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Tempestade Kristin
Efeitos da tempestade "Kristin". Foto © site MeteoRed Portugal

[Dicionário particular III]

‘a’ de alerta – um alerta vermelho

| 11/02/2026

 

Os meteorologistas afirmavam que a situação iria ser grave e complexa e atribuíram um alerta vermelho, daqueles que deveriam fazer-nos parar a todos.

A informação sobre o fenómeno chega-nos, pelas redes sociais e televisões, em termos técnicos que poucos dominam: ciclogénese explosiva. Sabe lá o cidadão comum que isso é uma espécie de bomba, um fenómeno capaz de virar um território do avesso.

É enviada a SMS – o muito Short Message Service.

AVISOPROCIV – Depressão Kristin: Vento intenso até 140 km/h nas próximas horas na sua região. Fique atento. Siga as recomendações autoridades. Info:800246246/www.prociv.gov.pt

140 km/h. Um número que, para a maioria, é apenas isso, um número, porque não se consegue ter perceção de um vento tão intenso. Não se pensa que rajadas dessa natureza podem arrancar telhados, derrubar árvores, dobrar postes elétricos, virar carros e contentores do lixo, transformando painéis solares em tapetes voadores. Falta-nos a escala, a memória, a noção, a prudência e o kit de emergência.

“Fique atento”. Mas, atento a quê? Ao ruído do vento? Ou às recomendações? A mensagem parecia escrita para não incomodar alguém, era um alerta vermelho em tons de amarelo pálido, como que a pedir desculpa por ter feito vibrar o telemóvel com um contratempo meteorológico.

E o país continuou noite dentro, como se nada fosse: carros na estrada, gente a regressar do trabalho, ou a sair de casa para trabalhar. Estores a meio da janela, as luzes do costume acesas, as televisões ligadas em modo distraído de campanha eleitoral. Alguns pensavam como iria estar o “tempo” no dia seguinte e as entidades empregadoras respondiam a mensagens: nada de facilitismo, é o inverno!

E não facilitaram: a presença física era obrigatória, a tempestade que espere.

Só que não esperou. A Kristin ganhou força, o vento batia nas janelas com violência – fala-se de rajadas superiores a 200 km/h – As sirenes começaram a ouvir-se. Árvores caiam, estradas fechavam, o chão e o alcatrão abriam, as linhas de água transbordavam. Voaram telhados, janelas, portas, estruturas metálicas, as luzes apagaram-se.

Fátima, clima, tempestade Kristin

Pormenor da destruição de árvores no Santuário de Fátima, na sequência da passagem da tempestade Kristin. Foto © Santuário de Fátima

Quando amanheceu, o país acordou para o cenário que já conhecemos: ruas, empresas e equipamentos destruídos, aldeias e lugares isolados, casas inundadas, veículos e transportes parados, vidas suspensas…e a descoordenação entre comando e equipas operacionais.

Desta vez, até as declarações oficiais tardaram em chegar, com as habituais promessas de “avaliar o que correu mal”, os discursos de circunstância, tudo aquilo que já não é novo e se repete. E repete. E repete.

Não podemos continuar a viver entre alertas que não alertam, mensagens que não explicam, entidades que não coordenam e cidadãos que não compreendem os riscos porque ninguém lhos traduz.

Não podemos continuar a fingir que fenómenos extremos são raridades, quando já começam a ser parte da nossa rotina climática.

Não podemos continuar a aceitar que a responsabilidade se dilua no ar: ora é do Estado, ora das empresas, ora das pessoas, quando, na realidade, é de todos.

Se queremos evitar repetir este ciclo, é preciso mais, é preciso comunicação clara, formação real, planeamento sério e decisões corajosas. É preciso que o Estado lidere, que as empresas protejam, e se protejam, e que cada um de nós compreenda que a segurança não é um detalhe, é uma escolha. E é, talvez, por isso que nos esteja a ser mais difícil admitir que não foi a tempestade que nos apanhou desprevenidos, fomos nós, todos, que continuamos a insistir em não aprender. A maléfica Kristin foi apenas o teste, aquele, de escolha múltipla, cheio de “rasteiras”, em que falhámos demasiadas repostas.

Vemo-nos por aqui, na próxima semana, para um ‘b’, talvez de boa vontade, a de um povo!

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

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