
Papa Francisco manterá diálogo com o mundo universitário na visita è Bélgica, depois de estar no Luxemburgo. Foto partilhada pela organização belga da visita, de domínio público.
Como temos vindo a compreender, o Papa Francisco vê na literatura uma importante função, a de “ajuda[r] o leitor a quebrar os ídolos das linguagens autorreferenciais, falsamente autossuficientes, estaticamente convencionais, que por vezes correm o risco de contaminar até o nosso discurso eclesial, aprisionando a liberdade da Palavra” (n.º 42). Pessoalmente, rejubilo pelo facto de o Papa, na plena consciência do seu papel de servus servorum Dei, rejeitar o aprisionamento da “liberdade da Palavra”, refletindo explicitamente sobre o “discurso eclesial”, também ele polifónico e nem sempre no melhor sentido…
Para tanto, ele sublinha que “A palavra literária é uma palavra que põe a linguagem em movimento, liberta-a e purifica-a; abre-a, por fim, às suas ulteriores possibilidades expressivas e exploratórias” (n.º 42). Como nesta ulterioridade do processo comunicativo está em cena o leitor, a “linguagem em movimento” torna-se “hospitaleira à Palavra que vem habitar na palavra humana, não quando se entende a si mesma como conhecimento já pleno, definitivo e completo, mas quando se torna vigília de escuta e de espera d’Aquele que vem renovar todas as coisas” (n.º 42). Por isso, a literatura é campo de reflexão e material de discernimento também no âmbito do discurso eclesial. Francisco explicita-o quando formula um desejo, a terminar a sua Carta: “espero ter evidenciado o papel que a literatura pode desempenhar na educação do coração e da mente do pastor ou futuro pastor, no sentido de um exercício livre e humilde da sua racionalidade. De um reconhecimento fecundo do pluralismo das linguagens, de um alargamento da sua sensibilidade humana e, finalmente, de uma grande abertura espiritual para escutar a Voz através de muitas vozes” (n.º 41). Volta a dar atenção ao desígnio inicial de escrever uma carta sobre literatura no âmbito da formação sacerdotal (cf. n.º 1).
Porém, engana-se quem julgar que esta Carta é um texto circular, voltando ao inicial ponto de partida. Francisco regista que “Também o sacerdote está investido desta tarefa original de “dar nome”, dar sentido, fazer-se instrumento de comunhão entre a criação e a Palavra feita carne e o seu poder de iluminar todos os aspetos da condição humana” (n.º 43), por assumir uma característica que o padre partilha com qualquer outro ser humano, atrevo-me a dizer: “A força espiritual da literatura recorda […] a primeira tarefa confiada por Deus ao homem: a tarefa de ‘dar nome’ aos seres e às coisas (cf. Gn 2, 19-20). A missão de guardião da criação, atribuída por Deus a Adão, passa primeiramente pelo reconhecimento da sua própria realidade e do sentido de existência de outros seres” (n.º 43). Do que decorre ser pela função simbólica da linguagem que Francisco estende a analogia entre Adão, o padre e o poeta, literalmente: “A afinidade entre o sacerdote e o poeta manifesta-se assim nesta misteriosa e indissolúvel união sacramental entre a Palavra divina e a palavra humana, dando vida [o sacerdote] a um ministério que se torna serviço cheio de escuta e compaixão, a um carisma que se traduz em responsabilidade e a uma visão do verdadeiro e do bem que se abre como beleza” (n.º 44; para mais detalhe, cf. n.º 23-29).
Significativamente, ao longo de toda a Carta, o Papa Francisco recusa a rigidez, as certezas, o imobilismo, a autorreferencialidade, no que à formação sacerdotal diz respeito. Constatando “a falta de um lugar adequado da literatura na formação daqueles que se destinam ao ministério ordenado” (n.º 4), afirma que daqui resulta “uma forma de grave empobrecimento intelectual e espiritual dos futuros sacerdotes, que ficam assim privados de um acesso privilegiado, precisamente através da literatura, ao coração da cultura humana e, mais especificamente, ao coração humano” (n.º 4). E enuncia ainda uma importante advertência: “O contacto com diferentes estilos literários e gramaticais permitirá sempre aprofundar a polifonia da Revelação, sem a empobrecer ou a reduzir quer às próprias exigências históricas quer às próprias estruturas mentais” (n.º 10). Inclusive, fá-lo após referir que a “missão eclesial”, exercida “no encontro com diversas culturas”, onde inclui a literatura, revela “uma atitude que a libertou da tentação do solipsismo ensurdecedor e fundamentalista que consiste em acreditar que uma certa gramática histórico-cultural tem a capacidade de exprimir toda a riqueza e profundidade do Evangelho” (n.º 10). Aliás, numa curiosa analogia, Francisco considera a literatura como “uma espécie de ginásio do discernimento, que aguça as capacidades sapienciais de escrutínio interior do futuro sacerdote” e sublinha: “O lugar onde se abre esta via de acesso à própria verdade é a interioridade do leitor, diretamente envolvido no processo de leitura. Aqui se descortina o cenário do discernimento espiritual pessoal, onde não faltarão angústias e até crises” (n.º 26).
No entanto, a par do contexto de formação sacerdotal retratado, estarão a salvo de dificuldades os leigos? Isentos de dúvidas e de escolhas que se vêm a revelar erradas? Certamente que não. Talvez estejam mais protegidos da autorreferencialidade, na aparente dispersão que a sua vida quotidiana constitui, na família, no trabalho, na sociedade e, aí, na Igreja. Por isso mesmo, em particular para os leitores cristãos, o Papa evoca o compromisso exigido a “fiéis” e aos “sacerdotes” pela “importante tarefa de anunciar o Evangelho no nosso tempo”: permitir “a cada homem encontrar-se com um Jesus Cristo feito carne, feito homem, feito história” (n. 14).
(Último texto da série)
Maria do Sameiro Pedro é professora adjunta de Língua e Literatura Portuguesas no Politécnico de Beja. Integrou a Comissão de Acompanhamento do Programa do Ensino do Português no 1º Ciclo e faz parte da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura 2027. Foi catequista de adultos (2019-2024) e é colaboradora do 7MARGENS.










