Quando, há 35 anos, assinalados neste dia 5 de Março, apareceu nas bancas o primeiro número do jornal Público, os portugueses puderam, enfim, conhecer uma personagem admirável: um rapaz de seis anos chamado Calvin, criado por Bill Watterson. Nas tiras de Calvin e do seu amigo e confidente Hobbes, um tigre de peluche, o terror do herói, dessa criança arguta e frágil, era Moe, um rapaz bruto e imbecil que o intimidava e, frequentemente, roubava.
Em certa ocasião, Moe priva Calvin de um pequeno camião de brincar. “Passa para cá o camião, minorca”. Perante a exigência, Calvin resiste: “É meu, Moe, trouxe-o de casa.” Moe insiste: “Já disse para me dares o camião”. “Não podes tirar as coisas às pessoas só porque és maior”, responde Calvin pedagogicamente. Ameaçando dar um murro a Calvin, Moe diz: “Não estou a tirá-lo. Tu estás a dar-mo, porque assim ficamos os dois muito felizes”. E Calvin conclui: “Que comovedor.”
Na tira seguinte, Calvin tenta reaver o brinquedo: “Moe, dá-me o camião. Ele não é teu.” Moe retorque: “Agora é. Tu deste-mo.” Exasperado, o “minorca” interroga: “Não tinha alternativa, pois não? Ou te dava o camião ou levava uma tareia!” “E daí?” questiona o bruto. Calvin grita: “Daí que só to ‘dei’ porque és maior e mais mauzão do que eu!” “Sim? E depois?”. A resposta de Moe impõe a Calvin uma tomada de consciência: “Essa maravilha retórica reduziu a minha lógica a nada.” Moe fica com uma dúvida: “Quer dizer que mudaste de ideias em relação à tareia?”
O roubo do camião é o tema de mais algumas tiras. Num monólogo, Calvin aventa uma hipótese para o reaver: “Já que não posso lutar com ele, talvez consiga falar, talvez ele entenda o meu ponto de vista. Talvez compreenda que roubar magoa as pessoas e me devolva o camião de livre vontade.” Mais uma vez, veremos depois que este género de abordagem não é eficaz, razão por que Calvin para não ser esmurrado desiste de obter o brinquedo.
“Ei, minorca, dá-me cem paus”, reclama Moe noutra situação. Calvin indigna-se: “O quê?! Porque havia de te dar o meu dinheiro?!”. A explicação do bruto é assaz persuasiva: “É para o ‘Fundo para a sobrevivência do Calvin’.” Calvin, enquanto pega no dinheiro, responde: “Parece uma boa causa.” E, finalmente, sozinho, constata: “O lema dele é ‘dá antes que doa’.”

A tira original em que, ameaçando dar um murro a Calvin, Moe diz: “Não estou a tirá-lo. Tu estás a dar-mo, porque assim ficamos os dois muito felizes”. E Calvin conclui: “Que comovedor.”
Moe apenas conhece relações de força. A brutalidade que demonstra assemelha-se à que Trump e os seus epígonos frequentemente exibem. Trump, aliás, tem sido comparado com outros intimidadores muito mais perigosos. A revista britânica The Economist encontrou semelhanças entre Trump e Don Vito Corleone, o protagonista de O Padrinho no romance de Mario Puzo e nos dois primeiros filmes da trilogia de Francis Ford Coppola (Donald Trump has begun a mafia-like struggle for global power). Vito Corleone, como Moe, caracterizava-se por fazer “ofertas irrecusáveis”.
A propósito do modo como Volodymyr Zelensky foi mal recebido na Casa Branca por Trump e J.D. Vance, Giorgio Ferrari assinalou no diário italiano Avvenire que o que está em jogo não é mais do que o “saque de terras raras, que é o que mais importa para The Donald” (Il colloquio alla Casa Bianca. Trump e lo stile “mafioso” che spaventa il mondo). Como o jornalista constata, o resto, ou seja, a paz, o fim das hostilidades e dos massacres inúteis nas frentes ucranianas, parece uma questão secundária.
