«A Natureza, a Natureza sem ruídos».
(Giorgio de Chirico, Sur le silence)

“Uma casa granítica do silêncio onde o pintor se inspira para dar à luz as suas obras de arte.” Foto © Victor Roriz
A linguagem é a casa do ser diz-nos Heidegger. Acontece que o silêncio é o fenómeno primordial, original e originário da linguagem. Parece que estamos diante de uma contradição em acto. Não é a linguagem o que é dito ou escrito, como pode o silêncio ser também linguagem, e de um modo radical, a linguagem por excelência, sem o qual todo o signo, sinal, escrito ou vocal se torna irrelevante? Se o silêncio é um fenómeno, no sentido fenomenológico do termo, na medida em que se mostra ou manifesta e a maneira como ele próprio se mostra, então é no dizer do silêncio, na sua expressão múltipla que capamos o próprio ser, em geral, e o ser da linguagem, em particular.
É precisamente por isso que precisamos de libertar a própria linguagem e a comunicação humana do seu confinamento, do seu afastamento do mundo silencioso, porque, segundo Merleau-Ponty, em Visível e Invisível, não devemos «encerrar a linguagem como se ela falasse apenas de si mesma: ela vive apenas do silêncio; tudo o que nós lançamos aos outros germinou nesse grande país silencioso que não nos deixa».[1] Toda a filosofia e toda a criação artística não é senão a busca sensível incessante dessa pátria do silêncio, da qual provimos e à qual regressaremos.
Vem isto a propósito da mais recente mostra Arte na Leira, que ocorreu este ano entre 20 de Julho e 18 de Agosto, organizada e dinamizada pelo pintor vianense Mário Rocha, a qual se realiza ininterruptamente desde 1999. Após anos de estadia na cidade do Porto, onde frequentou a Escola Artística Soares dos Reis, dedicando-se à pintura desde 1968, o artista natural de Perre montou recentemente tenda na belíssima serra Arga de Baixo, na Casa do Marco, em Caminha, onde se realiza anualmente a Arte na Leira. Uma casa granítica do silêncio onde o pintor se inspira para dar à luz as suas obras de arte. Uma obra que já conta com centenas de exibições em diversas galerias de arte do país e no estrangeiro e se encontra patenteada em colecções privadas e institucionais.
Em 2014, a título de homenagem, deu à estampa um belíssimo catálogo, intitulado Retrato de uma vida, com as suas obras mais emblemáticas, em que se mostra o artista multifacetado que ele é, o pintor, o ceramista, o paisagista, o decorador de interiores… Há na sua arte, em particular a pintura, laivos de um novo surrealismo, essa expressão de um pensamento emocionado além do real, que o metamorfoseia em qualquer coisa outra, e de uma expressão simbólica que contradiz a simples representação e a conformidade do objecto pintado à ideia de objecto no espírito. É uma arte do corpo sensível que, no fundo, transgride as fronteiras das escolas e movimentos artísticos, para inaugurar algo de singular, uma arte que é propriamente sua.
O evento artístico Arte na Leira, que já vai na sua 26ª edição, conta sempre com a participação de inúmeros amigos artistas ou seus conhecidos, bem como duas secções dedicadas à dimensão educativa artística, uma sala de exposição de obras de crianças, outra para jovens artistas Escola Plásticas e Tecnologias Artísticas do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. À dimensão autoral, de que Mário Rocha é o corpo e a alma do projecto e do lugar Arte na Leira, se acrescenta a sua preocupação cultural e cívica, ao abrir espaço para novas expressões e gerações de artistas. É esta inexcedível generosidade, que rareia no mundo artístico, que faz dele um caso singular da nossa contemporaneidade. «Ser-se artista é ser-se humano e ajudar os outros a sê-lo»[2], sentença virgiliana que se cumpre cabalmente na maneira de ser do próprio artista, a quem lhe dá prazer receber as pessoas, de «estar cá para as receber» gratuitamente. É esta gratuidade e bondade intrínsecas do seu ser-aí-com-outrem que a sua arte também expressa, na forma empática de traçar os objectos percebidos a partir de si mesmos e não de uma visão exterior às coisas mesmas.

