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Livro de Matyás Namai

A queda de Chernobyl é o princípio do fim de um regime

| 02/06/2025

 

Em 1986, a explosão de uma central nuclear soviética é escondida de todos. Mas este acidente já se antecipava desde a sua construção nos anos 70. Novela gráfica angustiante retrata aquele que são os anos finais da então União Soviética. 

Chernobyl ficou enterrado num imenso sarcófago, não viesse a invasão da Ucrânia pela Rússia ressuscitar fantasmas antigos e medo sobre o destino desta antiga central nuclear soviética, situada em território da Ucrânia. Chernobyl foi também o mais grave acidente ocorrido numa central nuclear, tendo atingido o nível máximo de gravidade na escala oficial da Agência Internacional de Energia Atómica, tal como aconteceu com o acidente de Fukushima (Japão), em 2011.

Chernobyl é o pretexto para uma novela gráfica de Matyás Namai (n. 1993), autor checo-japonês, que desde há meses se encontra nos escaparates: Chernobyl – A queda de Atomgrad,  O centro do livro é a catástrofe de 26 de abril de 1986, mas Namai conta-nos como a tragédia se começou a desenhar desde o tempo da sua construção, na primeira metade da década de 1970, acelerada pela vontade de um ministro que se queria exibir, com materiais menos resistentes e capazes, para poupar tempo e dinheiro, ou no uso de pessoal menos qualificado, num regime em que a corrupção alastrava.

Matyás Namai condensa a história em curtas frases e vinhetas que vivem de uma multiplicidade de detalhes, para contar o que se quer em 112 páginas, demorando-se em explicações mais técnicas, que procuram guiar o leitor pelo que terá acontecido — explicando, contextualizando e mostrando — naquele dia fatídico na central nuclear.

Em 1986, Mikhail Gorbatchov estava há pouco tempo à frente dos destinos da União Soviética, mas até a sua política de abertura (glasnost), transparência e reconstrução (perestroika) foi abalada pelos velhos vícios do regime comunista: opacidade e desinformação atrasaram ou travaram quaisquer ajudas de outros países – e também não permitiu outro tipo de ajuda a muitas das vítimas. A queda de Chernobyl é o princípio do fim de um regime.

“Há muito que a União Soviética substituiu Deus pela ciência”, diz-se daquele tempo, mas o regime nem nos homens confiava plenamente. E mesmo que o autor desta novela gráfica não se detenha muito no desenho psicológico das personagens, as suas expressões, as suas dúvidas, os seus receios, as suas convicções, estão todas lá, num traço que cuida do pormenor para narrar a história de Chernobyl e dos habitantes da cidade vizinha, hoje um território desabitado, de Atomgrad Pripyat.

[Apenas um reparo: na edição portuguesa refere-se o “27.º aniversário do Partido Comunista” da União Soviética, celebrado em “25 de agosto de 1986”, em Moscovo, quando na realidade se trata da realização do 27.º Congresso do PCUS.]

Este livro pode acompanhar outros já aqui referenciados, A Bomba e Fukushima – Crónica de um desastre sem fim: o primeiro contando (em dois volumes) a história da corrida à bomba nuclear, que se traduziu na mortandade de Hiroxima e Nagasáqui; o segundo, que relata o segundo mais grave acidente da história de uma central nuclear.

Aquilo que continua a parecer muito pouco seguro, é-nos vendido agora por algumas vozes como algo fiável, barato e seguro. Matyás Namai, nascido anos depois do acidente, relembra-nos com esta novela gráfica angustiante que o nuclear não é certamente o que nos pintam nos dias de hoje. Tal e qual como no acidente de Fukushima, este é “um mosaico de vítimas que pagaram o preço da ambição e da arrogância de políticos que manobravam à distância”. Quem nos garante que a história não se pode voltar a repetir? Ninguém, a não ser um qualquer vendedor de banha da cobra.

 

Chernobyl – A queda de Atomgrad
Matyás Namai
Tradução de Ana Coelho
Editora Minotauro, 2024, 112 pp.

 

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