A experiência da vulnerabilidade

| 16 Mar 20

Nas margens da filosofia (XVII)

Mais cedo ou mais tarde, estamos destinados a fazer a experiência da vulnerabilidade.” (José Tolentino Mendonça[1])

 

A situação que presentemente vivemos com o Covid-19 preocupa-nos, angustia-nos e faz-nos pensar na fragilidade das nossas vidas, levando-nos a viver na carne a experiência da vulnerabilidade. Aproveito a quarentena que nos foi imposta para reler algumas obras alusivas a situações catastróficas, nomeadamente aquelas que põem à vista o melhor e o pior da humanidade. Entre elas lembro, como particularmente significativo, o romance de Albert Camus, A Peste.[2]

O livro tem como narrador um autor desconhecido que no final se identifica com um dos seus personagens principais – o Dr. Bernard Rieux. A acção decorre nos anos 40 do século passado, na cidade argelina de Oran, então sob o domínio francês. Uma epidemia fortíssima, aparentemente causada por uma invasão de ratos, leva a uma total alteração do modus vivendi dos habitantes de Oran. A doença que rapidamente se propaga provoca sofrimentos atrozes, aos quais se seguem inevitáveis mortes. Não há remédios, procura-se uma vacina que tarda em aparecer e, paulatinamente, as pessoas são assoladas pelo medo, pela desconfiança mútua, pelo desespero e pela revolta. A estes estados seguem-se os de indiferença e de acomodação.

Ao fim de muitos meses aparece a vacina milagrosa e a epidemia cessa, nunca se chegando a perceber o que a provocou. Mas o alívio é grande, a memória é curta e o romance termina com as festas celebrativas do fim da catástrofe e com a hipótese da construção de um monumento a lembrar os mortos. Paulatinamente, a vida retoma a sua rotina e mergulha de novo numa falsa paz na qual todos querem esquecer o passado e alegrar-se com a ideia de um futuro tranquilo. Só o médico Rieux (o filósofo Camus?) está consciente de que a praga da peste se manterá como uma ameaça latente, pois o bacilo continuará a actuar, recorrentemente, ao longo dos tempos, sem que ninguém dele se aperceba.

Uma das interpretações comuns deste romance de Camus é considerá-lo como uma alegoria do sofrimento experimentado pelos franceses durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial. E as actuações dos personagens poderiam ser aproximadas dos diferentes modos como os franceses lidaram com o jugo nazi, resignando-se, pactuando com ele ou resistindo-lhe através da luta armada. Mas Camus pretende ir mais longe do que um retrato alegórico das acções de colaboradores e resistentes. O seu romance mergulha-nos no tema filosófico da condição humana, com as suas dimensões de angústia, de incompreensão e de absurdo.

Ao ler A Peste inevitavelmente lembramos outra obra do mesmo autor, o Mito de Sísifo.[3] Sísifo é o homem que os deuses condenaram a um trabalho inútil e totalmente destituído de sentido – subir uma montanha transportando uma pedra pesadíssima, pedra essa que, depois de colocada, rola para o seu lugar de origem. E, de novo, o mesmo trabalho recomeça, prolongando-se indefinidamente através dos séculos. Note-se que Rieux difere de Sísifo pois não se conforma, não se revolta e não soçobra perante a dificuldade da tarefa que lhe coube. Desempenha-a com a serenidade de quem cumpre o seu dever. Aceita a vulnerabilidade humana como um fardo, como algo que define a nossa condição, que inevitavelmente aceitamos.

Presentemente vivemos uma situação crítica e, por enquanto, desconhecemos qual será o seu desfecho. Mas, diferentemente de Camus, não devemos aceitar a vulnerabilidade como um fardo mas sim como um repto, um desafio que nos bate à porta e do qual poderemos colher dividendos. Porque as situações de crise e de sofrimento também têm um reverso positivo – elas desafiam-nos e ajudam-nos a crescer. A consciencialização das nossas fragilidades não constituiu uma derrota, mas sim o primeiro passo para uma superação possível. Pensávamo-nos donos e senhores de uma Natureza que queríamos ajustar à nossa medida e subordinar aos nossos desejos. A encíclica Laudato Si’ veio lembrar-nos que todos somos Terra e que há que escutar o grito da nossa casa comum. Propõe-nos uma conversão ecológica que não se circunscreve à alteração de comportamentos parcelares, mas que aposta num novo estilo de vida onde nos reconhecemos vulneráveis. Porque, como escreve o nosso cardeal poeta: “Só a vulnerabilidade nos eleva à altura do infinito à maneira de uma dança, onde a gravidade é vencida pela graça.”[4]

 

Notas

[1] José Tolentino Mendonça, UMA BELEZA QUE NOS PERTENCE, Lisboa, Quetzal, 2019, p. 211

[2] Albert Camus, La Peste, Paris, Gallimard, 1947 (editado em Portugal pelos Livros do Brasil).

[3] Albert Camus, Le Mythe de Sisyphe, Paris, Gallimard, 1942 (editado em Portugal pelos Livros do Brasil).

[4] José Tolentino Mendonça, ob. cit., p. 211.

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

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