AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

" Um grupo de cidadãos conscientes e devotos da memória ancestral da terra, resolveu recriar uma tradição extinta há cerca de 90 anos: a “dança das ciganas” em louvor de Nossa Senhora da Alegria e em diálogo com ela." Foto © Ruy Ventura

"Dança das Ciganas" em Alegrete

A alegria e a gratidão dançaram perante Santa Maria

| 23/08/2026

Em memória de Manuela Mendonça

 

As tradições dignas não são traições. São antes esporas usadas pelo Espírito Santo para nos picar a consciência, incitando-nos a seguir o bom caminho, tal como nos ensinou o poeta Gerard Manley Hopkins. Instrumentos de futuro e de esperança, nunca serão bolor passadista nem ferramentas de manipulação, usadas para exibir uma identidade inventada, na realidade oca e até perigosa. Em Alegrete, vila do concelho de Portalegre, houve esse entendimento. Um grupo de cidadãos conscientes e devotos da memória ancestral da terra, resolveu recriar uma tradição extinta há cerca de 90 anos: a “dança das ciganas” em louvor de Nossa Senhora da Alegria e em diálogo com ela. Fizeram-no no preciso momento em que, à bela placa de boas-vindas à localidade, quase encostada à fronteira, foi sobreposto o cartaz enorme de uma força política que tem defendido a submissão e mesmo a exclusão maniqueísta dos ciganos.

O rei David dançou perante a chamada Arca da Aliança. No segundo Livro de Samuel, capítulo 6, conta-se que o monarca dançou “com todas as suas forças perante o Senhor […] en­quanto ele e todos os israelitas levavam a arca do Senhor ao som de gritos de alegria e de trombetas”. Nem todos apreciaram, contudo, a sua atitude: “entrando a arca do Senhor na Cidade de David, Mical, filha de Saul, observava de uma janela. E, ao ver o rei Davi dançando e celebrando perante o Senhor, ela desprezou-o em seu coração” (2 Samuel 6, 14 – 16). Há sempre quem se sinta incomodado perante a alegria alheia, mesmo que se relacione com a presença de Deus entre os homens. Ou por isso mesmo…

A tradição de Alegrete talvez junte uma longínqua reminiscência desta narrativa a outra história milenar, não registada no Novo Testamento. Foi representada, visualmente, por vários artistas ibéricos, nomeadamente os pintores André de Morales e Josefa de Ayala, dita Josefa de Óbidos, em pinturas executadas no século XVII e hoje patentes na igreja da Santa Casa da Misericórdia de Santarém e no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Há vestígios dela no Alto Alentejo, segundo assegura Luzia Aurora Rocha num estudo dedicado ao assunto. Conta-se que a Sagrada Família, na sua fuga e refúgio no Egipto, terá merecido bom acolhimento de uma comunidade cigana aí residente. Nessas pinturas, vemos membros femininos e infantis da comunidade romani (chamados gypsies ou gitanos, como lembrança desse Egipto longínquo), com os seus característicos chapéus, a dar carinho a Jesus menino, Maria e José, com música, oferta de bens e leitura da sina. Daí nasceram representações da Mãe do Redentor como cigana, envergando o mesmo género de indumentária, nomeadamente na pintura de Luis de Morales, dito el Divino, pintor de Badajoz, a escassas dezenas de quilómetros de Alegrete.

Durante uma epidemia, a aflição do povo levou à colocação da imagem da Senhora da Alegria sobre as muralhas da localidade. Uma das famílias salvas era de etnia cigana e terá originado a promessa de, anualmente, se oferecer à Mãe do Salvador uma dança plena de júbilo e súplica. Foto © Helena Trindade.

De nada disto fala, contudo, a tradição da vila que, até meados do século XIX, foi sede de um pequeno concelho fronteiriço. Relata, antes, que durante uma epidemia (peste) a aflição do povo levou à colocação da imagem da Senhora da Alegria sobre as muralhas da localidade (ainda hoje quase intactas). Uma das famílias salvas era de etnia cigana e terá originado a promessa de, anualmente, se oferecer à Mãe do Salvador uma dança plena de júbilo, de acção de graças e de súplica. O voto foi concretizado até às primeiras décadas do século XX. Recuperou-se agora, graças à atenta iniciativa do Grupo de Intervenção Patrimonial de Alegrete, integrado na centenária Sociedade Recreativa e Musical Alegretense, dinamizado pelo presidente da sua assembleia geral, o educador Francisco João Pacheco.

