(Maria da Conceição Moita morreu na madrugada desta terça-feira, 30 de março, a poucos dias de completar 84 anos; aqui, ela é evocada por Jorge Wemans.)
Há 48 anos ergueu-se no meio da comunidade para fazer ouvir a sua voz. Convidou-nos a uma vigília pela paz em tempo de guerra. Antes e depois foi sempre assim: uma voz, uma vida, marcada pela rebelde candura doce da razão e da fé.
A evidência das coisas erradas, das injustiças, do que “não podia ser”, a urgência de mudar o que “tramava” a vida de outros amadureciam na Xexão, não como raiva angustiada, mas como determinação firme de quem apura dentro de si a rebelde certeza de que é preciso denunciar “o que está mal” e desafiar as boas-vontades a organizarem-se para que a justiça e a vida boa prevaleçam. E nesses desafios punha uma desarmante candura, um sorriso doce, uma clareza tão transparente e original a que era impossível dizer “não”.
A grande arte da vida da Xexão não foi tanto a de ter concretizado tantas e tão importantes lutas e iniciativas. A sua assinatura maior é a de ter desafiado tanta gente, em tão diferentes circunstâncias, ao longo de tantos anos a gostar mais da vida por se envolver na construção de respostas transformadoras de vidas sufocadas. Esse era o espírito fresco “e sempre novo” que a habitava.
No verão passado soube (soubemos) que lhe restava pouco tempo de vida. A serenidade tranquila com que acolheu essa revelação ilumina o modo como viveu. A vida como um trânsito, um apaixonado desapego, uma convicção de destino bom, para ela e para todos. A certeza de ser amada, querida, experimentada no modo como se aproximava dos outros. Nessa serenidade confiante os seus familiares e amigos puderam tocar – ver, “claramente visto” – a profunda intimidade da Xexão com Aquele que desde muito nova quis para companheiro de caminho.
Uma das últimas prendas que me deu foi tratar-me por amiga. No final do verão organizámos um calendário de visitas diárias a sua casa. Uma tarde para cada um. No final de dezembro, a Xexão enviou um e-mail ao grupo que começava assim: “Tenho pensado em cada uma e no grupo nestes tempos de Festa. Sobretudo com o coração agradecido.” Quando voltámos a encontrar-nos, eu e ela, muito nos rimos de ter escolhido (com a razão do grupo ser maioritariamente constituído por mulheres) tratar-me por “amiga”. “Fiquei à espera de ver o que me dirias…” – disse-me com aquele sorriso maroto. Que te posso dizer que não seja um imenso obrigado por me teres incluído no grupo das cuidadoras, das que respeitam, tratam e acarinham a Vida? Não foi isso mesmo que andaste fazendo toda a tua vida?

Giotto, Natividade: o postal enviado por Conceição Moita às “amigas” no Natal de 2020.
Nesse mesmo mail, escrito 48 anos depois de ter dado início à Vigília pela Paz na Capela do Rato, a Xexão terminava assim: “A vida é tão surpreendente! Que venha 2021!” É sim, Xexão, a vida é uma surpresa boa! E é também um mistério… de que nos tornamos mais íntimos contemplando a tua vida.
Lisboa, 29.03.2021










