Há uma estranha metamorfose que ocorre no instante em que alguém entra num carro e se senta no banco do condutor. A pessoa tranquila, bem-educada, que acabou de segurar a porta para o vizinho entrar no prédio, transforma-se num ser que ruge, gesticula e recita um repertório de insultos digno de uma taverna do século XIX em noite de festa. O volante, esse objeto aparentemente inofensivo, torna-se um instrumento de poder e exaltação. O olhar ganha intensidade, os músculos da cara assumem a expressão reservada às cenas dramáticas das telenovelas, e a língua, melhor dizendo, a linguagem, bem, essa torna-se arma de destruição maciça.
O repertório linguístico do condutor atual é variado e altamente ofensivo. Mistura calão com criatividade, cruza referências culturais com impropérios dignos de um pirata maldisposto. Já não basta dizer que alguém fez uma asneira, é preciso dizer como fez, porquê, e qual o castigo merecido. Há quem leve esta arte a sério, decorando as expressões com gestos e coreografias envolventes: dedos estendidos, mãos que abanam como se estivessem a expulsar demónios, caras que se colam ao vidro, como peixe de aquário, para garantir que o insulto é bem entregue. Tudo isto acontece num microcosmo fechado, entre bancos de tecido ou pele e portas com isolamento acústico — até ao momento em que se estaciona. Nessa altura, dá-se a segunda metamorfose: o monstro, na maior parte dos casos, regressa à forma humana. O condutor abre a porta, respira fundo, e volta a ser aquele cidadão simpático que pede “um café, se faz favor”.
No trânsito, reina uma lógica própria, em que todos os outros são incompetentes, lentos, distraídos ou completamente loucos, e em que o código da estrada passa a ser uma sugestão, uma recomendação poética, ficando sujeita à interpretação pessoal de cada condutor. E a paciência? Fica na bagageira, esquecida ao lado do triângulo para uma emergência.
Lembro-me das viagens de carro com o meu pai. Homem austero e respeitável, de poucas falas, mas que ao volante tinha um dicionário próprio. Não havia buzina que ficasse calada quando via alguém a fazer uma rotunda em modo carrossel. E o seu insulto preferido? “Urso.” Chamava assim a todos os condutores que considerava incapazes e trapalhões. “Olha-me aquele urso!” dizia, com altivez e indignação.
Hoje, já ninguém chama “urso” a ninguém. A fauna automóvel atual é bem diferente. Os palavrões evoluíram, tornaram-se mais cruéis, mais explícitos. O selvagem “urso” foi substituído por animais da quinta, que são sempre parentes de alguém, surgindo referências anatómicas e familiares que fariam corar a nossa assembleia parlamentar.
Ao volante, o condutor ganha uma confiança que não mostra em lado algum. Grita contra os carros como se estes fossem entidades conscientes capazes de entender a ofensa. E há níveis: o insulto dirigido ao condutor do carro à frente não é o mesmo que o do motociclista que passou a rasar. Há toda uma hierarquia de indignação. E o mais curioso? Muitos dos monstros do volante voltam a ser humanos assim que estacionam.
Claro que há exceções. Há quem mantenha a compostura, quem ignore o caos ao redor com a serenidade de um monge tibetano. Esses são os heróis do asfalto. Mas são raros. A maior parte rende-se à fúria do trânsito como se fosse um ritual diário de libertação emocional. Bufamos, resmungamos, e no fim do trajeto, suspiramos: “Pronto, já passou.”
Talvez a estrada seja uma espécie de espelho: não reflete só o que somos, mas o que escondemos. E aqui levanta-se a minha maior dúvida: será que quando eu não estava no carro com o pai, o “urso” ficava a saber de quem era filho? Provavelmente, já que antes, agora ou depois seremos sempre pessoas a tentar chegar a algum lugar através de uma pista de emoções, continuando, porém, a ter em nós algo de urso, mesmo que já não se diga.
Alimentemos o “urso” faminto com Moderação, Dignidade e Bom Humor!
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