“Conceber o silêncio como um fenómeno que excede o próprio saber, como aquele modo originário de ser que coloca em crise uma certa forma de pensamento e ao mesmo tempo assume as condições da sua fecundidade, implica pensar outramente o devir do próprio pensar.” Pintura: No meu Silêncio, Mário Rocha. Foto © Victor Roriz
Sempre me chamou à atenção na sua obra pictórica as suas pinturas do silêncio, silêncio esse que está na génese de todo o seu processo criativo, que só a distância da serra, na sua frescura e crueza selvagens lhe poderia dar. Ali não há distracções possíveis, apenas a observação e auscultação na imediaticidade das coisas mesmas, o que se produz na sua consciência, aqui e agora, como as coisas se apresentam a si no fluxo vivido do espaço-tempo do nascimento da obra. É esta fenomenologia do espaço pictural que trabalha no silêncio prévio e anterior a todo o dizer que a obra de Mário Rocha nos dá como dimensão ou textura onírica da realidade. É um silêncio que abre a própria mão e o espírito do pintor para essa dimensão selvagem que a coloração sublima e transfigura como a forma mais evidente de todas as nossas inevidências e torna plausível a ancestralidade de uma percepção originária anterior a todo o ver óptico, como se de um olhar háptico e carnal se tratasse.
Quatro são os modos de doação desse silêncio primitivo, quatro rostos diferentes sob os quais o silêncio se dá à consciência encarnada do pintor, à vibração transcendental da sua mão, ao modo como o seu corpo habita o silêncio e no silêncio. Quatro quadros em torno da temática do silêncio, portanto: «No meu silêncio»; «Pedaços de Silêncio»; «Rosa no Silêncio»; «Silêncio nas Argas». Portanto, cores, textura e composições nascido do e no silêncio de Arga. Há em todos eles um silêncio fluído e escorreito, como o líquido da vida, um fluxo que escorre, percorre e contorna quase invisivelmente as figuras anónima do quadro e que configura as formas e a coloração da composição geral de todos esses «Silêncios» pictóricos. O silêncio é um tema recorrente e permanente na sua obra, mesmo que os quadros não se referiam explicitamente a ele, pois toda a obra nasce desse silêncio originário e que possibilita a criação mais profunda da verdade do ser e do fazer.
A obra de Mário Rocha, em particular as que se referem ao silêncio, não visa encenar uma teoria do silêncio, que se tornou hoje, de certa forma, um conceito operativo na filosofia, na psicologia ou na literatura. Não se trata de uma metafísica do silêncio, mas dá-nos a ver ou a sentir a plenitude do silêncio na indeterminação das suas formas, modos e tempos. Um silêncio primitivo em pleno coração selvagem da serra d’Arga que mão do pintor de certa forma atenua e matiza, sublimando-o e humanizando-o. Do mundo natural ao mundo do silêncio, o artista transforma esse silêncio bruto em silêncio humano, ético e estético. Casa do silêncio habitado e vivido, é um silêncio cósmico que solicita em nós uma resposta de participação e de comunhão com essa experiência fundadora, em suma, uma palavra que faça jus e não violente o silêncio do nosso ser selvagem. De pedaços de silêncio, que são também desejos de linguagem e de fala, de dizer o mais fundo de si, o grito mais profundo da alma humana e das suas sombras, o artista tece emocionalmente um tecido coerente de silêncio sentido e pensado.

“Do mundo natural ao mundo do silêncio, o artista transforma esse silêncio bruto em silêncio humano, ético e estético.” Pintura: Rosa no Silêncio, Mário Rocha. Foto © Victor Roriz
Tal como a linguagem é a articulação de palavras, para fazer sentido, a arte a articulação de formas, a pintura de Mário Rocha é a articulação de silêncios desdobrados que aparecem ou se dão a ver na turbulência dos espaços intersticiais por onde passa e sopra invisivelmente o sentido latente da sua coloração. Virgílio Ferreira, num dos seus ensaios Espaço do invisível, afirmava que «Somente a arte é memória […]. É uma memória que remete […] para a recriação de um outro de nós, de um espaço a reorganizar, de um eco que fale o seu silêncio, do intervalo em que se separe a sua materialidade da vibração que a transfigure no absoluto de uma presença.»[3] A arte é a memória deste silêncio primordial ou ancestral que ecoa na palavra humana, que traz na ausência a presença, no invisível o visível, no inconsciente o consciente, e que remete o humano para além de si mesmo, para uma possível abertura ao que não é propriamente nós, o totalmente Outro, o Englobante, o Ser.
Sobre esta paisagem silenciosa, o temor e tremor que ela incita nos viandantes e seus habitantes estrangeiros, Mário Rocha fala com humor acerca deste lugar, numa das suas entrevistas: «Este silêncio e este sossego é o que eu mais aprecio. Uma vez ficou a dormir cá em casa um pintor amigo meu – um dinamarquês que agora até comprou uma casa em Vila Praia de Âncora. Ele estava aqui sozinho, e telefonou-me às três da manhã. Dizia que não se ouvia nada de nada, e perguntava se isso era normal. Eu disse-lhe: “É, é! Desliga mas é o telefone e vai dormir. Aproveita!’»[4]. No alto deste silêncio serrano ecoa o silêncio do mar, do rio, da terra e do céu, o silêncio de todos os elementos da natureza, o silêncio humano que dança, festeja e se alegra ao som sibilante das cigarras. É aqui que pintor se sente como peixe na água, como afirma, e que quem o visite alcança talvez as raízes mais fundas do ser sensível e da nossa sensibilidade, a disposição fundamental para ver bem com olhos de ver o que nos envolve. Um silêncio sacro que se ouve ao longe no imemorial mosteiro beneditino de São João de Arga.
