Igreja Católica – que caminhos de futuro? (Debate – 4)

Uma profunda compaixão pelas vítimas

| 5 Abr 2023

O catolicismo vive uma crise profunda, apesar de continuar a ser para muitas pessoas um espaço vital de busca de sentido e experiência de fraternidade. As situações de abusos de poder e violências sexuais vieram evidenciar problemas sistémicos. Em Portugal, depois de terem criado uma Comissão Independente (CI) para estudar os abusos sexuais sobre crianças, os bispos ficaram na indefinição sobre o que fazer com o panorama posto a nu pelo relatório da CI. Perante a perplexidade que tomou conta da sociedade e de muitos crentes, o 7MARGENS convidou católicos a partilhar leituras da situação e propor caminhos de futuro, a partir de três perguntas:

  1. Quais são os pontos que considera centrais nas medidas a assumir agora pela Igreja, para ser fiel ao Evangelho e ser testemunho de Jesus Cristo na sociedade? A quem cabe concretizar e liderar a aplicação de tais medidas?
  2. Considera que faria sentido que os batizados se encontrassem e se escutassem sobre essas tarefas e desafios que se colocam à comunidade eclesial, a nível diocesano e/ou nacional? Como? De que formas?
  3. Que contributo(s) estaria disposto a dar para que a Igreja, os católicos e as suas comunidades adotem um caminho centrado no Evangelho em ordem a superar a prática de abusos?

 

O sínodo como oportunidade

 

Nesta quarta resposta, Teresa Toldy, professora universitária, sugere que a Igreja deve tomar partido pelas vítimas, tal como Jesus fez; e que o sínodo convocado pelo Papa é uma oportunidade para colocar toda a Igreja a enfrentar o problema dos abusos.

Abusos

“A principal questão será tornar visível uma profunda compaixão pelas vítimas, por todas as vítimas. O Papa Francisco, neste Domingo de Ramos, falou da presença de Cristo em todos os abandonados e maltratados.” Foto: Domínio Público / Pixabay

 

1. A principal questão será tornar visível uma profunda compaixão pelas vítimas, por todas as vítimas. O Papa Francisco, neste Domingo de Ramos, falou da presença de Cristo em todos os abandonados e maltratados. Cristo fez a experiência angustiante, limite, de, na cruz, se sentir abandonado pelo próprio Deus: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Quantas vítimas não se perguntarão o mesmo? E quantas vítimas não se perguntarão: “Quem é esse Deus que invocaram quando abusaram de mim? Quem é esse Deus que me mandaria para o inferno se eu não me deixasse abusar? Quem é esse Deus que me é apresentado como se alguém O tivesse visto e como se se pudesse apresentar como o próprio rosto de Deus?”

A principal questão, como dizia Gustavo Gutierrez, não é “quem é Deus”, mas sim “onde está Deus”. Os evangelhos são claros: o que fizeste ao mais pequeno de entre vós, a mim o fizeste. Deus está no rosto das vítimas. Jesus está crucificado com as vítimas, junto delas, nelas. Com todas as vítimas, de todas as formas, de todos os tempos. Sim. A Igreja tem de tomar partido. Pelos “descartados”. Incluindo por aqueles que ela tem descartado. E tem de procurar transparência nos seus procedimentos. É preciso que sejam abandonadas definitivamente as velhas (e repetitivas) estratégias sistémicas de encobrimento. A aplicação de medidas neste sentido tem de partir da hierarquia, mas tem de ser exigida e acompanhada por todos os cristãos e por todas as pessoas de boa vontade. A Igreja não está acima do mundo.

 

2. O sínodo, melhor, o caminho sinodal proposto pelo Papa Francisco está em curso, constitui uma oportunidade precisamente para o encontro e a escuta, mas nem todos aderiram a ele. Este caminho constitui uma oportunidade única para que todas as vozes se façam ouvir, a nível diocesano, a nível nacional. Mas, para tal, é preciso que os cristãos (todos) estejam convictos de que todos somos Igreja, de que não estamos a falar de “mais uma coisa para fazer”: estamos a falar da oportunidade de “uma nova Primavera” na Igreja. Como é possível que haja movimentos, paróquias que nem sequer tenham falado ou estejam a falar, a refletir, a soltar a Palavra perante este desafio? E como é possível pensar que neste caminho sinodal a chaga dos abusos é alguma coisa à parte, que não deve ser “misturada” com o caminho sinodal? Será possível sonhar um futuro para a Igreja considerando que os seus pesadelos e, sobretudo, que os pesadelos que ela cria não têm lugar neste caminho?

É preciso criar uma dinâmica em rede: grupos que se encontrem, que se cruzem, que debatam, que dialoguem, se queremos ser cristãos adultos. O Papa Francisco desafia-nos a abrir as portas e a ir ao encontro daqueles que não são crentes, sobretudo dos mais marginalizados. É provável que muitos se tenham afastado por olharem para a Igreja e verem nela um clericalismo que vai apagando pouco a pouco (por vezes, abruptamente) a relevância da Igreja.

O poder é uma grande tentação. Alguns possuem-no, outros gostariam de o possuir (há muitos leigos clericais, também, diga-se!). A comunhão que procuramos não existirá se tivermos medo de discursos proféticos, se tivermos medo de pedir responsabilidades e, sobretudo, de nos solidarizarmos com as vítimas. Não é sustentável que os bispos tenham medo de falar com aqueles ao serviço de quem se encontram e não é possível que os cristãos tenham medo de falar com os seus bispos. Será sonhar pensar na possibilidade de os bispos se reunirem com aqueles ao serviço dos quais se encontram para os ouvir acerca desta chaga dos abusos? Não. Não é um sonho. É e tem de ser possível.

 

3. Acredito em contributos a nível local, onde vivemos de facto, onde podemos encontrar-nos com outros cristãos e com não cristãos. E acredito que é possível um “amor duro” diante de comportamentos inaceitáveis e um “amor generoso” por todas aquelas e por todos aqueles que procuram o sentido. Para tal, é preciso acordarmos, pressionarmos para que a Igreja siga para a frente, sem deixar ninguém para trás: escrever cartas, tomar posição pública, abrir as portas a debates entre crentes e não crentes. Sair do marasmo. Como? Com outras e com outros, sempre com outras e com outros.

 

Teresa Toldy é professora universitária de Ética e teóloga; publicou Deus e a Palavra de Deus nas teologias feministas (Ed. Paulinas)

 

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