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Imagem do filme Saudade do Futuro, da brasileira Anna Azevedo, filmado nas Caxinas

Curtas de Vila do Conde

Cinema do passado e com futuro

| 20/07/2022

Imagem do filme Saudado do Futuro, de Anna Azevedo

Imagem do filme Saudade do Futuro, da brasileira Anna Azevedo, filmado nas Caxinas: o festival quer “continuar a elevar a fasquia da qualidade”.

 

Num festival com mais Saudade do Futuro e menos virado ao passado – pese embora o cinema datado seja fundamental para o conhecimento e identidade de um país –, o Curtas resolveu, e bem, mostrar algumas películas da “arqueologia do cinema” produzidas no início do séc. XX e cujas cópias em diferentes formatos analógicos foram depositadas na Cinemateca Portuguesa/Museu do Cinema. Porém, desde há algum tempo a esta parte e graças à recuperação destas imagens feitas através do projecto FILMar foi possível proceder à sua digitalização e posterior exibição por diferentes sítios.

Assim, foi possível admirar pequenos registos como Um Dia Na Póvoa de Varzim (1952) de Gentil Marques (um filme propaganda do Estado Novo) e outros do “mudo” mais virados para o acontecimento das comunidades, seja Romaria do Senhor da Pedra (1912); ou O Naufrágio do Veronese (1913); Aspectos da Leça da Palmeira, Matosinhos e Leixões (1927); E do Mar Nasceu (1977) de Ricardo Costa, rodado nas Caxinas pela Cooperativa de Cinema Ano Zero, sobre a comunidade piscatória durante o Processo Revolucionário Em Curso (1974-75).

Ainda na preciosa secção “Cinema Revisitado” surgiu um lote de curtas a todos os títulos notável de Resnais: Van Gogh (1948) Guernica (1951) e Toda a Memória do Mundo (1956) além do soberbo Noite e Nevoeiro; sem esquecer a retrospectiva de François Reichenbach (1921-1993) nome menos conhecido da nouvelle vague, hoje completamente esquecido, com obra impressionante: mais de 100 filmes produzidos em diferentes géneros e formatos, videoclips, entrevistas, uma das quais Portrait: Orson Welles, em 1968, feita com Frédéric Rossif, ou A Sexta Face do Pentágono (1967) em parceria com Chris Marker.

Quase a terminar, ainda tempo para uma obra única, Os Marginais/Obra Completa (2021), de Coppola, com restauro em 4K e numa outra secção (Stereo) outra fita épica e a todos os títulos notável, A Última Valsa (1978), de Scorsese, sobre o último concerto dos The Band, com a oportunidade de ouvir algumas lendas do rock: Bob Dylan, Van Morrison, Neil Young, Eric Clapton, Joni Mitchell, Neil Diamond. Nesta onda de revivalismo valeu, igualmente, Songs of Drella, com Lou Reed e John Cale. Para quem fez leituras rápidas, acrescento o seguinte: só tenho saudades do futuro…

Neste diário sobre o Curtas tempo, ainda, para elogiar a secção “Take One”, primeiro plano destinado à apresentação das experiências feitas pelos jovens cineastas, muitos deles com licenciatura e mestrado na Escola Superior de Media Artes e Design (ESMAD) de Vila do Conde. Entre os muitos trabalhos apresentados, retenho Mulher da Minha Gente, de Nicole Noia, já visto com sucesso no IndieLisboa e onde a autora procura contar a história de duas mulheres (uma das quais sua avó) a viverem no Vale do Ave, espécie de roteiro e vivências do trabalho duro nas fábricas têxteis da região, abusos, despedimentos, exploração, mais ainda em tempos de Ditadura. Uma nota mais a surpresa das respostas de Lucas Tavares à entrevista de Ana Santos, onde o cineasta revela a sua paixão pelo cinema e, em especial, o gosto de filmar o que mais gosta, ou seja, “cinema de paisagem” .

Ao cair do pano, algumas linhas mais para Saudade do Futuro, da brasileira Anna Azevedo, rodado na vila piscatória de Caxinas e cujo script percorre três continentes da diáspora ligados pelo mar, cultura e saudade – ou seja, Portugal, Brasil, Cabo Verde; e para o filme Obrigação, de João Canijo, feito com estudantes e realizadores das escolas de cinema e que mais tarde, deu origem à longa-metragem É o Amor (2013) também rodado em Caxinas e desenvolvido com o Curtas de Vila do Conde.

Como já foi referido, o próximo Festival irá acontecer entre os 8 e 16 de Julho de 2023. A festa está garantida.

 

Curtas, 30 anos: “Um feito histórico”

“Só o facto de o Curtas existir há 30 anos já é um feito histórico. Não podemos esquecer que muitos dos festivais que se fazem por esse mundo fora já ficaram pelo caminho. Não podemos baixar a guarda, ou seja, temos de continuar a elevar a fasquia da qualidade e procurar ser exigentes na selecção dos filmes a exibir”, diz ao 7MARGENS Miguel Dias, um dos rostos do Curtas, minutos depois após a cerimónia de entrega dos diferentes prémios a concurso. Sem tempo a perder, avisa: “Só tenho cinco minutos.” A conversa é necessariamente breve, mas o balanço desta maratona cinéfila é longo: 267 filmes de 42 países, 124 sessões em 30 locais, seis concertos, workshops, performances…

“O Festival tem todas as condições para continuar por mais 30 anos. Já não estarei por aqui, tenho mais coisas para fazer, mas ficará a semente.” Quanto à ausência de meios financeiros para subir a fasquia do Curtas, Miguel Dias desvaloriza a questão: “O festival está em linha com as dificuldades do país, uma vez que, a cultura continua a ser sub-financiada. Temos consciência do nosso trabalho e fazemos um dos festivais mais importantes do país. Estamos ao nível dos nossos congéneres no estrangeiro. Mas o nosso país não tem recursos e daí, as crónicas dificuldades”, reconheceu.

Quando questiono sobre o que podia ter acontecido e não aconteceu por falta de dinheiro, a resposta é concisa: “A organização gostava de convidar certas pessoas, realizadores, autores, mas não podemos. A indústria cinematográfica tem limitações, mas a qualidade é a matriz principal”, concluiu. O Curtas celebrou 30 anos e está ao nível do que melhor se faz na Europa, nomeadamente, em Clermont-Ferrand, cidade francesa onde, desde 1979, acontece o Festival Internacional da Curta-Metragem.

Parabéns ao Curtas.

 

Manuel Vitorino é jornalista

 

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