Também Teresa de Sousa, no Público (O Padrinho, Parte II), lembrou a capa da revista The Economist e a afirmação: “Donald Trump iniciou uma luta mafiosa pelo poder global”: “A política do Don Corleone americano tem estado em exibição na Ucrânia.” Para a jornalista, a capa da revista apresentada antes da visita do Presidente da Ucrânia a Washington foi, talvez involuntariamente, premonitória. “Havia, no entanto, razões de sobra para justificar o título, mesmo antes de ser transmitida em directo para o mundo inteiro a cilada montada pelo Presidente-Don Corleone a Volodymyr Zelensky, para que toda a gente ficasse a saber o que poderia acontecer a quem não lhe beijasse a mão”.
Escreve Teresa de Sousa que Volodymyr Zelensky “tinha um gangue de mafiosos à sua espera na Sala Oval. Com um único objectivo: humilhá-lo, demonstrando que quem não beija a mão do ‘Don’ corre o risco de ser destruído. J.D. Vance desempenhou o papel do capanga que vem por trás e ‘degola’ aquele que ousa desobedecer ao chefe da máfia. Tinha dito, ainda antes de ser escolhido para ‘vice’ de Trump, que ‘verdadeiramente, a Ucrânia não me interessa nada’. Veio a Munique dizer que a Europa era mais perniciosa para os Estados Unidos do que a Rússia ou a China”.
A semióloga Cécile Alduy analisou no diário francês Le Monde (« La séquence entre Donald Trump et Volodymyr Zelensky n’était pas un dérapage, mais une proclamation ») o encontro na Sala Oval, considerando que aquilo que era habitualmente uma “cenografia estática” foi substituída “por códigos de pugilato e de confrontos verbais geralmente confinados aos talk-shows, aos canais de youtubers e podcasters de sucesso e às redes sociais”. Em vez da contenção habitual, assistiu-se a uma medição de forças perante os media, “encenada para forçar Volodymyr Zelensky a assinar um acordo”.
Para Cécile Alduy, “esta sequência marca o retorno à lei do mais forte. De facto, observa-se uma congruência entre a encenação da entrevista, a coreografia realizada pela dupla presidencial e a visão trumpista do mundo. Nessa visão, que é fundamentalmente de extrema-direita, todas as relações humanas são relações de dominação”. A semióloga considera que, para o trumpismo, “os antagonismos são irredutíveis” e “a coexistência entre vários pólos é impossível; todos os ‘outros’ são adversários com os quais não se deve debater, mas que devem simplesmente ser abatidos”. O que se passou na Sala Oval não foi, portanto, “um deslize, mas uma proclamação”: a partir de agora, os diferendos serão resolvidos por meio da violência.
No instrutivo Fascismo e populismo. Mussolini hoje (Edições ASA, 2025), Antonio Scurati, escritor e coordenador, na Universidade de Bérgamo, Itália, do Centro de Estudos de Linguagem da Guerra e da Violência, evidencia a operação que o ditador populista italiano conduziu para que as pessoas passassem de “um sentimento passivo, introvertido, depressivo, como o medo, a um sentimento ativo, expansivo e eufórico como o ódio”. O escritor julga que o fascismo, tal como o conhecemos, não virá. Mas já chegaram os seus sucedâneos, os populistas ou soberanistas, que não precisam de suprimir as instituições democráticas, pois tratarão – e já estão a tratar – de as esvaziar por dentro.
No final do livro, ao referir que terminara a ilusão de que a democracia seria eterna, surge uma dúvida: “O que podemos fazer? Antonio Scurati considera que a resposta “é, ao mesmo tempo, simplicíssima de dar e dificílima de pôr em prática: devemos retomar a luta. Uma vez livres da infeliz ilusão da sua suposta eternidade, devemos reapropriar-nos da história da democracia, tornarmos a ser parte ativa dessa história que coincide, ao longo de todo o seu curso, com a luta por ela. Uma luta diária, interminável, incansável”.
Sim. É preciso lutar pela “democracia de tradição europeia, liberal, plena e total”. Pode parecer um propósito inócuo, mas é uma tarefa urgente. É preciso que as últimas palavras não sejam as da intimidação e da violência.










