular dos mais novos pelos mais velhos.
E é bom chegar ao fim com a pergunta: “Que relação tenho eu com esta casa e com aqueles que a habitam?”. E, já agora, verificar o que é que levamos nos nossos bolsos.

É belo acompanhar esta jornada cheia de cor e poesia, que convida ao cuidado da Casa Comum, mas também de uns pelos outros. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
As sementes do céu, de Mia Couto, com ilustrações de Susa Monteiro, Editorial Caminho, 2025, 40 págs., €14,90.
Um cãozinho entrou na história, de Manuela Castro Neves e Maria Remédio

Como o título do livro deixa adivinhar, esta é também a história de um cão. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Esta é a história de um menino – o Tomás – que chegou a uma escola nova e, ao fim de alguns meses, ainda não está integrado: é o último a ser escolhido para as equipas de futebol e trabalhos de grupo (ou melhor, não chega a ser escolhido… é o que sobra), é aquele que fica a um canto do recreio nos intervalos, o único que ninguém convida para as festas de anos.
Mas, como o título do livro deixa adivinhar, esta é também a história do seu cão – o Kuky – que, tendo sido abandonado pelos anteriores donos, sabe bem o que é ser rejeitado. E compreende melhor que qualquer pessoa a mágoa e a dor funda que Tomás sente.
Tal como em títulos anteriores (vejam-se Fantasia para uma pombinha valente, ou Um Cavalinho Entre Papoilas e Estrelas), Manuela Castro Neves constrói personagens com uma profundidade fora do comum em livros ilustrados. E em pouco mais de 30 páginas conta uma história que, sendo infantil, não infantiliza, e sendo curta, tem princípio, meio e fim… deixando-nos ainda a pensar sobre o que terá acontecido às personagens que a habitam antes de ela ter começado, e a imaginar o que lhes acontecerá depois de ela terminar.
Neste caso, deixa-nos a pensar no motivo que terá levado Tomás a mudar de escola (será que já antes tinha tido dificuldades de integração?) ou na razão pela qual vive apenas com a avó (o que terá acontecido aos seus pais?) e com o cão (tê-lo-á a avó adotado já a pensar que o neto precisaria de um amigo?).
É também o pretexto perfeito para conversar com as crianças sobre temas como o bullying (na perspetiva de quem o sofre e de quem o pratica), a amizade, a autoestima ou ainda o respeito pelos animais.
Mas fica o alerta: se os miúdos a quem pensou dar este livro estão sempre a pedir um cão e essa não é, pelo menos por enquanto, uma opção viável… talvez não seja o momento ideal para que leiam esta belíssima história. Porque depois de a lerem (e de verem os desenhos amorosos que a Maria Remédio fez para a ilustrar), seguramente a vontade de o terem – e os seus argumentos para que ele chegue o mais rapidamente possível – vão ganhar ainda mais força! E aí, o presente ideal deixará de ser um cãozinho que “entrou na história”, para passar a ser um que entre lá em casa… literalmente!

Este livro é o pretexto perfeito para conversar com as crianças sobre temas como o bullying, a amizade, a autoestima ou ainda o respeito pelos animais. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Um cãozinho entrou na história, de Manuela Castro Neves, com ilustrações de Maria Remédio, Editorial Caminho, 2025, 40 págs., €12,90.










