Hoje em dia, o “abrir” de notícias é como abrir janelas para arejar a casa, sabendo que o ar que entra já vem gasto. Os acontecimentos chegam-nos em rajadas: são as guerras, são os escândalos, as tragédias, tudo parece urgente, mas nada permanece. Vivemos rodeados de “últimas horas”, que envelhecem em poucos minutos. Mas, no entanto, continuamos a olhar, talvez por hábito, talvez por medo de perder o instante em que algo muda.
Já não sabemos distinguir o essencial, do ruído. As manchetes piscam como luzes de emergência, mas o coração já não acelera. Tornámo-nos especialistas em sentir pouco para não sentir demais. Não fica bem, sentir. A fadiga instala-se devagar dando origem a uma espécie de anestesia emocional: o mundo arde, mas nós deslizamos o dedo no ecrã com a mesma indiferença com que se folheia um catálogo de promoções.
Por vezes, surge uma ou outra notícia pequena, tímida, que não grita, mas insiste. Pode ser a história de alguém que segurou a mão de um desconhecido num corredor de hospital; pode ser um gesto minúsculo de coragem, uma recusa silenciosa, um olhar que não se desviou. Este tipo de notícias não tem gráficos, não tem especialistas em estúdio, não tem impacto económico, tem apenas humanidade, e isso, hoje, é quase subversivo.
São notícias que chegam sem fazer barulho, devagar, como que pedindo licença. E é esse silêncio que nos desarma, lembrando-nos que, apesar de tudo, ainda há qualquer coisa no mundo que respira fora do algoritmo. Nem tudo está condenado a ser conteúdo descartável, ainda existe um “última hora” que se mede em pulsações.
Não estamos totalmente perdidos, por breves instantes deixámos de ser espectadores e pudemos ser humanos. Percebemos que a verdadeira “última hora” não é a que aparece no topo do ecrã, mas sim a que acontece cá dentro, quando sentimos e nos deixamos tocar, quando deixamos que uma notícia — só uma — nos atravesse sem pedir desculpa e, por um breve segundo, o mundo volta a ser real.
Sim, essa é a última hora que vale a pena abrir.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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