
Aula sinodal: os círculos menores, ou grupos de debate, começaram já nesta quinta-feira. Foto: Direitos reservados.
“Como jornalistas, é normal que tentemos imaginar o fim de qualquer coisa: pode ser uma partida de futebol ou uma eleição política”, disse esta quinta-feira o prefeito do Dicastério para a Comunicação do Vaticano, Paolo Ruffini, que desempenha também as funções de presidente da Comissão para a Informação do sínodo que se iniciou quarta-feira e se prolonga até dia 29. “Não é possível dar uma resposta sobre qual será o fim porque, na verdade, estamos apenas no começo”, afirmou Ruffini, que se socorreu dos argumentos do Papa, segundo o qual o Sínodo é um processo, ainda mais este sobre a sinodalidade que continuará em 2024.
O responsável do Vaticano respondia, deste modo, a várias interpelações de jornalistas que contestavam as regras impostas aos participantes, no sentido de não divulgarem quaisquer comentários feitos na aula sinodal. O próprio Papa pediu que se faça um “certo jejum da palavra pública” e disse que no Sínodo “há a prioridade da escuta, há esta prioridade” e “o que é publicado deve estar nesse clima”.
Papa quer Igreja a olhar para a humanidade, respeitando diferenças e “sem batalhas ideológicas”
Numa pergunta, um dos jornalistas afirmou que aos profissionais dos média também foi de alguma forma “imposto” um jejum e questionou quando acaba “esse jejum” ou se haverá “algum material no final das três semanas” de reunião e debates.
“Vamos tentar ir passo a passo”, pediu o presidente da Comissão de Informação, tentando deixar claro que é a própria metodologia do Sínodo que exige uma caminhada lenta: “Este não é um Sínodo decisivo, estamos no meio, então não se pode pedir a esta Assembleia que preveja o fim da próxima Assembleia.” Mesmo no relatório que será redigido no final dos trabalhos, encontraremos “convergências e divergências”, mas em todo o caso o documento não representará um ponto de chegada, mas “um caminho que estamos percorrendo”. “Portanto, será algo mais parecido com um Instrumentum Laboris [documento de trabalho] do que com o documento final dos sínodos anteriores”, acrescentou o responsável do Vaticano.
O cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo do Luxemburgo, sublinhou entretanto uma ideia semelhante: “Idealmente, este roteiro deveria indicar onde sentimos que se chegou a um consenso entre nós e, acima de tudo, no seio do povo de Deus, estabelecendo os possíveis passos a dar como resposta à voz do Espírito. Mas deveria também indicar, acrescentou, “onde é necessária uma reflexão mais profunda e o que poderia ajudar nesse processo de reflexão.”
Grupos já conversam
O trabalho dos 35 “círculos menores” (grupos de debate reunidos em “mesas” linguísticas) iniciou-se nesta quinta-feira e centrou-se na primeira parte Instrumentum Laboris desta assembleia, sobre os “sinais característicos de uma Igreja sinodal” e o “diálogo no Espírito”. Esta ainda é uma fase inicial do Sínodo. Por isso, as questões mais delicadas listadas no documento de trabalho e mencionadas pelo próprio Papa, a começar pela questão da ordenação das mulheres, não foram incluídas nas discussões.
Cada grupo elegeu já um relator a quem caberá escrever o relatório do grupo, assinalando “as convergências, as divergências e as ideias que surgiram”. Além disso, “qualquer pessoa pode usar a palavra na Congregação Geral e enviar o seu texto à Secretaria do Sínodo”, explicou Ruffini, sublinhando que “há muita liberdade” e que o clima na assembleia é de “partilha serena” e de uma profunda “experiência espiritual”, sobretudo de “comunhão”: “Não é importante o que este ou aquele participante diz, mas o que a Igreja decide em espírito de comunhão. É um processo complexo, mas garante que todos podem apresentar o seu próprio ponto de vista”.
Ruffini disse ainda que “a maneira como uma instituição tão grande como a Igreja se permite um momento de silêncio na fé, na comunhão, na oração é uma novidade”, para acrescentar: “Isso também pode ajudar o mundo em outras frentes: a guerra, a crise climática… Parar, ouvir uns aos outros. É um desafio que precisa ser contado.”
O prefeito do Dicastério da Comunicação disse ainda, usando expressões semelhantes às do Papa, no discurso de abertura dos trabalhos: “O trabalho dos comunicadores é muito importante, para entender e fazer as pessoas entenderem que a prioridade é ouvir.