Conceber o silêncio como um fenómeno que excede o próprio saber, como aquele modo originário de ser que coloca em crise uma certa forma de pensamento e ao mesmo tempo assume as condições da sua fecundidade, implica pensar outramente o devir do próprio pensar. Não será precisamente o silêncio como o «outro lado» da linguagem, o outro lado do ser, abrindo-o à possibilidade de articulações e relações múltipla? Não será o silêncio a dobra anónima falante que desdobra a palavra falada e abre à infinita ressonância do mundo, ao encontro carnal das subjectividades entre si e para além de si, deiscência sensível ao que não é nós, às ultra-coisas ou às quase-coisas de um apelo transcendente no corpo da matéria imanente?
Para além das múltiplas e legítimas apreensões do silêncio como realidade inefável, sacral ou até ascético-místico, a nossa intenção é de mostrar a sua portada ontológica enquanto fenómeno originário e primordial, cuja finalidade é o nascimento e a emergência da palavra. Como escreve Max Picard, no seu Le monde du silence: «Quando a palavra deixa de estar ligada ao silêncio, já não consegue regenerar-se, perde a sua substância. A linguagem hoje parece falar apenas de si própria; dispersando-se e esvaziando-se, parece correr para um fim. Há na linguagem de hoje algo de duro, de teimosia, como se tendesse a manter-se apesar do seu vazio, e algo de desesperado, como se esperasse que o vazio conduza a um fim; esta alternância de teimosia e desespero torna-a inquieta. A linguagem ficou órfã ao ser retirada do silêncio.»[5]

“É este silêncio originário, primordial e fundador, simultaneamente natural e cultural, que proporciona o espanto e a experiência real de nos sentirmos existindo num contacto íntimo e familiar com o mundo do silêncio das coisas.” Pintura: Silêncio nas Argas, Mário Rocha. Foto © Victor Roriz
Visar o mundo a partir do silêncio enquanto fenómeno originário e primordial implica desvelar a sua objectividade silenciosa e não enquanto resultado ou mero produto do esvaziamento da palavra. Há como que uma ontologia reversível, quer dizer, há em cada palavra falada qualquer coisa que se faz silêncio, sendo o sinal da origem da palavra, e há em cada silêncio algo que fala, que é indício ou signo de que todo o acto de palavra nasce do silêncio. O mundo do silêncio, que é de certa maneira um dado objectivo, actualiza-se na palavra. O silêncio é, portanto, o lugar primeiro e a condição da apreensão lógica do mundo. Nesse sentido, o silêncio poderá constituir-se como uma alternativa teorética ou epistemológica às teorias do conhecimento clássicas que fazem da palavra um absoluto alheado do mundo do silêncio, indo muito para além de uma compreensão que reduz o silêncio ao alusivo ou como cadência poético-litúrgica. O silêncio é condição necessária, mas não suficiente, na medida em que é pela palavra de verdade que o próprio mundo se revela e manifesta plenamente. Deste modo, é na relação intrínseca entre a palavra e o silêncio, na sua corporeidade e consubstancialidade, que surge a verdade do próprio ser, das coisas, de si mesmo ou de outrem.
A pintura é uma arte muda, uma voz do silêncio, pelo qual se faz escutar os brancos fluidos entre as coisas. O silêncio é a palavra anterior ao seu proferimento, a fenomenalização (manifestação) anterior ao fenómeno; é linguagem indirecta, lateral, diagonal. Oração oblíqua. Colocar em palavras esse silêncio. Colocar silêncio na palavra, é encontra-lo aí, na palavra falante. Colocar a palavra no silêncio, é encontra-la aí, no silêncio silente. É uma ascese do sentido, da linguagem e do pensamento. O sentido de algo é imaterial sem ser ideal, porque ele aparece na intersecção ou nos intervalos das palavras. Colocar a nu os fios de silêncio que entretecem e contornam a palavra. Deste modo, a arte de Mário Rocha é uma arte fora de palavra, arte além da arte, que abre no transfundo de silêncio que a envolve para a «voz matinal da sede,/ retém o mundo límpido a flauta na falange».[6]
É este silêncio originário, primordial e fundador, simultaneamente natural e cultural, que proporciona o espanto e a experiência real de nos sentirmos existindo num contacto íntimo e familiar com o mundo do silêncio das coisas. É do silêncio que nasce a criação humana, a obra de arte, a palavra luminosa que traz em si a potência de ser e de devir. Esta dimensão poética do gesto artístico é bem ilustrada pela afirmação do pintor italiano Giorgio de Chirico, no seu artigo «Sobre o silêncio»: «Antes do aparecimento do homem na terra, o deus Silêncio reinava em todo o lado, invisível e presente […]. Deus criou o mundo silenciosamente […]. Toda a criação ocorre em silêncio […].»[7] Assim, a criação humana ou a criação divina, a criação do mundo ou a criação da obra de arte, brotam ambas deste silêncio original e inaudível que nos ultrapassa e nos lança ao mesmo tempo no corpo da palavra e na palavra do corpo, porque se somos corpos silentes, somos também corpos falantes e corpos desejantes.
