
“Na noite da desesperança, na tormenta dos dias tristes, no cansaço das semanas sem fim, não estamos sós: Deus está connosco.” Foto: © Adam Ferguson/Amnistia Internacional
Nenhuma solução milagrosa. Nenhuma segurança definitiva. Todas as interrogações. Um mar de dúvidas. Um rio de inquietações. Muitas perguntas.
Aos crentes nenhum mapa pré desenhado onde possam ler como resolver os problemas de cada tempo é oferecido. Aos cristãos que agora celebram o Natal é proposto que reconheçam no menino nascido numa pobre manjedoura o Deus que se quis misturar com a humanidade. O Deus connosco. Que nunca mais deixou de estar no meio de nós. Que afinal sempre esteve connosco desde o tempo primordial. Esta é a pequenina luz bruxuleante de que falava Jorge de Sena, que brilha aos olhos e no coração da fé: não fomos abandonados, não ficámos esquecidos. Na noite da desesperança, na tormenta dos dias tristes, no cansaço das semanas sem fim, não estamos sós: Deus está connosco. Ele é a Presença próxima que não altera nada, mas tudo muda. E convoca-nos a tudo mudar.
Dos nossos dias mais recentes irrompem as vozes de um grupo de padres do Porto clamando atenção ao crescimento do número de pessoas com fome na cidade. Ecoando sobre elas chegam idênticas declarações do bispo de Setúbal sobre o território da sua diocese.
Com Manuela Silva e Alfredo Bruto da Costa percebemos o caracter endémico e hereditário que, em Portugal, têm os fenómenos da pobreza e da fome. Eles e outros mostraram-nos como a pobreza é produzida quotidianamente pelo sistema económico em que temos vivido. Outros ainda permitiram-nos entender que a pobreza e a desigualdade extrema são fatores de retrocesso económico, são desequilíbrios que não nos permitem crescer harmonicamente, ou, mais simplesmente, crescer.
Em pobreza extrema encontramos pessoas sem-abrigo, desempregados, famílias monoparentais – quase sempre mulheres com os seus filhos – e pensionistas, mas também trabalhadores por conta de outrem cujo salário de miséria não chega para custear o mínimo de vida digna.
O Papa Francisco resumiu tudo isto numa frase lapidar que todos os dias vem ter connosco: esta economia mata. E mata, literalmente falando: mata pessoas condenando-as a (sub)viver procurando comida nos nossos lixos e dormindo nas ruas; mata quem fica desempregado e sem meios de subsistência; mata pessoas que decidem pôr termo à vida como aconteceu com o aumento do suicídio nos anos de intervenção da troika; mata pessoas colando-lhes rótulos xenófobos, étnicos, sociais ou culturais – e, com isso, criando estigmas e situações de maior vulnerabilidade ainda…
Por isso, agora, faz ainda mais sentido o apelo dos padres do Porto: é preciso colocar na agenda política o problema da pobreza e da fome, através de estratégias que englobem a possibilidade de expor problemas, de remediar a fome no imediato e de construir, depois, o mínimo de futuro: quem sabe um curso, acompanhamento psicológico, um emprego…
Na encíclica cujo título afirma que somos “todos irmãos”, o Papa Francisco remete precisamente para a intervenção política a possibilidade de resolver vários dos problemas que nos atormentam – e a fome é um dos mais graves. E cabe perguntar: resolver os graves problemas das mulheres, dos homens e das crianças que mais fragilizados se encontram será por todos entendida como a primeira prioridade da ação política? E como atenção prioritária de cada um no seu universo próprio?
Os tempos extraordinários que vivemos clamam pela clareza no esclarecimento de que primeiro vem o que é prioritário. Depois…
O Natal e a celebração judia de Hanuká – há dias assinalada – ou festas de outras tradições religiosas na mesma perspectiva, evocam esse mistério fundamental da possibilidade do (re)nascimento na nossa condição humana. Para os crentes, ela é uma das dimensões em que a fé se concretiza. Para quem não crê, ela pode chamar-se apenas esperança – que, curiosamente, é também uma “virtude” no cristianismo e uma dimensão fundamental nas grandes tradições religiosas. Esta época natalícia convida-nos a dizer que é preciso acreditar – e agir em consequência – que somos capazes de mudar, em sociedade, a situação de tantas pessoas e de lhes dar a possibilidade de (re)nascer. Assim saibamos pressionar o poder político para que a dignidade de todas as pessoas seja mesmo a primeira preocupação da intervenção pública. Assim saibamos conduzir as nossas vidas guiados por esta mesma estrela.
É nessa esperança que todos nos encontramos.
Votos de Boas Festas!
P.S. – Este ano que agora se aproxima do fim levou-nos muitas pessoas queridas, atormentou-nos e, por períodos, privou-nos da vida social a que nos habituáramos. Mas terá certamente deixado também boas lembranças e trazido muita abnegação, solidariedade e criatividade.
No que respeita ao 7MARGENS, devemos agradecer a generosidade de tantas pessoas que connosco colaboram diretamente e de outras tantas que nos leem, generosidade que permitiu ir alimentando a existência deste projeto. Nos próximos dias iremos, provavelmente, reduzir o caudal informativo, mas nos primeiros dias de janeiro cá estaremos de novo para continuar a crescer.
Às/aos nossas/os leitoras/es e colaboradoras/es, votos de um bom ano 2021!










