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Uma flor nasce entre as pedras. Foto Cody Doevendans
"É a Esperança que nos permite sonhar, lutar e acreditar que o melhor ainda está para vir." Foto © Cody Doevendans

[Dicionário particular]

“e” de esperança: o melhor ainda não chegou

| 02/04/2025

 

Quando era pequena explicaram-me que ter esperança era muito mais do que querer que o “meu” Sporting ganhasse os jogos ou esperar que os meus pais me oferecessem aquilo que eu tinha pedido. Disseram-me que isso era uma esperança infantil, própria das crianças como eu, pois a verdadeira esperança é a que brota do coração de forma adulta.

Percebendo, hoje, que pouco tinha percebido sobre o tema, fiquei, na altura, com a ideia de que a minha esperança iria crescer como os pés, cujo calçado deixava de servir de ano para ano, e sim, seria uma esperança a sério, de adulto, fosse lá isso o que fosse.

Num encontro de família, não recordo a ocasião, lembro-me de ter ficado escandalizada quando alguém dizia, entusiasmado, que tinha esperança que agora é que ia ser, ia sair-lhe o prémio da lotaria, e dizia-o ao mesmo tempo que tirava do bolso da camisa uma cautela, abanando-a e dando beijos no pequeno retângulo de papel. Ora, estando eu certa de que tinha toda a sabedoria em mim, soltei um “isso é muito infantil para adulto!”. Silêncio geral seguido de chamada de atenção para que não fosse inconveniente e intrometida nos assuntos dos adultos.

Lembro-me que corei e fiquei confusa: então, se um adulto tem uma esperança infantil é porque afinal não cresce como os pés e, assim sendo, como é que eu iria saber que a minha esperança já era adulta? E quando é que isso aconteceria, já que aquele adulto continuava infantil em esperança?

Os meus pés, em determinado momento, pararam de crescer, e ainda bem, o que não aconteceu com a Esperança que compreendo, hoje de forma adulta, ser um processo interior e continuo, uma mudança que acontece no coração tornando-o disponível para que, cultivando-a, dele brote a verdadeira Esperança. Mas, afinal, que Esperança é esta que impulsiona a agir e, simultaneamente, nos sustenta?

Se falarmos em Esperança cristã podemos dizer que é uma virtude, ou seja, um dom que vem de Deus. É fundamentada na fé em Cristo e na certeza de que, independentemente das dificuldades que enfrentarmos, Deus está sempre ao nosso lado, não numa perspetiva ingénua, de que tudo corre bem e dá certo, mas numa confiança profunda de que, mesmo nas situações mais desafiadoras, Deus tem um plano para cada um. A esperança cristã é um convite para olhar a vida com o olhar da fé, reconhecendo que as tribulações podem ser oportunidades de crescimento espiritual e fortalecimento da relação pessoal com o próprio Cristo.

Por outro lado, se falarmos em Esperança adulta podemos dizer que se desenvolve à medida que amadurecemos e vamos enfrentando a complexidade da vida. Alimentada por experiências e acontecimentos, a Esperança adulta é o ganhar consciência do mundo real, na certeza de que não nos podemos deixar abater. Não se trata de uma fuga para a frente ou um afastamento da realidade, mas a aceitação desta última com determinação e numa perspetiva de ação e construção.

Em tempos de incerteza, como os que vivemos atualmente, a Esperança é essencial, quer seja na perspetiva cristã, que nos (re)liga ao divino, quer na Esperança adulta, que nos torna resilientes e proativos. É a Esperança que nos permite sonhar, lutar e acreditar que o melhor ainda está para vir.

E tu, como andas de Esperança, parou de crescer lá atrás, como os teus pés, ou prepara-se para crescer até à eternidade?

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

 

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