Ana Sofia Brito, lâmpada da esperança // Braga 8 xii 2024

[Lâmpada da esperança. Fotografia © Rui Machado]
1. Quem será esta menina? Vestida de fogo, em delicadeza, ela avança sobre o pavimento amaciado por tapetes de granito. Neles incrustados, os diamantes de leite rebrilham à rutilância das flamas. Assinalam um novo céu. Aquém dos outros. Sim, aos pés. No santo rés-do-chão, agridoce na mistura de ambiguidades humano-divinas. Que amplitude! E, em cultivado advento, os olhos de todos afinam-se nas cintilações do espanto. Voarão eles nas asas dela? E fora das asas? Quem espera voa alto. Voa até na companhia das aves e mariposas noturnas. Porque a chama interna acende-se no pavio da dança. Livres, exultam os que ascendem. São pura vigilância! Pureza de crisol. Sobre muros e montanhas, fazem da noite e da vertigem seu escabelo.
Recuemos, porém, um passo; uma poldra no tempo. Desassosseguem-nos os mistérios que, no rumor de folhas calcorreadas, surgem da floresta. Apagadas as lâmpadas e ao toque do sino interior, isto é, desde o fundo da capela Cheia de Graça, eis que ela irrompe. Decidida. Livre. Num presente histórico, quase-gerúndio infinito, ela acende o primeiro instrumento de fogo. É a estação liminar: na vizinhança do ambão. Que outeiro eflorescente em silêncio! E, assinalada na lamparina de vidro de sopro, a Palavra beija os ouvidos. Permanentemente aberta, a Palavra aí está, poisada na ternura dos olhos atentos. Tão tenros eles são! Oh!, e por cicatrizarem ainda na compreensão daquelas páginas donde soou a Voz divina. Até a Senhora da Humildade, a quem Alfredo Teixeira oferece música ― e, por ela, a nós―, apanha os cabelos para melhor ouvir:
O órgão faz-se lonjura a chamar. Faz-se prelúdio. E, avançando, de camada em camada, cria a devesa sonora ― melhor, o ritmo ― para a dança do fogo intermédio. A alma do encontro estremece nos seus habitantes, amigos da beleza doxológica, ao abrir-se o louvor temporal da solenidade. Que espessa calda de sobressaltos! É, também ela, um anúncio. Embaraça-nos, como as mãos que tangem as voltas do fogo. Entretanto, a dançarina sobe, lenta e calmamente, a vereda endireitada da ara do céu. Toda ela é salmo de subida. E o rasto rumoroso do fogo junta-se à fajã do órgão desde a cabeceira. O altar de granito negro absoluto espera-a. Oh! e sem desejar fundir as suas flamas nas águas em trânsito que marulham a seus pés. Transcorrido o vazio espaçoso da ilha central, ela, a menina, sopra as últimas flamas. E, nesse apagar, a pergunta volta em refluxo.

[Toda ela é salmo de subida. Fotografia © Rui Machado]
2. Quem será esta menina? Regressa aos compassos da memória e saberás. Ana, amiga da sabedoria, nasceu em Albufeira, no ano de 1983. O seu futuro era já ditado junto da avó Lurdes. Quando fazia o caminho entre a igreja e o campo de futebol, dizia à avó: Avó, um dia, gostaria de ser como estes construtores da alegria, os artistas da rua. Nesta responsorialidade ao desejo, desde os 16 anos, passa a trabalhar em teatro, na companhia Os Guizos. A sua precoce iniciação faz-se paulatinamente através dos ritos-números de circo, como artista de rua. E, no ano seguinte, frequenta o Chapitô, em Lisboa. Prossegue depois a marcha para a Universidade de Coimbra, onde estuda Serviço Social. Com esta primeira nota biográfica, passemos à segunda estação, Além-do-altar, onde os tapetes planam até à linha branca do Corpo de Luz.
3. Atingida a cumeeira, a dançarina acende outro instrumento de fogo. Ela sentia-se protegida dos ventos, entre os olhos da Imaculada Conceição ― na sua casa pentagonal, à sombra das folhas de um liquidâmbar do Jardim da Casa dos Biscainhos ― e os olhos da Senhora da Ternura, ícone em cinco partes, escrito por Lisa Sigfridsson. Passavam dois dias que ali tínhamos rezado com «A Theotokos na janela dos olhares», numa oficina de ícones conduzida por Alzira Fernandes.
Aí, nessa alma alta, Sofia entra em deslumbramento. Usa o alfabeto das flamas, cujo rumor se junta ao incêndio coral dos jovens dirigidos por José Carlos Miranda. Em tal encontro de fogos, ao som do Magnificat, crepitam os tímpanos de todos. Ardem os filtros. Até os olhos da Senhora de Vladimir nos fazem sentir, em ponto de fuga, banhados de ternura. E, recorrendo ao texto sobre este ícone, escrito por Henri Nouwen em Behold the beauty of the Lord, sentimo-nos beijados com o seu olhar: «Contrastando grandemente com a maioria das virgens do renascimento, cujo olhar familiar estabelece uma relação interpessoal connosco, a Virgem de Vladimir não entra na realidade que nos é familiar; ela convida-nos a entrar com ela na vida eterna de Deus. Os seus olhos olham simultaneamente para dentro e para fora. Olham interiormente para o coração de Deus e exteriormente para o coração do mundo, revelando-nos, assim, a unidade imperscrutável entre o Criador e a criação. Os seus olhos veem o eterno no temporal, o duradouro no efémero, o divino no humano. Os seus olhos contemplam os espaços infinitos do coração onde a alegria e a tristeza já não são emoções contrastantes, mas são transmitidas em unidade espiritual».

