
Diz-nos o Papa Francisco: “Uma obra literária é, portanto, um texto vivo e sempre fértil, capaz de falar de novo e de muitas maneiras, capaz de produzir uma síntese original com cada leitor que encontra. Foto © Engin Akyurt/Pexels
Não podemos ser papagaios. Sem dúvida, o contacto com a literatura contribui para nos definirmos como leitores. E esse é um contacto exigente, como nos lembra o Papa Francisco, na Carta sobre o papel da literatura na educação: “o leitor é muito mais ativo quando lê um livro. De certo modo, reescreve-o, amplia-o com a sua imaginação, cria um mundo, usa as suas capacidades, a sua memória, os seus sonhos, a sua própria história cheia de dramatismo e de simbolismo; e assim surge uma obra muito diferente daquela que o autor pretendia escrever” (n.º 3). A teoria da literatura assim o formula há décadas: a tríade autor–texto–leitor tem neste último vértice o criador último da ‘obra aberta’ de que Umberto Eco nos fala desde o início dos anos 60. A qual é “aberta” por essa criação ser participada, não só pelas circunstâncias em que o texto é criado, mas também por aquelas em que ele é lido. Por isso, diz-nos Francisco: “Uma obra literária é, portanto, um texto vivo e sempre fértil, capaz de falar de novo e de muitas maneiras, capaz de produzir uma síntese original com cada leitor que encontra. Este, enquanto lê, enriquece-se com o que recebe do autor, mas isso permite-lhe, ao mesmo tempo, fazer desabrochar a riqueza da sua própria pessoa, pois cada nova obra que lê renova e expande o seu universo pessoal” (n.º 3).
Por outras palavras, o Papa considera que a leitura literária permite adquirir “uma amplitude de perspetiva que alarga a nossa humanidade” (n.º 34), acrescentando que tal circunstância “ativa em nós o poder empático da imaginação, que é um veículo fundamental para essa capacidade de identificação com o ponto de vista, a condição, o sentimento dos outros, sem a qual não há solidariedade, partilha, compaixão, misericórdia” (n.º 34). E, para tanto, salienta um aspeto absolutamente fulcral: “A originalidade da palavra literária consiste no facto de exprimir e transmitir a riqueza da experiência, sem a objetivar na representação descritiva do conhecimento analítico ou no exame normativo do juízo crítico, mas enquanto conteúdo de um esforço expressivo e interpretativo para dar sentido à experiência em questão” (n.º 35).
Portanto, a literatura exige leitores capazes de compreender o que leem, estando aptos a mobilizarem (e continuamente reverem e refazerem) o conhecimento de si próprios e do mundo, para que, dessa confluência, resulte uma mais enriquecida voz própria, a qual é interlocutora também da “polifonia da Revelação” (n.º 10). Neste sentido, Francisco sublinha que “a literatura não é relativista porque não nos despoja de critérios de valor. A representação simbólica do bem e do mal, do verdadeiro e do falso, […] não neutraliza o juízo moral, mas impede-o de se tornar cego ou superficialmente condenatório” (n.º 38). Aliás, sublinha ainda: “O olhar da literatura forma o leitor para o descentramento, para o sentido do limite, para a recusa ao domínio cognitivo e crítico da experiência, ensinando-lhe uma pobreza que é fonte de extraordinária riqueza” (n.º 40). Ora, este descentramento do leitor é uma pedra basilar daquilo que a leitura gera, pois, “Ao dar ao leitor uma visão alargada da riqueza e da miséria da experiência humana, a literatura educa o seu olhar para a lentidão da compreensão, para a humildade da não simplificação, para a mansidão de não pretender controlar a realidade e a condição humana através do julgamento” (n.º 39).
Volto a repetir: o leitor não é um papagaio, nem um sistema de Inteligência Artificial Generativa (sempre desprovido de discernimento), dispondo de livre-arbítrio; porque, como nos explicou o Papa Francisco no seu ciclo de catequeses sobre os Mandamentos, o ser humano tem oportunidade de se desenvolver convidado ao diálogo com as dez palavras que o Decálogo constitui: “A palavra […] é o meio mais essencial do relacionamento como diálogo. […] Deus comunica-se nestas dez Palavras e aguarda a nossa resposta”; para um cristão “Os mandamentos são o caminho para a liberdade, porque constituem a palavra do pai que nos liberta neste caminho” (cf. catequese de 20.06.2018). A voz única e irrepetível de cada ser humano está também presente quando recusa as características da repetição desprovida de significado e tem autonomia para ser interlocutora num diálogo que vai do silêncio ao grito – é nesta perspetiva que ainda nos fala o Papa Francisco, num outro ciclo de catequeses, sobre o Pai Nosso (cf. em particular as catequeses de 12.12.2018 e de 02.01.2019; nesta última, confira-se as observações feitas sobre ser como um “papagaio”). O leitor competente é, pois tem de ser, um leitor interveniente. Dito de outro modo, a leitura não é um ato solitário nem um fim em si mesmo, criando sempre um diálogo e desejando que dele resultem consequências.
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Maria do Sameiro Pedro é professora adjunta de Língua e Literatura Portuguesas no Politécnico de Beja. Integrou a Comissão de Acompanhamento do Programa do Ensino do Português no 1.º Ciclo e faz parte da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura 2027. Foi catequista de adultos (2019-2024) e é colaboradora do 7MARGENS.










