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Participantes instados ao silêncio com jornalistas

Papa quer Igreja a olhar para a humanidade, respeitando diferenças e “sem batalhas ideológicas”

O Papa Francisco nos momentos iniciais da assembleia: “A harmonia não significa síntese, mas uma ligação de comunhão entre partes diferentes.” Foto: Direitos reservados,

 

O Papa Francisco quer uma Igreja centrada em Deus e que olhe, “com misericórdia, para a humanidade”, não se preocupando com qualquer lógica “parlamentar” ou de “estratégias humanas, cálculos políticos ou batalhas ideológicas”. Por duas vezes – na homilia da missa da manhã e no discurso de abertura da assembleia sinodal, à tarde – o Papa insistiu na necessidade de respeitar as diferenças, caminhar juntos e fazer um exercício que dê “prioridade à escuta”.

Foi um dia cheio no Vaticano: às 9h da manhã (8h em Lisboa) já o Papa presidia à missa com os novos cardeais que foram instituídos sábado passado – incluindo o português Américo Aguiar, designado bispo de Setúbal – e que, ao mesmo tempo, assinalava o início do Sínodo sobre a sinodalidade, cujos trabalhos formais começariam à tarde. Ao meio-dia, a Sala de Imprensa do Vaticano libertou o texto da nova exortação apostólica Laudate Deum (Louvai a Deus), dirigida “a todas as pessoas de boa vontade sobre a crise climática”.

Às quatro da tarde, finalmente, Francisco abria formalmente os trabalhos da XVI assembleia do Sínodo dos Bispos – que, desta vez, inclui a participação de 25% de não-bispos. De Portugal, estão o presidente e vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, José Ornelas (Leiria-Fátima) e Virgílio Antunes (Coimbra).

Aos bispos e cardeais de todo o mundo ali presentes, bem como aos milhares de pessoas que enchiam a Praça de São Pedro, o Papa pediu, na homilia da missa da manhã: “Sejamos uma Igreja que, de ânimo feliz, contempla a acção de Deus e discerne o presente; uma Igreja que, no meio das ondas por vezes agitadas do nosso tempo, não desanima, não procura escapatórias ideológicas, não se barrica atrás de convicções adquiridas, não cede a soluções fáceis, nem deixa que seja o mundo a ditar a sua agenda.”

 

Contra Igreja “rígida” ou “tépida”

Giotto, São Francisco

Giotto, São Francisco dando o seu manto a um mendigo, afresco na basílica superior de São Francisco, em Assis: um exemplo para “reparar a Igreja”. 

Prevenindo contra as “tentações perigosas” de uma Igreja “rígida” ou tépida” rendida “às modas do mundo” ou “cansada, fechada em si mesma”, Francisco insistiu que a assembleia sinodal que horas depois se iniciaria não é uma “reunião política, não é um parlamento” polarizado, mas “uma convocação no Espírito”. Tão pouco se trata de decidir “um plano de reformas”, para saber “se o Sínodo vai dar esta autorização, aquela outra, se vai abrir esta porta ou outra… isso não é útil”. Nem sequer, diria o Papa à tarde, se trata de “um encontro” para decidir sobre a “pastoral da Igreja”. Sendo um sínodo, “caminhar juntos é o programa”

O mais importante é que a Igreja olhe “para a humanidade” e que seja “hospitaleira” e tenha um “olhar acolhedor para com os mais frágeis, os atribulados, os descartados”, disse o Papa na homilia da missa da manhã. Ou seja, uma “Igreja que tem Deus no centro” e assim “não se divide internamente e nunca é dura externamente”.

À tarde, na abertura do Sínodo, o Papa referiu: “Num tempo complexo como o nosso, surgem novos desafios culturais e pastorais que exigem uma atitude interior cordial e gentil para os podermos encarar sem medo. No diálogo sinodal, durante esta estupenda ‘marcha no Espírito Santo’ que realizamos juntos como Povo de Deus, oxalá possamos crescer na unidade e na amizade com o Senhor, para ver com o seu olhar os desafios de hoje.”

O exemplo de Francisco de Assis, que inspira a publicação da Laudate Deum, e que é festejado neste dia 4 de Outubro, foi também evocado pelo Papa: enquanto rezava, o Crucificado disse-lhe: ‘Vai e repara a minha igreja’.” E acrescentou: “O Sínodo serve para nos recordar isto: a nossa Mãe Igreja sempre precisa de purificação, de ser ‘reparada’, porque todos nós somos um Povo de pecadores perdoados, sempre necessitados de regressar à fonte que é Jesus e de nos colocarmos novamente nos caminhos do Espírito para chegar a todos com o seu Evangelho.”

O Papa sublinhou ainda: “Francisco de Assis, num tempo de grandes lutas e divisões entre o poder temporal e o religioso, entre a Igreja institucional e as correntes heréticas, entre cristãos e outros crentes, não criticou nem atacou ninguém, mas limitou-se a pegar nas armas do Evangelho: a humildade e a unidade, a oração e a caridade. Façamos assim também nós!”

 

“Comunhão entre partes diferentes”

“Paulo VI disse que a Igreja no Ocidente tinha perdido a ideia da sinodalidade”, recordou Francisco. Foto: Direitos reservados.

 

No seu discurso inaugural da assembleia, o Papa centrou a sua reflexão na figura do Espírito Santo, para vincar ideias que já referira no sábado, quando se dirigiu aos novos cardeais: “A harmonia não significa síntese, mas uma ligação de comunhão entre partes diferentes”, afirmou, desta vez na Aula Paulo VI.

