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autores - Maria do Céu Sousa Fernandes

Voltaremos a contemplar a beleza do mundo

Lucas Cranach, O Jardim do Éden (1530): “Eu não sei qual será a reação das crianças de 8, 10, 11 anos, quando os catequistas lhes dizem que ‘Adão e Eva’ cometeram um pecado horrível”.

«O Senhor Deus levou o homem e colocou-o no jardim do Éden, para o cultivar e, também, para o guardar» Pintura: Lucas Cranach, O Jardim do Éden (1530).

 

«O Senhor Deus levou o homem e colocou-o no jardim do Éden, para o cultivar e, também, para o guardar» (Génesis, 1,15).

«Vá, diz o que pensas. O jardim / não é o mundo real. O mundo real / são as máquinas. /… Não é / muito moderno o som que o vento faz / ao agitar um campo de margaridas: a mente / não consegue brilhar ao segui-lo…/» (Louise Gluck, A Íris Selvagem, p. 83, Relógio d’Água, 2020)

«…não quis retardar mais o pôr em efeito o seu pensamento, estimulando-o a lembrança da falta que estava já fazendo ao mundo a sua tardança, segundo eram os agravos que pensava desfazer, sem-razões que endireitar, injustiças que reprimir, abusos que melhorar e dívidas que satisfazer.» (Miguel de Cervantes, D. Quixote de la Mancha, p. 23, Círculo de Leitores).

Muito do que acontece no mundo é normal, a história humana segue o seu curso, seguimos os acontecimentos sem sentirmos qualquer envolvimento da nossa parte, afastados e como que excluídos do que se passa à nossa volta. Muito do que acontece vai-se desenrolando sem alteração significativa nas nossas vidas.

Mas este fim de verão e início de outono trouxeram-nos acontecimentos imprevisíveis e momentos de inquietação e tristeza indizível. Então, foi como se despertássemos de um sonho e o mundo já não era o que antes fora.

  • Incêndios que flagelaram o país durante uma semana.
  • Escalada das guerras a um ritmo assustador: Gaza, Cisjordânia, Ucrânia, Senegal, Sudão e muitas outras.

Então tem-se sonhos maus e pergunta-se: O que é que tudo isto tem a ver comigo? Que estou aqui a fazer? Que é que posso fazer? Como enfrentar a «intempérie» deste mundo em que vivemos?

E o medo instala-se. Procuramos um consolo, uma esperança, um sentido para a nossa condição humana. Estamos sós perante a nossa vulnerabilidade.

Queríamos regressar à nossa infância, a um tempo cheio de promessas, queríamos esquecer o fosso entre os nossos sonhos e aquilo por que ansiamos.

Mas não podemos ignorar o mal e o sofrimento do mundo.

Vemos o êxodo dos milhões de seres humanos que fogem das guerras, das alterações climáticas, das perseguições religiosas. Em condições precárias, têm de resistir:

  • à perda de familiares e amigos que jazem nas terras, outrora povoadas, e agora transformadas em imensos cemitérios humanos;
  • à destruição das suas casas, dos lugares familiares e das suas vidas;
  • aos longos caminhos das estradas, das montanhas e dos mares, à sede e à fome, ao calor e ao frio, aos perigos e à solidão, ao cansaço e ao desânimo.

Têm a esperança de encontrar um abrigo, vozes amigáveis e até de um dia regressar às suas casas. Mas por quanto tempo? Os perigos continuam e têm diferentes nomes. Nos países onde se refugiam deveriam ter direitos só por serem humanos, mas, como sublinha Giorgio Agamben, «para ter o “direito humano” e pisar solo europeu, não basta ser-se humano e estar-se prestes a morrer afogado; é preciso, antes de mais, saber-se onde nasceu, verificar se é cidadão de uma “nação” simplesmente pobre ou que está de facto em guerra, de um país “amigo” ou de um que “proteja terroristas”. (Hannah Arendt e Giorgio Agamben, Nós, Refugiados. Para lá dos direitos humanos, p. 9, Antígona, 2021).

Talvez um dia voltem a gostar de viver.

  • Vemos nuvens de cinzas cobrindo os montes e terras calcinadas descendo até aos povoados, debaixo de um céu lúgubre e triste.
  • Vemos as casas destruídas pelo fogo que se abrem para nós no meio do abandono e do silêncio, as estradas sem casas nem pessoas, apenas rodeadas dos troncos negros das árvores, testemunhas de acusação emudecidas pelo espectáculo de uma natureza ferida.

Não podemos esquecer as flores do fim do verão, varridas pelo vento e pelas chamas.

Não podemos esquecer o céu de chumbo e as nuvens cor de enxofre como se o sol não tornasse a brilhar nunca mais.

Não podemos esquecer os rios sem vida de águas lamacentas e detritos dos incêndios.

Mas também não esquecemos o milagre da metamorfose da natureza que se renova, pródiga de vida e de consolação.

Os caminhos estão abertos e o homem é livre de escolher. Há muito que fazer e muitos caminhos a percorrer. Podemo-nos perder uma e outra vez, mas a evasão e a indiferença acelerarão o rumo trágico da história.

Josep Maria Esquirol, na sua obra A Resistência Íntima, alerta-nos para alguns dos perigos que nos espreitam na sociedade actual, nomeadamente a banalidade e a aparência, a procura da fama efémera e da notoriedade, a propaganda e as teorias snobes apresentadas como pretensões de excelência, isto é, mediocridade. E, como antídoto, contrapõe a simplicidade que não é banalidade, o amparo, o cuidado, a indiscutível dignidade da vida humana, a proximidade e a abertura aos outros e ao mundo concreto em relação ao qual ele propõe uma nova atitude. «Daí que seja imperativo um novo materialismo: o das mãos que pegam e tocam; o dos odores que sentimos e o das cores – fora dos ecrãs – que vemos. […] O materialismo do qual andamos falhos não é o teórico – quase contraditório nos seus termos – mas o mais concreto, e por isso, o mais verdadeiro de todos. Se não o recuperarmos, sim, a era digital será, mais que tudo, a era da evasão. » (Josep Maria Esquirol, A Resistência Íntima, pág. 60-61, Edições 70, 2020).

Os moinhos de vento de D. Quixote, o cavaleiro andante que luta para fazer justiça e tornar o mundo melhor, talvez nos incitem a reconhecer a força dos sonhos, os quais podem ser miragens longínquas, mas a vida só possui o valor que lhe dão os sonhos.

E, assim, animados por uma esperança, embora ténue, reencontraremos novos caminhos do futuro.

No fim está o princípio. E voltaremos a contemplar a beleza do mundo.

 

Maria do Céu Sousa Fernandes é professora aposentada, com formação académica na área de Filologia Germânica. Desempenhou alguns cargos políticos e foi presidente da Fundação Cultural Bracara Augusta de 2000 a 2013.

 

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