
A representação da Última Ceia, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, que incluiu drag queens. Imagem capturada da transmissão televisiva.
A Conferência Episcopal Francesa manifestou o seu desagrado por a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos ter incluído aquilo que designou como “cenas de escárnio e zombaria do cristianismo”: a suposta representação da Última Ceia com Jesus e os discípulos, representados por drag queens. Confesso que não consigo entender o escândalo. Não somos todos humanos? Não somos todos filhos de Deus? Terá o nosso Criador cometido erros nalgumas das obras criadas?
Certamente Cristo não hesitaria em sentar-se hoje a essa mesa. Os Evangelhos, escritos para memória futura de acontecimentos passados, com fins doutrinais, dão-nos conta do empenho que Jesus colocava na convivialidade, na partilha da intimidade à volta da mesa, com muitos que supostamente não se deveriam aproximar dele, seguindo o mesmo tipo de olhar destes senhores bispos. O problema é que foi esse mesmo olhar que decidiu a sua morte.
A criatividade do Espírito Santo é essencial a compreendermos o nosso tempo, pois é ela que nos permite discernir sobre como atuar na nossa vida em comunidade. Assim nos tem ensinado o Papa Francisco, repetidamente, advertindo-nos, num gracejo, sobre os riscos de enjaularmos o Espírito Santo.
Ainda recentemente, numa audiência concedida a humoristas de todo o mundo, o Papa Francisco dizia: “Também se pode rir de Deus? Claro que sim, e não se trata de blasfémia, pode-se rir, tal como se joga e se brinca com as pessoas que amamos. A tradição sapiencial e literária judaica é mestra nisto! É possível fazê-lo, mas sem ofender os sentimentos religiosos dos crentes, sobretudo dos pobres.”
Nesta polémica que nos entrou pela casa dentro neste sábado não são os pobres os ofendidos.
Maria do Sameiro Pedro é colaboradora do 7MARGENS










