
Carlo Maria Viganò, o arcebispo excomungado, antigo núncio
Não foi sem um profundo pesar que recebemos a notícia da excomunhão do arcebispo Carlo Maria Viganò, baseada na sua recusa em reconhecer a legitimidade do Papa Francisco, a quem nega a autoridade e diz ser o anticristo.
Numa extensa declaração sobre as acusações de cisma intitulada “J’Accuse“, Viganò apresenta os seus argumentos, denotando efetivamente um longo, sofrido e profundo afastamento com a Igreja pós-conciliar.
Viganò contesta o II Concílio do Vaticano vendo nele a capitulação da Igreja Católica perante a Maçonaria, e apontando o conceito de fraternidade universal e o foco no diálogo como dois dos seus sinais. Considera também o Concílio como uma rendição perante o protestantismo, refletido na ideia da sinodalidade e na suavização da autoridade petrina.
O arcebispo é também claro quanto à recusa em aceitar a autoridade do Papa Francisco, a quem nega legitimidade, invocando nulidade do seu próprio processo de eleição por força das “heresias” de Francisco, que afirma poderem ser comprováveis ainda antes do magistério petrino.
Considerando-se, assim, o arauto da verdadeira fé da Igreja Católica, e citando Marcel Lefebvre, o arcebispo Viganò afirma: “Sou eu que devo julgar-vos”.
Os argumentos de Viganò centram-se essencialmente nas posições magisteriais, reiterando a sua imutabilidade e a permanência. Assim, a seu ver as condenações papais do século XIX deveriam manter-se no século XXI, como por exemplo, a condenação ao modernismo, movimento “demoníaco” que Viganò insiste ter tomado conta da Igreja para a destruir a partir de dentro.
Na sua extensa exposição, Viganò denota ainda as feridas da incompreensão pelos seus pares e superiores, a quem acusa de ostracização e afastamento, o que também terá contribuído para o exacerbamento das suas posições contra o pontificado de Francisco.
Mas o que notamos ao longo dos parágrafos de “J’Accuse” é a ausência da figura de Deus feito Homem, a ausência do Evangelho, a ausência da consideração da realidade de um mundo em mudança e a precisar da força da graça, contida apenas no amor, não nosso, mas do próprio Deus, cujo rosto é Cristo e do qual cada cristão é um membro vivo.
E o que igualmente transparece são dois pesos e duas medidas do arcebispo, já que a liberdade de expressão e de imprensa foram condenadas em várias encíclicas de Leão XIII (se pusessem em causa e unidade, a autoridade e o bem comum), e Viganò usa-as com total liberalidade, a despeito do seu próprio argumento.
Ainda bem que assim acontece, para percebermos o quão etérea, formal e desligada da vida pode ser a visão religiosa, atirando-nos para fora, para longe e para o fundo, negando-nos ao diálogo e fechando-nos na própria (e aparentemente perfeita) ideia de Deus e da Igreja.
Perfeição, aqui, só a do amor. O resto, e felizmente, só no Céu, só no Céu.
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.










