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Caricatura ao estilo "Pepe the Frog" que o próprio Donald Trump publicou no Twitter, outubro 2015.

[Crónica da Europa]

Trump e la Nouvelle Droite: Como ideias dos anos 70 dominam em 2025

 

Agora que Trump está no Alasca, na Thule hiperbórea, é bom momento para indicar onde comprou o bilhete de viagem para a sua fantasia política que vive do ódio e da negação permanente da justiça mas com tendo o caos como os seus pés de barro.

O movimento identitário europeu emergiu nos anos 1970 como combinação ideológica de extrema-direita com roupagens novas. Inspirado pela Nouvelle Droite, em particular pelos escritos de Alain de Benoist, Guillaume Faye e Dominique Venner, o identitarismo foi uma resposta metapolítica de alguns intelectuais à hegemonia cultural da esquerda pós-68. Como quase tudo, chegou atrasado a Portugal, nos anos 1980 com a revista “Futuro Presente“. Rejeitando  as luzes da razão e tudo o que fosse proveniente da herança  judaico-cristã, os teóricos identitários clamavam pelo retorno de uma imaginária identidade etno-cultural europeia, oposta ao globalismo, ao multiculturalismo e à modernidade liberal.

Com raízes intelectuais em Nietzsche, Heidegger, Carl Schmitt e na Revolução Conservadora alemã (Moeller van den Bruck, Jünger), a Nova Direita propôs-se a travar uma guerra cultural prolongada — a chamada metapolítica — para transformar as mentalidades antes de conquistar instituições. Exatamente o que António Gramsci fizera nos anos 1930 com a Nova Esquerda. Era uma “revolta contra o mundo moderno”, contra uma fantasia do que entendiam ser a modernidade a substituir por um novo paradigma.

Nos idos dos anos 2000, os Identitários saíram da esfera intelectual para a ação direta. Inspiraram o Front National de Jean-Marie Le Pen, passaram a organizar manifestações anti-imigração, ocupações simbólicas, campanhas contra mesquitas e, sobretudo, contra o que chamam a “Grande Substituição” — a teoria conspiratória, popularizada por Renaud Camus, segundo a qual os europeus estão a ser deliberadamente substituídos por populações não-europeias, muçulmanas, com o beneplácito de elites globalistas. Para os Identitários, esta substituição não é apenas demográfica, mas também cultural e espiritual.

O identitarismo adquiriu aos poucos  uma dimensão transnacional, mesmo que os seus princípios rejeitem o internacionalismo. Da França à Alemanha, da Itália à Hungria, os grupos identitários articularam-se a pouco e pouco numa “Internacional dos Antiglobalistas”, partilhando símbolos (como o lambda espartano) e narrativas de decadência e renascimento. Viram na Rússia de Putin e na sua retórica antiocidental um aliado —  “Moscovo como a Terceira Roma” — que, junto com fantasias da Thule hiperbórea difundidas por Alexander Dugin, ajudam a construir uma geopolítica mítica da identidade.

Com o aumento da imigração e os atentados jihadistas na Europa da década de 2010, o identitarismo ganhou novo fôlego. Aproveitando as redes sociais, os novos ativistas tornaram-se usuários da comunicação digital, com estética provocadora e linguagem emocional. O ativismo desencadeou gestos teatrais, vídeos virais, slogans. É a política enquanto performance, onde cada gesto pretendia “acordar” os europeus do torpor multiculturalista.

E, nesse ponto, os EUA tornaram-se espelho e laboratório. A partir de 2015, o Alt Right (direita alternativa americana) tornou-se o canal de entrada do identitarismo na política mainstream americana, especialmente durante a campanha de Donald Trump em 2016. Esta nova direita americana apropriou-se de táticas online como memes, trolling e referências da cultura pop — como Pepe the Frog, a “Red Pill”, os “cuckservatives” e os “normies” — para dinamitar o discurso político tradicional. Além de uma doutrina, é um manual  de instruções de ativismo político; iconoclastas, ressentidos e radicalmente anti-situação.

Com as ideias vindas da Europa, os identitários americanos, como Bannon e outros, devolveram aos europeus um estilo  agressivo e viral. Feedback: os identitários europeus passaram a adotar o sarcasmo, o cinismo performativo e os mecanismos de gamificação política que a Alt Right inventou. Como diz Eduardo Zúquete, na sua tese de 2018, o identitarismo transformou-se em contra-contracultura, capaz de seduzir com promessas de sentido, pertença e conflito, criando a armadilha da identidade.

Por trás de toda esta atitude combativa está uma doutrina com ambições. Para Benoist e seus seguidores, a história seria cíclica — feita de quedas e renascimentos. Os Identitários prometem um novo ciclo, uma “nova aurora” após a noite escura. É a utopia do recomeço, da reconstrução de um mundo “puro”, comunitário, etnocêntrico. Tal como Moeller van den Bruck imaginou em 1923 o “Terceiro Reich”, os identitários atuais vislumbram o regresso de nações orgânicas e culturas homogéneas.

A utopia identitária é, na sua essência, antidemocrática, anticientífica e assenta na negação total dos Evangelhos a não ser para uso manipulador. É um “déjà-vu” cada vez mais perigoso — e para não sair de França já o vimos com os nobres emigrados contra a Revolução Francesa, com De Maistre e “As Noites de São Petersburgo”, o Anti Dreyfusismo, com a Action Française, com o petainismo, com o Rassemblement Nationale e agora com os seus herdeiros digitais.

Trump, ao reaparecer em 2025 com a sua retórica do Make America Great Again é um herdeiro involuntário e ignorante desta tradição. Transporta os avatares da nostalgia identitária, do ressentimento contra a ciência e da recusa de um mundo que escute os Evangelhos. Na sua figura fundem-se todas as fantasias da Nova Direita: o líder forte, o retorno à grandeza, o inimigo interno e a promessa de renascimento.

Tudo isto já vimos. Déjà vu. A diferença agora é que os fantasmas do passado estão armados com governos à escala continental, partidos poderosos, internacionais financiadas e financiadoras, redes sociais, algoritmos e, no caso de Trump e Putin , ogivas nucleares. Neste mundo perigoso de gigantes, temos de nos focar nos seus pés de barro.

 

Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.

 

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