A visita que recentemente fiz a uma exposição na Fundação Gulbenkian [Lisboa], onde se apresentavam obras de Adriana Varejão e Paula Rego, lembrou-me uma história passada há anos com um parente meu, médico de profissão. Este meu primo tinha uma especial paciência para com senhoras idosas que o apreciavam imenso pois, para além de as tratar, falava muito com elas, interessava-se pelos seus problemas, dava-lhes conselhos e mostrava-lhes sempre muita paciência e carinho. Uma delas, que o apreciava grandemente, sentia-se particularmente grata pela atenção que lhe era dispensada e, pretendendo provar a amizade pelo seu médico, oferecia-lhe muitas vezes pinturas e desenhos feitos por uma sua filha. O meu primo, bem educadamente, agradecia embora não ficasse encantado com o presente que trazia para casa e entregava à mulher a quem dizia: “Mais uma oferta que recebi, guarda-a onde achares melhor pois não me parece que seja de pendurar na sala.” A minha prima concordava com a opinião dele, achava as pinturas horríveis e imediatamente as arrumava na dispensa onde se iam acumulando as ofertas desta autora.
Passado algum tempo, ao ler a secção artística de uma revista, esse meu primo deparou com um artigo elogioso sobre Paula Rego que nele era considerada como uma das pintoras portuguesas de renome internacional. Apercebendo-se que os “monos” que tinham desprezado e guardado na dispensa eram preciosidades artisticamente consideradas e muito valiosas, imediatamente estas foram transportadas para a sala onde ainda hoje ocupam um lugar de honra.
Esta história verídica é a melhor prova de que a sensibilidade também se educa e de que reduzir as obras de arte ao critério da beleza é algo que o nosso tempo deixou de aceitar, abrindo-se a outras perspectivas e valorizando outros critérios. E a prova melhor que temos desta abertura é a recente obra de uma banana colada na parede com uma fita adesiva, da autoria de Maurizio Cattelan, este ano apresentada numa exposição no Museu de Serralves com o título Comedian (Comediante) que penso já ter sido vendida por valores milionários, como 6,2 milhões de dólares.
Devo dizer que embora aberta à arte contemporânea, não consegui partilhar do interesse que provocou nas multidões que contemplaram esta produção, pois na minha opinião a função da arte é mais séria do que épater le bourgeois. Mas, talvez como aconteceu com os meus primos, a minha educação artística ainda tenha que evoluir.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.