Este grande auditório, onde se decorrem as audiências a grandes grupos, foi pela primeira vez adaptada a auditório sinodal, com dezenas de mesas redondas e os 365 participantes distribuídos por elas. A única mesa ligeiramente destacada por três degraus é aquela onde se senta o Papa e alguns responsáveis da estrutura do Sínodo, incluindo Nathalie Becquart, subsecretária do Sínodo, uma das 54 mulheres com direito a voto.

O cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo do Luxemburgo, relator-geral do Sínodo, explicou a organização “invulgar” da sala dizendo que se pretende promover “a partilha genuína e o discernimento autêntico”, recusando igualmente a ideia de uma “batalha” entre facções.

Dirigindo-se implicitamente aos críticos do Sínodo – que ainda na véspera tinham promovido uma iniciativa nas vizinhanças do Vaticano [ver 7MARGENS] –, o Papa começou por afirmar: “Gosto de recordar que foi São Paulo VI quem disse que a Igreja no Ocidente tinha perdido a ideia da sinodalidade, e por isso criou o secretariado do Sínodo dos Bispos.”

Apesar disso, e apesar dos diversos temas que o Sínodo já tratou, Francisco considera que “a expressão da sinodalidade ainda não está madura” e não havia ainda “o hábito de que todos se expressassem livremente”. Por isso, só “lentamente, ao longo destes quase 60 anos, o caminho foi nesta direcção” podendo chegar-se agora a este Sínodo, desejado por grande parte dos bispos do mundo: no final do anterior Sínodo, sobre a Amazónia, o tema da sinodalidade foi o mais votado, contou o Papa.

Francisco criticou ainda a “tagarelice” e a “mundanidade espiritual”, que considerou doenças frequente, uma e feia, a outra. E pediu frontalidade: “Se não concorda com o que diz aquele bispo ou aquela freira ou aquele leigo, diga na cara dele. É por isso que é um Sínodo. Para falar a verdade.”

 

Lei do silêncio

As cadeiras vazias, antes da abertura da assembleia: os participantes não devem falar com jornalistas. Foto: Direitos reservados.

 

Apesar destes apelos, Francisco pediu que se faça um “certo jejum da palavra pública”. Sublinhando o “trabalho muito importante” e “muito, muito bom” dos jornalistas, acrescentou, no entanto, que no Sínodo “há a prioridade da escuta, há esta prioridade” e “o que é publicado deve estar nesse clima.

No regulamento do Sínodo, entretanto distribuído aos participantes e aos jornalistas, impõe-se um silêncio que contradiz a ideia de um sínodo que pretende desenvolver precisamente a participação de todos. No nº 1 do artº 24 (o regulamento prolonga-se por 18 páginas e 31 artigos), lê-se: “Para garantir a liberdade de expressão do pensamento de cada um e de todos e para assegurar a serenidade do discernimento comum, que é a principal tarefa confiada à Assembleia, cada um dos Participantes está obrigado à confidencialidade e à discrição, tanto em relação às suas próprias intervenções como às intervenções dos outros Participantes. Este dever permanece em vigor depois de terminada a Assembleia Sinodal.” Ou seja, mesmo depois do final de Outubro, terminada a reunião no Vaticano, os participantes devem remeter-se ao silêncio.

Na sua intervenção inicial, o Papa justificou o pedido de reserva, comparando com o que se passou nos dois sínodos anteriores: na assembleia sobre a família (2014-2015), formou-se a opinião “de que se tratava de dar a comunhão aos divorciados”; e no Sínodo para a Amazónia (2019), houve “pressão” para ordenar homens casados que pudessem servir as suas comunidades.

Apesar das justificações do Papa, este pedido não deixa de se assemelhar ao que se passava nas assembleias sinodais durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI. E contrasta com o que o próprio Francisco disse no regresso da sua recente viagem à Mongólia: “Pelo contrário, está abertíssimo, abertíssimo!”, afirmou, em resposta a uma pergunta sobre se o sínodo não seria fechado. Há uma comissão “que dará notícias todos os dias: mais aberto que isso não sei…”

 

A inspiração de São Basílio

Basílio de Cesareia. Ícone do século XI na Catedral de Santa Sofia, Kyiv (Ucrãnia)

 

Com o objectivo de facilitar o ambiente de diálogo entre os participantes, o Papa fez distribuir um conjunto de textos de Basílio de Cesareia (onde hoje se situa a Turquia), teólogo do século IV. Uma iniciativa bem acolhida e valorizada dentro da aula sinodal, como contou um dos participantes. Aliás, depois do retiro de três dias, que possibilitou o conhecimento mútuo de muitas pessoas que não se conheciam (incluindo com os grupos de partilha espiritual que se organizaram nas três tardes), o ambiente sentido na aula sinodal nesta quarta-feira era também muito positivo, acrescentou outro dos envolvidos na assembleia.

Um dos textos de São Basílio remete para a ideia da harmonia, não como síntese, mas como “vínculo de comunhão entre partes díspares”.

Não tem sido fácil o caminho aberto por Francisco numa Igreja fraccionada. Porventura não será fácil também nesta assembleia. O bispo Ibrahim Isaac Sedrak, um dos presidentes-delegados da Assembleia, patriarca dos coptas de Alexandria (Egipto), admitiu precisamente a dificuldade do percurso, mas destacou o lado positivo: “Se por um lado não foi fácil, por outro lado a preparação do Sínodo foi uma experiência fantástica.”

A partir de agora e até 29 de Outubro, se verá o que predomina.

 

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