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Michel Serres
Michel Serres no Espace des Sciences em Rennes (França), em fevereiro de 2011. Foto © Espace des Sciences/Wikimedia. Michel Serres no Espace des Sciences em Rennes (França), em fevereiro de 2011. Foto © Espace des Sciences/Wikimedia (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Michel_Serres_-_Espace_des_sciences_-_15-02-2011.JPG)

[Crónica da Europa]

A alegria do humanismo em Michel Serres

No próximo 2 de março terei o gosto de falar sobre “A Alegria em Michel Serres”, no ciclo de conferências que, com pulso firme e horizonte vasto, Maria Luísa Ribeiro Ferreira organiza desde 2015 na Capela do Rato, em Lisboa. São encontros que se tornaram uma referência da reforma sinodal católica, que muitos vivemos desde que o Vaticano II há décadas chegou a Portugal; em particular na vida cívica, na vigília da Capela do Rato em 1972, onde estiveram presentes personalidades como Jorge Wemans, Conceição Moita, Zeca Afonso e muitos outros.

Michel Serres (1930-2019) pertence à linhagem rara dos pensadores que ampliam o horizonte sem esmagar o detalhe. Nascido em Agen, filho de um industrial de drenagens, formou-se na Escola Naval de Brest e serviu como oficial da Marinha, chegando a participar na expedição militar de Suez. Quando em 1957 o comandante do couraçado Richelieu, numa palestra a bordo lhe perguntou, “o senhor, que é filósofo, diga-nos o que é o mal” ele pediu aos oficiais que o seguissem até à ponte, apontou os canhões de 244 mm e exclamou “Está aqui, o mal”.

Em paralelo, ingressou na Escola Normal Superior, onde concluiu filosofia. Essa dupla experiência – o rigor técnico e a meditação teórica – marcou toda a sua obra.A partir de 1958 iniciou uma carreira que o levou a Clermont-Ferrand, à Paris-VIII em Vincennes – chamado por Michel Foucault – à Universidade Paris 1 Pantheon-Sorbonne e, desde 1984, à Universidade de Stanford, California. Em 1990 foi eleito para a Academie Française. Publicou cerca de oitenta livros. O primeiro, dedicado a Leibniz, revelou desde cedo a sua vocação para cruzar matemática, metafísica e história das ciências.

Serres tornou-se conhecido como filósofo da circulação da informação. Na série de livros Hermès colocou no centro a comunicação como operador universal. No final dos anos 50 intuiu que a sociedade industrial cederia lugar a uma civilização da circulação da informação. A produção “marxista” e a troca “liberal” são metáforas suficientes para descrever o mundo contemporâneo. A informação propaga-se, multiplica-se, reorganiza as relações. Décadas depois, a cultura digital veio confirmar essa visão, celebrada no êxito editorial de Petite Poucette em 2012 – mais de 300 mil exemplares vendidos em França – onde a figura da “Polegarzinha” simboliza a geração moldada pelo telemóvel.

Michel Serres

A sua reflexão sobre ciência nunca foi tecnocrática. Em O Parasita e O Contrato Natural propôs uma revisão profunda do humanismo. A relação precede os termos; o humano surge dentro de redes que incluem objetos, seres vivos, fluxos materiais e simbólicos. O “quase-objeto” – seja uma bola de futebol, uma moeda material ou virtual, a palavra – cria comunidade ao circular. O contrato natural estende a ideia de pacto ao planeta inteiro. A Terra entra como sujeito de direito na comunidade comum. A ecologia adquire, assim, espessura filosófica.

Como traço metodológico, Serres recusou a oposição entre sistema e singularidade. Preferiu tecer saberes. A filosofia, dizia, reúne, conecta, estabelece isomorfismos. Comparava o seu trabalho a um salão do século XVIII onde disciplinas diversas conversam sem perder identidade. A imagem da passagem do Noroeste, estreita e incerta, ilustra o seu ideal interdisciplinar: navegar entre campos distintos exige precisão, paciência e invenção.

Michel Serres

Nos livros finais – Hominescência, Rameaux, e em particular Récits d’humanisme (2006), A grande Narrativa do Humanismo – reformulou a “Grande História” e conferiu um novo sentido libertador ao Humanismo A humanidade inscreve-se numa narrativa que começa com o nascimento do universo, passa pela formação das galáxias, pela emergência da vida e culmina na aventura humana. Assim escreve: a nossa sabedoria coloca agora Lúcia antes de Plínio, o Velho, os ossos espalhados nos vales do Chade antes de Homero Cego e Noé, o viticultor, e a nossa Mãe e Pai Africano antes de Adão e Eva, antes de todos os antepassados ​​venerados em todas as culturas; lê o código genético antes do código de Hamurabi.

As descobertas paleoantropológicas, como o fóssil de Lucy, permitem contar essa história comum anterior a todas as culturas. Humanismo torna-se, então, consciência de pertença a uma genealogia cósmica. Cultura deixa de significar apenas quatro mil anos de escrita; passa a incluir mais de treze mil milhões de anos de evolução. O universo narra-se através de bifurcações contingentes, de desvios criadores, de informação que se organiza entre o ruído e a forma.

Essa visão transforma também a espiritualidade. O tema religioso atravessa a sua obra de modo discreto e constante. Serres falava de religião inclusiva. Em diálogo com o filho, Jean-Francois Serres, publicou Solidão. Diálogo sobre compromisso, em 2015 onde a experiência cristã surge como compromisso concreto com os mais frágeis. Jean-François esteve ligado aos Petits Frères des Pauvres e à mobilização contra o isolamento dos idosos, vindo a criar Monalisa : la force du collectif pour vaincre la solitude, que em 2024 conta com 904 equipas de cidadãos e mais de 9.000 voluntários envolvidos.

Nos últimos anos, a sensibilidade de Michel Serres convergiu com a ideia de uma Igreja entendida como rede de relações e participação, afinada com o espírito de reforma sinodal que percorre o cristianismo contemporâneo. O paradigma da comunicação encontra aqui expressão eclesial: circular a palavra, partilhar responsabilidade, reconhecer a dignidade de cada voz.

A alegria do humanismo em Serres não é optimista, é optimizadora. Ele deixou bem claro os horrores da guerra, falando com experiência. Mas o humano participa de uma história maior, integra a natureza, dialoga com a ciência, cultiva a espiritualidade. Cultura é aquilo que impede que alguém seja esmagado pelo peso da própria cultura. Filosofar consiste em compor confluências móveis, fios atados por nós firmes, nuvens de relações. Na turbulência contemporânea, Michel Serres deixou um convite indispensável: aprender a ligar, escutar e celebrar a pertença comum ao mesmo universo.

 

Edições das obras de Michel Serres em português
Nos anos 1990, a Terramar editou Elementos para uma História das Ciências (3 volumes, 1995-1996) e As Origens da Geometria (1997). As edições Piaget traduziram O Contrato Natural (1994), O Terceiro Instruído (1993),  Hominescência (2004), Ramos (2005) e A Grande Narrativa do Humanismo: a História da Humanidade (2008). A editora Guerra e Paz publicou Antes é que era bom! (2018); Tempo De Crises (2019). A Edição Rés publicou A Comunicação (2019).

Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.

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