Um português a cantar em italiano antigo o Cântico das Criaturas, em França, em círculos de silêncio pela COP30, que decorre em Belém (Brasil) até ao final desta semana, um “gesto humilde” para “desafiar os decisores políticos sobre o seu poder de agir” e “uma forma visível, respeitosa e inclusiva de trazer à tona as questões da governação climática”. Coincidência: há dois anos, sem que soubessem uns dos outros, o grupo Luta e Contemplação iniciava em França os seus “círculos de silêncio”, ao mesmo tempo que na Igreja de Santa Isabel se faziam também manhãs de oração, silêncio e canto pela criação.
João Maria Carvalho compôs uma música para o poema escrito por Francisco de Assis há 800 anos (1225-26), e que foi já origem de muitas criações musicais e poéticas, incluindo uma antologia recente de poetas portugueses.
Há dois anos, na vigília ecuménica que antecedeu a abertura do Sínodo sobre a Sinodalidade, João Maria Carvalho cantou a sua versão musical em plena Praça de São Pedro.
Por ser um “cântico da rua” que lhe está “colado ao corpo”, João Maria Carvalho, 26 anos, viu há pouco tempo a notícia dos círculos de silêncio do Luta e Contemplação, organizados um pouco por toda a França para “desafiar os decisores políticos sobre o seu poder de agir” e “uma forma visível, respeitosa e inclusiva de trazer à tona as questões da governação climática”.
Com apoios vários, João decidiu meter-se a caminho. Primeiro de autocarro, de Lisboa a Bordéus, no sudoeste de França, depois de comboio até Chartres e, por fim, até Paris. Nestas últimas três manhãs, durante uma hora, umas 30 pessoas faziam literalmente um círculo de silêncio num lugar público, empunhando cartazes a pedir uma conversão ecológica, enquanto distribuíam folhetos a quem passava para explicar o que ali se passava.
“Achei curioso ver que, sem combinar, em França um colectivo cristão muito empenhado nas questões ecológicas decidiu começar o mesmo exactamente na mesma COP28”, diz João Maria Carvalho ao 7MARGENS, a propósito da sua participação nos círculos do Lutte et Contemplation, ao quel se juntaram outros movimentos franceses. “Só vi este ano e pensei imediatamente em escrever-lhes para fazer a ponte entre as comunidades portuguesas e as comunidades francesas. E a desculpa foi vir cantar o Cântico nos círculos de cá.

Na manhã de domingo, 16 de novembro, em Paris, umas 70 pessoas juntaram-se diante da Igreja de Saint Pierre de Montrouge, à entrada da estação de metro Alesia. Num dos cartazes, lia-se “O nosso silêncio é um grito”. Foto: Direitos reservados.
Na manhã deste domingo, em Paris, umas 70 pessoas juntaram-se diante da Igreja de Saint Pierre de Montrouge, à entrada da estação de metro Alesia. Na sexta, tinha sido em frente da Faculdade de Direito da École Nationale de Magistrature, no sábado foi em Chartres, numa praça próxima da catedral. Num dos cartazes, lia-se “O nosso silêncio é um grito” e num outro “Sem petróleo a festa é mais louca”.
“Através deste silêncio, transmitimos as seguintes mensagens: estamos conscientes da gravidade da situação; queremos que os Estados sejam mais ambiciosos nas suas metas de redução de emissões; queremos que os governos atuem ‘sem mais demoras para eliminar definitivamente os combustíveis fósseis’; esperamos uma maior justiça climática, particularmente do ‘Norte Global’, que anteriormente prometeu ajuda aos países do ‘Sul Global’ sem honrar integralmente os seus compromissos”, diz o grupo Lita e Contemplação a propósito das suas iniciativas. O colectivo francês secunda, deste modo, o apelo de mais de trinta organizações cristãs dirigido à COP30 no Brasil.
“Este é um movimento crescente de consciencialização e conversão ecológica”, sublinha ainda João Maria Carvalho olhando para esta curta experiência em França. “Como acontece exactamente ao mesmo tempo que a COP, teria um impacto mínimo, mas possivelmente consequente.”

O círculo reuniu-se em Chartres, numa praça próxima da catedral. Foto: Direitos reservados.
À entrada da segunda e última semana de trabalho, a COP30, como o 7MARGENS noticiou, confronta-se com a inércia de líderes políticos perante os resultados cada vez mais catastróficos divulgados em relatórios e estudos e com a falta de resposta perante as imponentes marchas de protesto ou os bloqueios organizados pelos movimentos indígenas.
Mas João Maria Carvalho não perde a esperança. E cita Sophia de Mello Breyner: “Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.” O grupo Luta e Contemplação proclama: “Unimo-nos para, no nosso silêncio, elevar o clamor da Terra e dos pobres!” E João acrescenta: “A crise climática não é tolerável.”