[Alfabeto das flamas. Fotografia © Rui Machado]
Aí, e sempre aí, nessa alma alta do lugar, Sofia faz-se memória ritual da mulher vestida de sol (cf. Ap 12,1-18). Enquanto a lua e as estrelas brilhavam aos pés e na cabeça da Imaculada Virgem, em Sofia vislumbravam-se as asas que Deus dera à mulher em fuga pelo deserto. Ai! Aí e aqui escuta-se o grito da grávida. São os tormentos para dar à luz. Sofia, na arte das flamas, desenhava nos ares essa veste de Maria, através do seu voo em asas de fogo. Onde aprendera ela esta arte, que dirá o mistério da Conceição Imaculada de Maria melhor do que tantas expressões que não passam de simulacros? Sintetizando, podemos dizer que ela foi aprendiz desta arte na companhia CTC, em Albufeira, e nas edições do festival T. Aprendeu, ainda, em 2014, quando estudou teatro físico na Moveo, em Barcelona, onde compôs O Grito, seu primeiro trabalho de palco. Mais, durante o ano de 2015, ela leva o seu espetáculo Internal Flame pelos festivais universitários da Índia. Após esta digressão, regressa a Portugal e começa a estudar música e escrita criativa, enquanto trabalhava como atriz, com a peça A Casa, pela Ideias do Levante.

[Memória ritual da mulher vestida de sol. Fotografia © Rui Machado]
4. Suspendamos, mais uma vez, o raconto da sua vida. Sim, porque é importante salientar o espetáculo que deu no Pátio do Espaço Vita, no final da festa das famílias. Ainda antes de se cantar os parabéns ao Seminário de Nossa Senhora da Conceição, na comemoração dos seus 100 anos no atual edifício, Sofia fez-nos mergulhar no reino dos «sonhos lúcidos». A sua mão tatuada ― como um memento ― libertava-nos dos pesadelos do monstro perseguidor (cf. Ap 12,1-18). Nos seus reflexos, o orvalho sobre as tábuas de pedra e os vidros do teto criavam a caixa mágica. Que ritmo ditava a sua performance? Nesta estação, não se valeu do Magnificat de Maria, mas ditaram-lhe o ritmo da dança ― com três aparelhos de fogo ― os hinos bizantinos, cantados por um coro grego-bizantino:
5. Quem será esta menina? Tal menina que assim dançava, vestida de flamas e rumores do fogo, é aquela que, em 2018, criou Aurora, o seu segundo espetáculo de palco a solo. Peça que, recordemos, foi apresentada em cerca de 370 espetáculos, ao longo de todo o país, durante dois anos; biénio durante o qual exibiu também Internal Flameem Carvoeiro. Mais, durante o ano de 2018, integrou o elenco de A Barca, pela Companhia da Esquina – Teatro da Luz, em Lisboa. Participou ainda noutras peças, entre elas: As Barbas de Sua Senhoria, O Jardim do Dinis, O Gato das Botas, O Marinheiro, A Bruxinha de Mini-saia, A Casa de Bernarda Alba, A Casa, Bruised.

