Há países que vivem com fantasmas, o Irão (Pérsia) é um deles.
Antes de 1979, o Xá Mohammad Reza Pahlavi governava como quem tenta empurrar à força um país inteiro para o futuro. Modernização, escolas, estradas, mulheres a estudar, a trabalhar, a votar mas, ao mesmo tempo, prisões cheias, silêncios impostos e uma polícia secreta. O Xá caiu, mas não desapareceu, ficou suspenso na memória, como aquele retrato que ninguém quer pendurar mas que também não quer deitar fora.
Décadas depois, o seu filho regressa simbolicamente. Reza Pahlavi aparece como quem abre uma porta antiga e deixa entrar ar num quarto fechado há demasiado tempo. Não vem para governar, vem para lembrar que o passado não morre, apenas adormece.
Mas o presente não tem nada de adormecido, o presente está em chamas. As ruas do Irão tornaram‑se palco de uma violência que já não se pode disfarçar. O aiatola responde às manifestações como quem responde a uma invasão: com balas, com bastões, com medo. Há vídeos de jovens a correr, de mulheres a gritar, de homens a cair. Há hospitais onde os médicos sussurram números que não podem escrever. Há famílias que recebem corpos com instruções de silêncio, como se o luto fosse também um crime.

“O regime não reprime, pune, e pune com a frieza de quem acredita que o poder é eterno.” Foto: Protestos no Irão contra morte de Masha Amini. Redes sociais
O regime não reprime, pune, e pune com a frieza de quem acredita que o poder é eterno.
Mas o povo insiste, insiste em sair, em gritar, em existir, insiste porque já percebeu que o medo não salva ninguém. Insiste porque, quando a liberdade começa a nascer, não há como a prender outra vez.
No meio da coragem deste povo, houve quem prometesse ajuda. Palavras vindas de longe, amplificadas por câmaras e microfones: a promessa de Donald Trump, que muitos iranianos ouviram como quem ouve um eco de esperança. Mas a promessa ficou suspensa, sem ação, sem consequência, e o silêncio que se seguiu foi a parte II da violência.
A verdade é simples e amarga: os Estados Unidos têm bases militares em quase todos os países que rodeiam o Irão, podiam ter feito mais, ou pelo menos ter dito claramente que não fariam, mas preferiram a conveniência e o povo iraniano percebeu que estava sozinho, outra vez.
O regresso do Xá, a violência do aiatola, a promessa vazia do exterior, tudo isto parece um teatro trágico onde cada personagem representa uma ferida diferente. Mas no centro do palco está o povo, sempre o povo, a única força que não desiste, a única que não tem fantasmas, a única que não tem escolha senão continuar. E é isso que o regime ainda não entendeu: não se pode matar uma ideia quando ela já aprendeu a respirar.
O Irão está num ponto de rutura e, apesar das balas, das perdas, das traições e dos fantasmas, há algo que continua a crescer nas ruas: a certeza de que a liberdade, quando finalmente se levanta, não volta a ajoelhar.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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