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A Escola de Atenas é uma das pinturas mais famosas de Rafael. Foto © Wikimedia Commons

[Nas margens da filosofia (LXVI)]

A dificuldade dos concursos académicos

A Escola de Atenas é uma das pinturas mais famosas de Rafael. Foto © Wikimedia Commons

“Na experiência que tenho vivido ao integrar júris para concursos, uma das falhas maiores é, sem dúvida, a ausência do contacto pessoal com os candidatos e candidatas, dado que na maior parte dos casos as provas são meramente documentais.” Pintura: Escola de Atenas uma das pinturas mais famosas de Rafael (Vaticano). © Wikimedia Commons

 

Na minha carreira académica tenho participado em júris de diferentes concursos. Os mais fáceis de resolver dizem respeito a vagas que abrem para um único lugar, às quais responde um(a) só concorrente. Nesse caso basta confrontar as exigências da função com as habilitações de quem concorre e optar por aceitar ou recusar a candidata ou candidato. De qualquer modo há sempre a existência de uma grelha (virtual ou real, pessoal ou institucional) que ajuda a que tomemos posição justificadas e o facto de haver uma só pessoa a pretender um lugar não é uma razão imediata para a sua aceitação pois há que confrontar o perfil de quem se habilita, com a função concreta que irá desempenhar.

Ultimamente verifico que cada vez se dá maior relevo à internacionalização e são sempre premiados os que publicam em revistas estrangeiras, nomeadamente de língua inglesa que presentemente constitui o esperanto dos nossos dias. É uma situação que pessoalmente não me levanta dificuldades embora entenda que, relativamente ao meu domínio — a filosofia — há línguas mais ricas como o francês, o alemão, o italiano e o próprio espanhol. Penso, no entanto, que é absurda a situação que já vivi em alguns colóquios em Portugal em que os nacionais apresentam as suas comunicações em inglês para um público maioritariamente português onde apenas participam um ou dois convidados estrangeiros. A cortesia parece-me um bom preceito a seguir, mas igualmente válida se me afigura o respeito pela língua própria.

Regressando aos concursos noto que há uma tendência a sobrevalorizar a internacionalização, sendo o inglês a língua preferida. Publicar na Oxford University Press é mais valorizado do que publicar na Vrin ou na Bompiani, embora qualquer dessas editoras seja igualmente fiável. Note-se que algumas editoras de língua portuguesa começam a ganhar prestígio e no Brasil — a Autêntica, a USP e a PUC competem com as maiores da América do Sul.

Na experiência que tenho vivido ao integrar júris para concursos, uma das falhas maiores é, sem dúvida, a ausência do contacto pessoal com os candidatos e candidatas, dado que na maior parte dos casos as provas são meramente documentais. Para além da falta que faz uma conversa para lhes avaliar a voz, a postura e a capacidade de resposta, interessa apercebermo-nos da pessoa que irá ser contratada, do modo como reage ao inesperado, das ideias que tem sobre o ensino, a carreira, a escola e os alunos. A entrevista foi um hábito que se perdeu e tudo se passa de um modo asséptico, no preenchimento de formulários.

No mundo universitário, tal como em muitos outros contextos, travam-se amizades, acontecem rupturas e estabelecem-se interesses comuns. Deverá pois haver um especial cuidado na escolha dos membros do Júri de modo a evitar favorecimentos indevidos. Também as opções científicas de cada membro deverão ser ponderadas de modo que haja equilíbrio – no caso da filosofia há que ter o cuidado em escolher um júri equilibrado onde os seus membros sejam representativos de diferentes orientações, de modo a evitar favorecimento (mesmo que inconsciente) de um ou de outro concorrente devido a afinidades de pensamento e de metodologias propostas.   E penso que deveria haver palavras de encorajamento aos excluídos, eventualmente apontando os aspectos em que deverão progredir, de modo a estimulá-los para novas oportunidades. Não deixando também de lutar por uma abertura mais frequente de vagas no ensino superior, de modo que se consiga chegar ao topo da carreira antes de uma perspectiva de reforma próxima.

 

P.S. A escrita deste texto insere-se na experiência pessoal que tenho vivido enquanto membro de júri, nomeadamente no momento presente em que dois colegas meus concorreram a um só lugar, apresentando ambos currículos de excelência.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática de Filosofia (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

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