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Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, durante visita a Portugal, 17 fevereiro 2024. Foto Igreja Lusitana

Igreja Anglicana

Petição exige renúncia do arcebispo de Cantuária por encobrimento de abusos sexuais

| 11/11/2024

Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, durante visita a Portugal, 17 fevereiro 2024. Foto Igreja Lusitana

O arcebispo de Cantuária, Justin Welby, durante visita a Portugal, a 17 de fevereiro 2024. Foto © Igreja Lusitana

Mais de 1.500 membros do Sínodo Geral, o órgão de cúpula da Igreja de Inglaterra (anglicana), assinaram uma petição exigindo a renúncia de Justin Welby, arcebispo de Cantuária e Primaz de Inglaterra, por não ter reagido prontamente quando teve conhecimento dos abusos sexuais perpetrados pelo advogado John Smyth. Dezenas de meninos que frequentavam acampamentos de férias cristãos foram abusados de forma particularmente selvática por Smith no final dos anos setenta do século passado.

John Smyth morreu em 2018, tendo deixado o Reino Unido a meio da década de 1980, mas continuou a sua ação predadora no Zimbabué e na África do Sul, estando identificadas mais de 130 crianças e jovens vítimas da sua violência sexual.

O arcebispo de Cantuária reconheceu na semana passada que, após ter sido tornado público a 8 de novembro, um relatório contundente sobre o encobrimento dos abusos cometidos por Smyth no Reino Unido, considerou renunciar devido à sua “vergonhosa” decisão de não agir quando teve conhecimento das denúncias. Mas acrescentou posteriormente que, tendo consultado vários dos seus pares, foi aconselhado a não renunciar.

The Guardian de 11 de novembro, cita uma declaração de Giles Fraser, um vigário de Londres, que afirmou ao programa BBC Radio 4’s Today que Welby “perdeu a confiança do clero” devido ao “seu papel na continuação dos abusos” e que este é o momento para denunciar “a forma como muitos dos nossos líderes se apressam para se defender uns aos outros”. A petição exigindo a renúncia de Welby já tinha recolhido mais de 1 500 assinaturas na manhã de dia 11 de novembro e deve ser subscrita por muitos outros clérigos críticos frequentes da liderança do arcebispo à frente da Igreja de Inglaterra e da Comunhão Anglicana, devido às propostas de Welby quanto ao acolhimento de pessoas LGBTQ e à bênção de casais do mesmo sexo [ver 7MARGENS].

De qualquer forma, o atual arcebispo de Cantuária atingirá o limite dos 70 anos em janeiro de 2026 e, de acordo com os preceitos da Igreja de Inglaterra, deverá então retirar-se. Como os processos de nomeação são particularmente lentos e envolvem longas consultas, é hábito que os bispos anunciem com bastante antecedência a sua renúncia. A escolha do sucessor de Welby será muito significativa pois indicará qual o resultado das tensões que dividem profundamente a Igreja de Inglaterra e a Denominação Anglicana em todo o mundo sobre os temas da sexualidade geradores de posições opostas e contraditórias no seio das suas igrejas.

 

Welby soube das denúncias

John Smith. Foto Justice Alliance of South Africa

John Smith “foi para o estrangeiro no início da década de 1980, após a descoberta dos seus abusos no Reino Unido e com pleno conhecimento dos responsáveis da Igreja”, denuncia o relatório. Foto © Justice Alliance of South Africa

O relatório de Keith Makin divulgado no dia 8 de novembro descreveu o rol de abusos sexuais perpetrados por John Smith como “prolífico, brutal e horrível”. A Igreja de Inglaterra “tinha conhecimento, ao mais alto nível, dos abusos”, mas a sua resposta foi “totalmente ineficaz e constitui um evidente encobrimento”.

O arcebispo de Cantuária e outras figuras importantes da Igreja de Inglaterra tiveram conhecimento de denúncias de que Smyth havia abusado de dezenas de meninos que frequentavam acampamentos de férias cristãos evangélicos organizados pelo Iwerne Trust, espancando-os violentamente. Muitos dos meninos eram alunos da Winchester College, uma das melhores escolas públicas do Reino Unido. Welby foi voluntário naqueles acampamentos de férias no final da década de 1970, mas disse ao relator Keith Makin que não tinha conhecimento das acusações na época.

“Welby pode não ter conhecimento da extrema gravidade do abuso, mas é mais do que provável que ele tivesse, pelo menos, um certo nível de conhecimento de que John Smyth era motivo de alguma preocupação”, adianta o relatório.

“Não tinha ideia de que havia algo tão horrível quanto isso a acontecer… Eu não tinha nenhuma suspeita”, afirmou Justin Welby ao Channel 4 News, em 2017, quando as notícias sobre o caso Smith voltaram de novo a ser referidas nos média.

No final da semana passada, durante a apresentação do relatório, os responsáveis pela política de proteção e segurança no interior da Igreja de Inglaterra, Joanne Grenfell, bispa de Stepney, e o diretor, Alexander Kubeyinje, declararam que o documento “também evidencia os abusos cometidos por Smyth no Zimbabué, onde um rapaz se suicidou e muitos outros foram vítimas de abusos” e mostra de modo evidente que “Smyth foi para o estrangeiro no início da década de 1980, após a descoberta dos seus abusos no Reino Unido e com pleno conhecimento dos responsáveis da Igreja” e por isso o autor do relatório “insta a Igreja a considerar a encomenda de um relatório sobre as ações de Smyth, tanto no Zimbabué como na África do Sul”.

 

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