Era quase meia-noite. Estava prestes a desligar a televisão e o computador. Tinha atingido (minto: tinha ultrapassado) o limite de processamento de más notícias… “Más” é eufemismo. Entre a dor, a compaixão, a revolta, a incompreensão e o sentimento de impotência que me invadiam, fiz ainda uma última ronda pelos jornais – defeito de profissão – e eis que um raio de luz irrompeu na noite escura. Uma repórter do La Croix tinha recolhido o testemunho de um jovem israelita judeu que vive perto da fronteira com Gaza.
Dvir, de 28 anos, que tem visto rockets a cair ao seu redor, um dos quais “muito perto” da casa onde vive, dizia assim: “A coisa mais importante que gostaria de assinalar é que vejo à minha volta muita solidariedade inter-religiosa. Beduínos, muçulmanos, membros da comunidade judaica e de todos os tipos de religião no nosso bairro fazem aquilo que podem para entreajudar-se.”
Esbugalhei os olhos, julgo que até sorri. Tinha de ler até ao fim. Já passava da meia-noite, mas assim como assim, era impossível adormecer depois do cenário apocalíptico a que tinha estado a assistir durante as horas anteriores.

Uma imagem da cobertura televisiva da guerra em Israel, a partir da transmissão da CNN internacional. O testemunho escrito no jornal La Croix contrastava com a violência dos ataques.
Dvir continuava: “Tenho escutado pessoalmente muitas histórias incríveis de judeus e muçulmanos que salvaram a vida uns dos outros nos últimos dias e espero ouvir cada vez mais histórias como estas. É claro que vemos muito o contrário: divisão entre as pessoas, o que é uma tragédia. Mas com os meus próprios olhos vi uma solidariedade impressionante entre as religiões, e espero que isso nos permita superar a situação e pôr fim ao conflito.”
Pensei que não, mas estava a ler bem. Depois do testemunho de Dvir, o mundo voltava a fazer algum sentido e parecia um pouco menos assustador.
Não compreendo – não posso compreender – o que se passa no Médio Oriente. Não ouso tomar partidos, não tenho a solução para o conflito. Mas ouso achar que compreendi as palavras deste jovem israelita e que vislumbrei nelas um caminho para a paz. Um caminho a ser traçado pelos jovens e pelo diálogo inter-religioso.
Apesar de o conflito israelo-palestiniano se arrastar há décadas, a maioria dos jovens que ali vivem, tal como Dvir, só pode ser educada para a paz e aprender que os conflitos se resolvem através da negociação e deliberação.
Mais: jovens como Dvir têm a capacidade de ver o “outro” como todos deveríamos vê-lo – não como um inimigo, mas como um vizinho, com o qual haverá sempre algo em comum, por maiores que sejam as diferenças. Sabem que tanto eles como os “outros” têm direito a existir com dignidade. E sabem que as vítimas do lado de “lá” têm de ser também as vítimas do lado de “cá”. E vice-versa.
Sabem que, acima de tudo o resto, só pode estar o valor da vida humana.
Esse é, também, o princípio que sustenta as três principais religiões monoteístas – islão, judaísmo e cristianismo – para cujos crentes aqueles territórios têm sido fonte de divisões e confrontos. (Não esqueçamos que também vivem cristãos em Israel e na Palestina, embora sejam cada vez menos e muitos deles a sentir-se cada vez mais marginalizados).
Mas a verdade é que, neste complexo conflito que é geopolítico, económico e cultural, as religiões têm tido um papel ambíguo e muitas vezes catalisador de confrontos letais, por continuarem a existir fiéis que encaram a questão do território de forma excludente. Ou seja, como uma herança eterna de Deus, impossível de partilhar; e que quando posta em causa pode, na sua perspetiva, legitimar massacres como os destes dias.
Podem as religiões assumir agora um papel mais relevante como catalisadoras da paz? Podem e devem. Volto às palavras de Dvir. O jovem, que estuda Filosofia Judaica em Jerusalém, conta que teve a oportunidade de participar, no passado mês de setembro, nos Encontros do Mediterrâneo, em Marselha (França), uma iniciativa inter-religiosa onde estiveram presentes outros jovens do Norte de África, dos Balcãs, da Europa Latina, do Mar Negro e do Médio Oriente, além de associações humanitárias, e também vários líderes religiosos, entre eles o Papa.
Francisco sublinhou a capacidade destes jovens de “abrir portas inesperadas de diálogo”. “Continuai em frente! Sede mar de bem, para fazer frente às pobrezas de hoje com uma sinergia solidária; sede porto acolhedor, para abraçar quem procura um futuro melhor; sede farol de paz, para atravessar, através da cultura do encontro, os tenebrosos abismos da violência e da guerra”, incentivou então.

No meio da tragédia, tem havido gestos de solidariedade na Faixa de Gaza, que não olham a religiões ou fações políticas. Foto © PMA/Ali Jadall, via ONU News.
Passaram três semanas desde que Dvir ouviu este discurso. E agora conta: “Tenho muitos amigos dos Encontros do Mediterrâneo que me enviam mensagens para saber novidades, para saber se eu e a minha família estamos bem. Ajuda-me saber que as pessoas pensam em nós e rezam por nós e por uma paz duradoura na Terra Santa. Acho que é disso que precisamos aqui: que rezemos pela pacificação da situação, para que a violência cesse, para que todas as identidades sejam respeitadas, para que todos tenham direitos iguais. Espero que isso aconteça muito em breve”.
Sou cristã e concordo que é preciso rezar. A oração, como diz o patriarca latino de Jerusalém, Pierbattista Pizzaballa , numa entrevista esta quinta-feira, 12 de outubro, “não resolve nenhum problema concreto, mas ajuda a dar perspetiva (…). Sem oração, permaneceremos presos na nossa dor, no nosso sofrimento e no nosso ódio.”
Mas rezar, sem mais, não chega: é preciso criar espaços de encontro como o que aconteceu em Marselha – em dimensões mais pequenas – em muitas partes do globo (até, e sobretudo, em Israel e na Palestina). Encontros que geram amizades aparentemente improváveis, que levam à descoberta de que aquilo que nos une é maior do que o que nos separa, que nos fazem querer salvar as vidas uns dos outros, e não o contrário. Recordo que falo de um caminho, não de uma solução concreta e imediata para o conflito.
“Uma das características da geração jovem israelita é que tem a mente mais aberta relativamente às ideias de uma solução de um ou dois Estados. Todas as posições sobre a situação dependem de como avaliamos os atores e as suas intenções”, conclui Dvir no seu testemunho, sendo já prova dessa maior tolerância e abertura. E garantindo-nos o mais importante: que preocupar-se com os vizinhos, partilhar comida com quem tem fome, visitar os doentes, conversar com os enlutados – independentemente das suas filiações políticas ou religiosas – são gestos de compaixão e reconciliação tão cristãos, tão islâmicos, tão judaicos que estão já a acontecer, ali onde vive, bem perto da Faixa de Gaza.
Oxalá estes gestos se multipliquem e permitam estabelecer cada vez mais laços, até que todos consigam ver que, mesmo os ditos “inimigos” são “apenas” seres humanos, filhos do mesmo Deus, dignos do mesmo amor.
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