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Evangélicos e Chega: separar as águas

Evangélicos e Chega: separar as águas

by | 28 Mai 20

Face a referências públicas incorrectas sobre os evangélicos nos media, houve uma reacção natural e justificada desta comunidade religiosa cristã. Dada a pluralidade do grupo, é útil perceber as perspectivas que levam à concepção da identidade evangélica.

 

A Aliança Evangélica e o Instituto Bíblico Monte Esperança demarcaram-se prontamente da reportagem feita na revista Visão sobre o partido Chega e onde os evangélicos surgiam associados ao partido de André Ventura e em paralelo com outras situações moralmente questionáveis.

A reacção foi imediata e os evangélicos mostraram-se, nas redes sociais, pouco confortáveis com a relação estabelecida, por vezes esquecendo-se que o foco do artigo também não era apenas a sua comunidade, embora não deixando de ter razão na reacção. Como dizemos por cá: quem não se sente, não é filho de boa gente.

Na minha opinião, a reportagem foi pertinente e revelou com mais pormenor aquilo que não pode ser aceitável no interior de um partido numa sociedade democrática. Embora se mencione algumas vezes o carácter mais neopentecostal dos grupos, acabou por generalizar e transmitir a ideia de que os evangélicos serão um potencial grupo de apoio ao Chega. Isto é verificável no conteúdo de capa, caixas de destaque e nas citações muito pouco adequadas de estudos académicos.

Não posso deixar de fazer uma leitura às respostas institucionais, em que se verificou uma demarcação de um populismo de extrema-direita. Na minha opinião, e infelizmente, este não deixará de existir e estar presente residualmente entre evangélicos portugueses, tal como em outros cidadãos crentes e não-crentes.

Em todo o debate público levantou-se novamente a questão da identidade evangélica, cuja percepção é complexa até para os próprios evangélicos e sobretudo para a maioria dos portugueses, de cultura religiosa essencialmente católica-romana. Grande parte da percepção pública dos evangélicos deriva dos soundbites brasileiros e norte-americanos, onde há de facto lobbies evangélicos e ultra-conservadores, como a “Bancada Evangélica” ou o “Tea Party”. A isso, acrescenta-se a difusão dos canais de televisão e rádio neopentecostais, o que contribui para a criação de estereótipos sobre os evangélicos no seu todo.

É importante separar as águas e esclarecer perspectivas que podem ser úteis à compreensão do fenómeno “evangélico”.

O termo “evangélico” não é domínio do religioso, ou seja, não é a interpretação da Aliança Evangélica Portuguesa ou do Conselho Português de Igrejas Cristãs que decide quem são ou não os verdadeiros “evangélicos”. Sociologicamente e na esfera pública, as igrejas neopentecostais não deixam de ser “evangélicas”, já que derivam dos grupos evangélicos pentecostais.

Na interpretação teológica e histórica, os grupos neopentecostais têm muita dificuldade em aceitar credos, confissões e declarações de fé que são comuns no cristianismo e no protestantismo. Mais: revelam indícios de abuso financeiro e psicológico nas suas comunidades e, por isso, são recusados no universo das igrejas evangélicas tradicionais estabelecidas.

Mas é inevitável perceber as origens. A expressão “evangélica” vem do latim “evangelion” que foi utilizada para descrever as Igrejas que tomavam decisões segundo o “Evangelho” em contraponto à visão tradicionalista do catolicismo-romano no séc. XVI. “Evangélico” foi o primeiro termo a ser utilizado para caracterizar os partidários da Reforma protestante do séc. XVI. O termo é complementar a “reformado” e “protestante”.

O princípio clássico de interpretação das Escrituras nasce com o Renascimento e em particular com o humanista cristão católico Erasmo de Roterdão, dos quais Lutero, Zuínglio e Calvino foram inicialmente admiradores.

As igrejas protestantes históricas têm na sua denominação formal o título “evangélico”; por exemplo: Igreja Evangélica da Alemanha (Luterana) e Igreja Evangélica Reformada da Suíça. Os movimentos protestantes independentes do séc. XVII ao séc. XX, como os congregacionais, baptistas, metodistas e pentecostais, são também “evangélicos”.

Existem igrejas evangélicas portuguesas em território nacional desde 1866, como é o caso da Igreja Evangélica Presbiteriana. Os evangélicos apoiaram os republicanos na Primeira República, remeteram-se ao silêncio público ou clandestino durante o Estado Novo, tendo também alguns apoiado o regime ditatorial e tendo ainda outros colaborado com os movimentos africanos de libertação.

Na década de 1990, existiram óptimas relações institucionais entre o Estado e os evangélicos, na relação entre o vice-procurador da República, José Dias Bravo, o Presidente da República Jorge Sampaio e o ministro da Justiça Vera Jardim, membros do Partido Socialista. Os evangélicos foram dos principais participantes e interessados na elaboração da Lei de Liberdade Religiosa que está em vigor em Portugal, e que é um documento essencial para a convivência democrática e garante dos direitos das entidades religiosas.

Em resumo, existem evangélicos conservadores, evangélicos liberais, evangélicos carismáticos, tal como existem também católicos conservadores, católicos progressistas ou também católicos carismáticos.

Uns apoiaram George W. Bush, Trump e Bolsonaro; outros apoiaram Jimmy Carter, Clinton e Obama. Destes nomes, Trump e Bolsonaro são os únicos que não têm filiação evangélica. Uns apoiaram o apartheid, o Klu-Klux-Klan e o nazismo; outros lutaram contra a escravatura, resistiram ao nazismo, lutaram pelos direitos civis dos negros e fundaram organismos internacionais como a Cruz Vermelha Internacional, YMCA e as Sociedades Protectoras de Animais.

Estas divisões não são lineares, não são preto e branco; há cinzentos. Mas saber distinguir e comunicar a diferença é um exercício complexo que só valoriza a democracia, o diálogo e a tolerância religiosa e social. É uma responsabilidade dos media institucionais, das igrejas e dos seus organismos, e dos crentes e não-crentes enquanto cidadãos.

 

João Paulo Henriques é mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação; membro co-fundador da Sociedade Eduardo Moreira; membro de uma Igreja Evangélica Baptista (1991-2009); guia intérprete nacional de Turismo.

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