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A bispa Mariann e o Papa Francisco – profetas dos nossos dias

| 13/02/2025

Os gestos proféticos são cada vez mais precisos, nos tempos que correm. Quanto mais densa a escuridão da noite, mais intensa a luz que irradia das atitudes e vozes que, com desassombro, denunciam o que é moralmente intolerável.

É por isso que se torna necessário estarmos atentos a esses gestos proféticos, reconhecendo-os e dando-os a conhecer, para que outros se sintam confortados e impelidos a assumir gestos próprios, nos seus ambientes de vida.

É justo, nesta linha, falar de duas figuras cristãs que, nos últimos tempos, foram protagonistas de posições corajosas de denúncia, apelo e proposta.

A primeira é Mariann Budde, de 65 anos, bispa da diocese episcopaliana de Washington D. C., a primeira mulher a ocupar estas funções, iniciadas em 2011. Gosta sobretudo de estar próxima das comunidades e da vida das pessoas e, como refere a sua página na internet, acompanha com atenção as questões da justiça, em especial a equidade racial, prevenção da violência armada, reforma da imigração, inclusão de pessoas LGBTQ+ e cuidado com a criação. Além de mãe e avó, gosta de circular de bicicleta para algumas das suas atividades pessoais e pastorais. Esteve à frente de uma paróquia de Minneapolis quase duas décadas, depois de ter feito a sua graduação em Teologia.

Ainda que não fosse propriamente uma desconhecida, o seu nome saltou repentinamente para a opinião pública, quando, no desfecho das cerimónias de investidura do presidente Trump, ousou lançar um apelo ao recém-empossado, aproveitando estar diante dele. Foi num tempo de oração interconfessional de que foi anfitriã na catedral de Washington, na manhã de terça-feira, 21 de janeiro. Depois das preces de vários líderes religiosos que aceitaram o convite (a exceção foi a dos evangélicos), e diante do Presidente, do vice-Presidente e das respetivas famílias, ela subiu ao púlpito que já havia sido tribuna de Martin Luther King, e lançou a Trump, olhos nos olhos, um apelo à misericórdia e à compaixão, pensando especialmente nas crianças e em todos os que ficaram com medo, com o resultado da eleição, sobretudo entre os imigrantes e pessoas transgénero. Foi um discurso reconhecidamente bem elaborado e bem dito, que foi traduzido em várias línguas (o 7MARGENS traduziu-o e publicou-o em português).

Bispa Mariann Budde fala na catedral nacional de Washington. Foto Catedral Nacional de Washington

A bispa Mariann Budde durante a sua intervenção, na catedral de Washington. Foto © Catedral Nacional de Washington

O visado recusou-se, no fim da cerimónia, a comentar o conteúdo, preferindo atacar a competência da (so called, assim chamada, segundo disse) bispa Mariann Budde, atribuindo-lhe motivações ideológicas e exigindo desculpas públicas.

Ela reforçaria, mais tarde, a ideia apresentada, segundo a qual é “muito perigoso” tomar como “criminosos” todos os imigrantes indocumentados. “Para unir um país com tantas riquezas de diversidade, precisamos de misericórdia. Precisamos de compaixão. Precisamos de empatia. E em vez de referir isso em termos gerais, decidi fazer um apelo ao Presidente”. E a verdade é que as suas palavras irritaram muito os apoiantes do Presidente, mas a mensagem passou.

O Papa Francisco – que é a outra figura aqui destacada – já tinha considerado “uma desgraça” a anunciada política de deportação em massa de imigrantes, em declarações ao programa Como está o tempo da TV pública italiana, na véspera da investidura de Trump. Mas foi já depois de se terem iniciado as rusgas policiais à cata de imigrantes e de terem partido muitas dezenas de voos de imigrantes algemados, de terem sido cancelados apoios federais às ONG que atuavam neste campo e das críticas dos bispos dos Estados Unidos, que Francisco dirigiu ao episcopado daquele país uma dura carta sobre este grave problema, em que não poupa nas palavras. Nela repudia, em nome da dignidade de cada pessoa, a equivalência tácita ou explícita da condição ilegal de alguns migrantes com criminalidade; sustenta que uma política de deportação ofende e contradiz um estado de direito; e termina dizendo que “aquilo que se constrói na base da força, e não a partir da igual dignidade de todo o ser humano, começa mal e mal terminará”.

A posição, em total consonância com a doutrina social da Igreja Católica e um eixo crucial do magistério deste sucessor de Pedro, desde os primeiros dias, não é, neste caso, uma posição fácil, porque o Papa tem bem presente que uma maioria absoluta de católicos votou em Trump, sabendo perfeitamente o que ele iria fazer e acreditando que ele iria melhorar o país.

Com tão forte ou maior desassombro tem sido a posição do Papa relativamente à vingança coletiva, feita de terror e genocídio, que Israel lançou sobre Gaza e a Palestina, na sequência do atentado terrorista do Hamas, em outubro de 2023. Quando, por razões de conveniência e interesse, grande parte dos líderes internacionais e, nomeadamente na Europa, ou apoiam Israel ou calam face ao inominável que todos veem (e a realidade será ainda pior do que aquilo que se vê), Francisco não se tem cansado de apelar ao cessar fogo e à paz, bem como ao reconhecimento dos direitos do povo palestiniano a terem um Estado. Mesmo correndo o risco de ver abater-se sobre ele, como tem acontecido, o ferrete do antissemitismo que é o jugo que Israel pretende impor a quem ousa discordar da sua política devastadora.

Papa Francisco, Presépio, Belém, Cisjordânia, Palestina

O Papa Francisco a visitar um presépio em madeira de oliveira, feito por artesãos cristãos de Belém e montado na Sala Paulo VI, no Vaticano, em que o Menino Jesus está deitado sobre um kaffiyeh palestiniano. Foto © Vatican News

Aqui fica, assim, o reconhecimento sentido pela difícil posição do Papa, que não podendo ser acusado de defender o que do lado do Hamas é indefensável, não pode silenciar a sua voz quando a dignidade e direitos das pessoas e dos povos são esmagados ao poder de mísseis e de bombas. Este reconhecimento é tão mais necessário quanto Francisco parece estar, em muitos momentos difíceis como os destes últimos anos, demasiado sozinho, sem conferências episcopais e outros organismos que o secundem em pronunciamentos claros quanto às preocupações pela justiça e pela paz, que são hoje centrais na agenda internacional.

Profeta é aquela ou aquele que, diante do mal e, mais ainda, do mal estrutural e absoluto, apoiado em valores comuns de humanidade ou inspirado, como nos dois casos aqui trazidos, pelos princípios do Evangelho de Jesus, não cala, mas fala – fazendo o que diz e dizendo o que faz.

Para tal, não se precisa de grandes coisas, mas de boas causas, que são, ao fim e ao cabo, as que respeitam ao reconhecimento efetivo da dignidade de cada pessoa e de cada grupo.

Em ambientes em que o espaço público se enche do ruído de gritos e hostilidade, em que a diversidade ou a divergência facilmente descambam em conflito, pode ser profético assumir atitudes e práticas tão simples como baixar o tom da voz, escutar com atenção quem pensa de forma diferente, esforçar-se por mostrar empatia, intervir com contributos para fazer avançar um processo.

Claro! É preciso prestar atenção ao mundo mais vasto. Mas ao menos no círculo de relações e de atividades de cada um é já possível iniciar projetos e processos de mudança que também concorrem, à sua escala, para o bem-estar geral.

 

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