O espanto estético, o espanto de se sentir existente ou de existir, o sentimento de existência, a experiência vivida de si mesmo em contacto com o mundo, nasce ou desperta no silêncio, como se pudéssemos falar de uma estética do silêncio que tudo invade. A palavra que nasce deste silêncio inaugural é também uma palavra originária e original, uma primeira palavra que diz o que nunca foi dito, precisamente porque está inscrita e enraizada neste silêncio imemorial que abre o passado ao futuro no aqui e agora. É um silêncio que se torna palavra, carne, história, linguagem e acção, e ao mesmo tempo há palavra, há carne, há história, linguagem e acção porque este silêncio permanece neles como sentinela ou solo estável do seu próprio devir. Mas este silêncio, enquanto fenómeno originário e facto permanente da existência humana, é constantemente ameaçado pelo rumor do vazio sonoro que impede ou impossibilita o desvelamento do ser do mundo e da nossa presença plena, total e ressonante no mundo.
Com efeito, algo aparece ou se mostra no silêncio da «noite escura» (João da Cruz) ou na «brancura luminosa» (Jon Fosse) da aurora do mundo. O silêncio é este «aí», esta presença inquieta que «está aí» que molda o nosso modo de ser, a nossa linguagem e os gestos humanos mais significativos. Cabe-nos agora continuar a questionar este silêncio ancestral que ainda existe e as suas múltiplas e variadas realizações. É a partir daí que podemos reaprender a ouvir o mundo e o seu silêncio, a ouvir a nota ou o som do silêncio e o ruído do silêncio. Se a vida do silêncio contém em si uma força, um poder, essa força advém do facto de nos colocar num modo de escuta e de atenção, em concordância e em ressonância profunda e empática com o mundo da vida, connosco próprios e com a vida dos outros. O silêncio como condição do discurso vivo na sua efusão, na sua imediatez e espontaneidade.
Sem o silêncio que escuta e fala ao mesmo tempo, toda a investigação filosófica ou poiésis artística se torna um fracasso das suas próprias palavras e gestos. Não será este precisamente um dos desconfortos do pensamento filosófico contemporâneo, nomeadamente a ausência de um silêncio pensante e questionador, que a pressão da produtividade do mesmo impõe como regime quase único de prática filosófica ou do filosofar? Certamente toda uma reflexão sensível a fazer-se e a procurar silenciosamente, para a qual a obra pictórica de Mário Rocha nos abre e incita intensamente. Pois, como afirma o filósofo Lyotard, «afinal, não se pinta para falar, mas para se silenciar».[8] Entre o falar e o silenciar, a percepção silenciosa e a expressão rumorejante, residirá porventura toda a força criadora da arte, mas também inevitavelmente a sua fragilidade.
[1] Merleau-Ponty, Le visible et l’invisible, Gallimard-tel, Paris, 2013, p. 165.
[2] Virgílio Ferreira, «Arte ainda», in V. Ferreira, Espaço do invisível, Vol. III, Bertrand, Lisboa, 19932, p. 42.
[3] Virgílio Ferreira, «Arte ainda», pp. 38, 39.
[4] https://www.rostosdaaldeia.pt/viana-do-castelo/arga/mario-rocha-pintor/
[5] Max Picard, Le monde du silence, Éditions Baconnière, Paris, 2019, p. 47.
[6] António Magalhães, «Fora de Palavra», in A. Magalhães, A Flauta na Falange, Caminho, Lisboa, 1990, p. 97.
[7] Giorgio de Chirico, « Sur le silence », in Minotaure : revue artistique et littéraire 5 (1934), pp. 31, 32.
[8] Jean-François Lyotard, « Freud selon Cézanne », in J.-F. Lyotard, Des dispositifs pulsionnels, Galilée, Paris, 1994, p. 86.
João Paulo Costa é presbítero católico e investigador em filosofia no CECH da Universidade de Coimbra. Autor de Indícios – à escuta dos traços de Deus (UCP editora, 2016) e de À Sombra do Invisível – fragmentos de um crer sapiencial (Documenta/Sistema Solar, 2020).