[Vestida de flamas e rumores do fogo Fotografia © Rui Machado]
6. Amavelmente hospedada no Seminário Conciliar de Braga, Sofia agradeceu o acolhimento com uma das suas histórias de Natal, dedicada aos jovens seminaristas. Por ser breve e pertinente, sobretudo nesta subida de Advento, aqui a transcrevemos:
«A menina dança em dezembro para aquecer a alma.
Dezembro é a dança melodiosa que ilumina a árdua coreografia do resto do tempo.
O seu peito trémulo e arquejante espreita ousado para dentro das casas onde lareiras ardem a deitar cheiro, a menina imagina que é os outros meninos no aconchego dos agasalhos, cheios de pai e mãe, cheios de jantar e luz.
– Dezembro é bonito – diz baixinho para si própria, na habitual solidão –, repleto de bonecos gordos com barbas brancas e fato vermelho. Não se desligam as luzes das casas à noite. Há comidas e chocolates em felizes abundâncias, até parece que a saliva me sabe à visão dos olhos.
A menina dança sempre entre as janelas da cidade fantasiando com as distâncias que almeja, um dia, encurtar; apesar de se dar conta das belezas de dezembro, nunca lhes pertenceu. Dança desesperançosa em gestos perpetuados pelas indomáveis ondas da maré de inverno. Sobe e desce com subtil leveza, dignificando a permanência do ingénuo sorriso esboçado no rosto.
A menina quer crescer depressa para um dia poder estar do lado de dentro das janelas, cheia de filhos e cheiros a lenha, bonecos gordos e canções de embalar. Não guarda rancores, sabe que o mundo não a deixou de fora por mal, talvez só se tenha esquecido dela. Reza quando ouve os sinos a chamar para a missa do galo e pensa: “Um dia hei de ter mãos dadas a levarem-me à missa do galo e um lado de dentro de janela para voltar; uma janela tão grande que todos os meninos de peito arquejado nela caberão.”
Ajusta o papelão, aninha os membros para enganar o frio, engole a saliva a imaginar sobras de chocolate, dá a mão esquerda à direita a fingir doce companhia, sussurra “Feliz Natal” e adormece».
No final, todos lhe agradeceram a história com uma sentida e demorada salva de palmas. Houve também quem se abeirasse dela e lhe agradecesse pessoalmente. Bem hajas, amável Sofia!

[Árdua coreografia do resto do tempo. Fotografia © Rui Machado]
7. Quem será a menina que dança em dezembro para aquecer a alma? Será ela, a Sofia? Serás tu? Da Sofia podemos ainda acrescentar, numa sintética nota endográfica: Trabalha para as agências internacionais BASA e ImageIn. No ano de 2020, criou um projeto audiovisual de poesia falada Palavra Corrente; este projeto é praticado em regime de parceria com bibliotecas. Mais, produz um programa semanal na Rádio Solar. Neste mesmo ano, começou a escrever para o jornal digital 7MARGENS. Longe de vaidades, na humildade que a distingue, em março de 2021, foi uma das dez mulheres distinguidas pela Câmara Municipal de Albufeira como «Albufeira Mulher’21». Distinguida, porquê? Porque é uma mulher de coragem. E, claro, pelo sucesso do seu percurso performativo, quer no país quer no estrangeiro. Já em 2021, criou e apresentou Amor ou Sanidade?e Incompletude, no caso, dois espetáculos de palco. O segundo deles apresentou-o em parceria com Armando Correia e foi incluído no festival Spoken Word – Calceteiros de Letras. E, desde há quatro anos, frequenta o Clube de Escrita Criativa de Lagoa. No campo da produção escrita, é autora de vários livros publicados pela editora On Y Va. No livro Em breve, Meu Amor, inseriu várias crónicas publicadas no jornal 7MARGENS. Este gosto pela literatura despertou sobretudo pela influência do seu avô, com quem aprendeu a ler os clássicos, pois deles era amante. Aprofundou depois os conhecimentos literários através de um curso universitário lecionado no Brasil. Além disso, divulga poetas portugueses, nomeadamente Florbela Espanca, e participa em tertúlias de poesia, nas praias, em iniciativas de vários poetas e músicos.

[Amor ou Sanidade? Fotografia © Rui Machado]
Quem será a menina que dança em dezembro para aquecer a alma? Oxalá possas ser tu que lês esta crónica. É um dos meus sóbrios desejos de Natal. Para ti, amiga Sofia. Sim, para ti que és mãe e filha de pais humanamente maravilhosos. E para tua filha cujo pé já não treme nos exames de condução. E decididamente para ti, quem quer sejas.

[Quem será a menina que dança em dezembro para aquecer a alma? Fotografia © Rui Machado]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas dos Tempos – Da palavra turbante que remói.