Depois de transitar pelas ruas históricas de Alegrete, a procissão estacou na Praça, junto do coreto. Perante centenas e centenas de pessoas, os andores pararam. Abriu-se uma clareira. Elevou-se a voz emocionada de Francisco Pacheco, dirigindo-se ora aos seus conterrâneos e amigos da vila, ora à imagem da Virgem, uma obra em tamanho quase natural, vestida com rica indumentária e ornada de ouro e prata, fazendo lembrar um dos salmos do Antigo Testamento. Enquadrou a iniciativa. Historiou a tradição. Lembrou a Maria a sua acção determinante no afastamento da peste, há tantos séculos, e incitou-a a interceder pelo povo (português, depreendeu-se), afastando-o dele uma outra peste, agora bem patente: aquela que exclui os indesejados, que recusa a diversidade cultural e vivencial, que divide os seres humanos entre dignos e indignos, que açula pessoas contra pessoas, explorando ressentimentos e inquietações para atingir um poder político avesso à inalienável dignidade de cada ser. Antes da dança, ensaiada e conduzida musicalmente pelo casal Manuel e Fernanda Braga, executada por nove mulheres entre a pré-adolescência e senectude, que não tiveram medo de vestir-se de ciganas, o aplauso às palavras de Pacheco foi imenso. (Esperemos que seja um aplauso consequente!). Com maior ou menor consciência, quem ali esteve parece ter percebido que não há culto sem cultura e que não existe cultura sem interculturalidade e abertura sensível ao Outro e aos outros.

A dança foi ensaiada e conduzida musicalmente pelo casal Manuel e Fernanda Braga, e executada por nove mulheres, que não tiveram medo de vestir-se de ciganas. Foto © Ruy Ventura

Os membros da Ordem dos Frades Menores estiveram no Alto Alentejo entre o século XIII e o século XIX. A devoção à Senhora da Alegria e às alegrias ou prazeres da Virgem Maria terá sido enxertada por esses religiosos. Não há, contudo, vestígios dela anteriores a meados do século XVIII. Acredita-se que foi enxertada pelos membros de várias comunidades de leigos integradas na Ordem Terceira de São Francisco, cujo oitavo centenário da morte agora se comemora. Lembra-nos “a verdadeira e perfeita alegria” apresentada pelo santo de Assis num dos seus escritos. É inseparável da dor e da paciência que todos devemos ter quando se trata de enfrentar as dificuldades da vida, por maiores que sejam. Se o culto à Virgem Mãe da Alegria está patente em Carreiras (Portalegre), Castelo de Vide e Alter do Chão, tendo desaparecido da cidade de Portalegre, tal devoção à alegria materna de Maria só em Alegrete mantém a sua face dolorosa. Não é por acaso que a mesma imagem mariana, jubilosa na maior parte do ano, é vestida de luto na Quaresma e assim acompanha a imagem do Filho com a cruz às costas, numa procissão anual.

Toda esta memória viva foi recuperada em Alegrete neste ano de 2026. Até uma exposição se montou nos dois pisos da casa paroquial, juntando o sagrado ao profano – que são, como se sabe desde o famoso livro de Mircea Eliade, faces indissociáveis da mesma realidade religiosa. Sementes de esperança foram lançadas ao terreno fértil da Raia alto-alentejana, na Serra de São Mamede. Esperemos que o futuro as faça crescer e dar fruto!

 

Ruy Ventura é historiador de arte (CHSC – Universidade de Coimbra) e poeta, organizador de Por Mim Fora – antologia de poemas de Sebastião da Gama, publicada pela Officium Lectionis e um  dos responsáveis pela exposição referida no artigo.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Recém-criada Aliança Inter-Religiosa pela Paz apela ao envolvimento de todos

“Chuva Pacífica”

Recém-criada Aliança Inter-Religiosa pela Paz apela ao envolvimento de todos novidade

“Uma única gota de chuva parece insignificante. Não pode apagar um incêndio. Não pode parar uma guerra. Não pode curar todas as feridas da história. Mas uma multidão de gotas pode humedecer a terra seca e permitir que uma nova vida brote dela. O mesmo acontece com a construção da paz”. É com esta imagem de um simples pingo de chuva que acaba de ser constituída na cidade croata de Rijeka a Aliança Mediterrânea para a Paz.

A luz que ainda nos guia

Livro "História da Luz: Arte e Visão"

A luz que ainda nos guia novidade

Dadas as raízes antropológicas comuns da arte e da religião, tudo indica que as artes terão acompanhado desde os seus primórdios as tendências devocionais dos povos, e nesse sentido, desde tempos imemoriais que a arte testemunha e regista os fenómenos luminosos como uma das principais metáforas da transcendência. [Texto de Sílvia Pinto].

Universidade Católica celebra 60 anos com líderes mundiais e grandes debates sobre o futuro

Fundada em 1967

Universidade Católica celebra 60 anos com líderes mundiais e grandes debates sobre o futuro novidade

Angela Merkel, Paul Tighe, Michael O’Flaherty e Paul Richard Gallagher estão entre as personalidades que vão passar pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) no âmbito das comemorações dos seus 60 anos, que arrancam este ano e se prolongam ao longo de 2027. Inteligência artificial, direitos humanos, geopolítica, desenvolvimento económico e longevidade serão alguns dos temas em debate.

De Jesus ao cristianismo: como nasceu uma religião

[Entre Margens]

De Jesus ao cristianismo: como nasceu uma religião novidade

Durante séculos, habituámo-nos a pensar em Jesus como o fundador do cristianismo. A associação parece tão evidente que raramente a questionamos. Mas terá Jesus de Nazaré pretendido fundar uma nova religião? Ou terá o cristianismo surgido de um processo histórico muito mais longo e complexo do que habitualmente imaginamos? [Texto de Dália Fernandes].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.